“International Seminar on Environment and Society”: sociólogos em debate face à emergência ambiental

Por Ana Horta

A perceção pública dos desafios ambientais tem ganho uma dimensão enorme nos últimos tempos. Isto deve-se em grande medida à inclusão das alterações climáticas nas agendas mediáticas, com as suas repercussões em eventos climáticos extremos, assim como as suas vastas implicações na produção e consumo de energia e de alimentos ou ainda na perda de biodiversidade. Além disso, recentemente outros problemas ambientais têm também captado muita atenção a nível internacional, como é o caso da utilização de plásticos. Neste contexto, cidadãos, decisores políticos, agentes dos media, cientistas e outros têm-se movimentado de formas por vezes marcantes e inéditas, como aquando do reconhecimento do estado de emergência climática e ambiental pela ONU, pelo Parlamento e pela Comissão Europeia ou pelo Papa, pelo anúncio de políticas profundamente ambiciosas (como é o caso da descarbonização da economia) ou ainda do movimento internacional de estudantes em greve à escola pelo clima. Continuar a ler

Planning as a profession: Between individual ethics and public interest

Por André Pereira

The multidisciplinary context that caracterizes planning has always made it difficult to define a common identity of the planner, and a set of shared values for the profession. One of the greatest challenges in theory (and for its translation to practice) has been to define clearly the ethical values and logics of decision in planning activites. For that reason, the concept of ‘public interest’ has been called for as the most appropriate justification for decisions in planning. However, the use of public interest to define the whole objectives of a profession raises questions that have never been convincingly resolved, and that seem essential to return to when considering the responsibility of planning within the climate change discussion. Continuar a ler

Pensamento contraintuitivo em ciência: a propósito de um livro de um historiador-antropólogo que analisa a política a partir da geografia

Por João Ferrão

Olhando por um telescópio ou por um microscópio vemos realidades distintas (uma galáxia e uma célula, por exemplo) ou diferentes facetas de uma mesma realidade? O mesmo se poderá perguntar em relação aos vários instrumentos com um alcance de visão e um poder de resolução entre esses dois extremos, como os satélites de recolha de imagens, os binóculos, o olho humano, as lupas ou as objetivas de máquinas fotográficas. Talvez a resposta mais simples seja dizer que vemos realidades distintas se as consideramos de modo isolado, mas componentes de uma mesma totalidade se interpretadas de uma forma relacional e multiescalar.

Qual é a pergunta equivalente para os cientistas sociais? Não temos telescópios, mas produzimos metateorias. Não recorremos a microscópios, mas desenvolvemos trabalhos a uma escala micro: indivíduos, objetos, espaços de uma habitação, etc. E também podemos usar instrumentos intermédios, desde as teorias de médio alcance aos estudos de caso do mais diverso tipo. Continuar a ler

YOON [caminho]

Por Pedro Figueiredo Neto

YOON | jɒn |, que em idioma wolof pode significar estrada, caminho ou percurso, é um projecto de longa metragem documental, contando também com uma  componente de investigação e  projecto artístico.

Rodado entre Portugal e o Senegal, atravessando Marrocos e a Mauritânia, YOON lança um olhar sobre determinadas mobilidades e actividades económicas entre Norte e Sul, e que envolvem não só bens e pessoas, mas também informações e ideias. Tudo isto é revelado através dos percursos de Mbaye S., um routier (denominação usada para referir os indivíduos que conduzem carros usados com fins comerciais) que, a cada mês, percorre os mais de 4000 Km de estrada que separam os dois lugares a que chama casa. Continuar a ler

A inconcebível perda das sementes agrícolas enquanto bem comum

Por Lanka Horstink

O bem comum compreende benefícios materiais, culturais ou institucionais, cuja pertença e responsabilidade para a sua preservação cabem, em igual medida, a todos os membros de uma comunidade. O solo, a água potável, os minérios, as florestas, os monumentos, as gastronomias, e o próprio ar, são exemplos de bem comum. Pode parecer evidente que estes benefícios a todos pertencem e que são cuidados em conjunto, mas a realidade não poderia ser mais distinta. Com a consagração da propriedade privada no advento da industrialização — uma condição sine qua non para o sucesso do capitalismo industrial — a humanidade foi relativizando a noção de bem comum, aceitando com progressiva normalidade a ideia da privatização de benefícios comunitários, passados assim para as mãos do melhor pagador. É hoje inegável a enorme perda de terras florestais e aráveis para as monoculturas de soja, milho e óleo de palma, que alimentam muitas indústrias e segregam camponeses e indígenas (land grabbing). Igualmente conhecida é a venda de aquíferos às maiores empresas transnacionais de processamento alimentar e a grandes empresas financeiras que vêem nestes recursos um excelente negócio de futuros (water grabbing). Já bem menos presente na esfera pública tem estado a problemática das sementes agrícolas, que são um bem milenar que trouxe sustento e sustentabilidade à humanidade, e que estão igualmente a ser retiradas do foro do bem comum, com consequências muito mais devastadoras do que possamos imaginar. Continuar a ler

Um passo à frente, um atrás e um para o lado: a Lei de Bases da Habitação (2019)

Por Simone Tulumello

A crescente centralidade da habitação no debate académico e na esfera pública em Portugal tem sido amplamente documentada neste blogue nos últimos dois anos – com artigos sobre as trajetórias demográficas, o papel do planeamento urbano na promoção de políticas públicas, a promoção da mercadorização da habitação pelo Estado, e ainda as trajetórias de longo prazo nas políticas de habitação nacionais, com foco nos casos do Programa Especial de Realojamento e dos contextos rurais.

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O mar não pode esperar: controvérsia em torno do derrame de petróleo em praias do Nordeste brasileiro

Por José Gomes Ferreira e Winifred Knox

A 30 de agosto de 2019, uma enorme mancha de petróleo de origem ainda desconhecida atingiu as praias do Nordeste brasileiro. Rapidamente a contaminação afetou praias de onze estados brasileiros e, segundo dados atualizados a 15 de janeiro de 2020 pelo IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, afetou 130 municípios e 999 localidades, com impacto nos ecossistemas marinhos e no modo de vida das comunidades. Continuar a ler

Desordenamento do território em tempo de alterações climáticas – os exemplos da CUF Tejo e do novo aeroporto no Montijo

Por Paulo Miguel Madeira

A necessidade de respostas adaptativas às consequências do aquecimento global constitui uma oportunidade, sem rival nas décadas mais recentes, para que em Portugal se leve a sério a necessidade de um ordenamento do território consequente, que responda às necessidades do conjunto da sociedade. Isto levaria a ter planos coerentes com os objetivos de política de território que sejam definidos, a todas as escalas, neste novo contexto em que os riscos climáticos se aceleram – em consonância com a versão revista do Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território (PNPOT), recentemente aprovada. E levaria também a que as normas definidas nos vários planos fossem de facto aplicadas no terreno – o que nem sempre tem acontecido. Continuar a ler

Pobreza Energética em Portugal: uma proposta metodológica para a sua avaliação e monitorização

Por João Pedro Gouveia

Nos anos 1970, na sequência da crise energética então vivida, surge no Reino Unido o termo ´pobreza energética`, uma forma de pobreza que não permite às pessoas nesse estado satisfazerem as suas necessidades de energia, por exemplo, para aquecimento e confeção de alimentos. Nessa altura começa-se a estudar o tema, mas é apenas na última década que assistimos a um crescente interesse pelo tópico, tanto na investigação como na política, passando essencialmente por perceber o conceito em diferentes áreas geográficas. Vários estudos têm alertado para a importância e influência de diferentes culturas, climas, tipologia de edifícios, tecnologias (e.g. climatização) no consumo de energia e nas diversas formas de dar resposta ao desafio de manter um ambiente confortável e saudável nas habitações. Continuar a ler

UNLEASH: pensar em soluções para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Por Jessica Verheij

No mês passado participei no UNLEASH, um programa de inovação social com a duração de uma semana, organizado por várias organizações e instituições internacionais. Este post serve para dar a conhecer o programa UNLEASH através da minha experiência, e, mais importante, para encorajar todos os doutorandos e investigadores até aos 35 anos, que estão a trabalhar em temas de desenvolvimento sustentável, a candidatar-se a este programa. UNLEASH é uma organização sem fins lucrativos patrocinada por vários parceiros internacionais, como as empresas de consultoria Chemonics e Deloitte, e várias fundações e organizações, como a Carlsberg Foundation e a Dalberg. Tem sede na Dinamarca e foi aqui que decorreu a primeira reunião do UNLEASH em 2017. No ano 2018 o programa teve lugar em Singapura, e em 2019 em Shenzhen, na China. Uma vez que está diretamente relacionado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU, o objetivo é organizar o programa todos os anos até 2030 – ano em que se pretende que os Objetivos sejam atingidos. Continuar a ler