O futuro da Universidade: precisamos de uma mudança?

Por Lavínia Pereira e Olivia Bina

“Não se pode conceber a educação sem o pensamento de um futuro.” É Clément Rosset quem o diz numa entrevista concedida a Anita Kechichian publicada em 1985 no Le Monde de l’Éducation. Historicamente, a Universidade e a função educativa têm na Modernidade o seu momento alto: o projecto iluminista entende o conhecimento como fonte de emancipação do ser humano, finalidade associada a uma ideia redentora de futuro.

Como podemos conceber o projecto educativo no momento posterior àquele em que o ideal da Modernidade foi conduzido ao seu limite por auto-refutação? Um momento em que o risco e a incerteza alteraram a experiência humana do tempo: o futuro vem agora ao nosso encontro, interrogando-nos, interrompendo permanentemente o fluir do tempo presente? [1]

Três notícias recentemente vindas a público são ilustrativas do alcance da acção do ser humano sobre o equilíbrio do planeta: a destruição do mar de Aral; a separação de mais um enorme icebergue na Antártida Ocidental; e a sexta extinção de espécies em massa descrita pelos cientistas como ‘aniquilação biológica’. Tornámo-nos uma ‘força da natureza’ que introduziu uma alteração irreversível no equilíbrio planetário.

Por outro lado, a diferença entre os mais ricos e os mais pobres é maior que nunca. De acordo com o relatório Oxfam de Janeiro de 2017, o nível de desigualdade social ultrapassa as nossas piores expectativas. Continuar a ler

Navegar a tensão entre ciência e movimentos sociais: notas a partir da soberania alimentar

Por Rita Calvário

A cada dois anos realiza-se o Colóquio sobre Estudos Agrários Críticos. Este encontro junta investigadore/as que trabalham, numa perspetiva crítica e socialmente comprometida, temas ligados à agricultura, mundo rural e alimentação com ativistas e movimentos sociais. O objetivo é proporcionar um espaço de debate que promova a reflexão crítica e a coprodução de conhecimento e contribua para avançar as lutas por um sistema agroalimentar global mais equitativo, democrático e ecológico. Este é também um espaço onde muitas das tensões que ocorrem na relação entre academia e movimentos sociais se tornam visíveis, mesmo que nem sempre de forma explícita.

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Foto de sessão plenária do Colóquio. Fonte: Elikadura21

Este ano foi o País Basco a acolher a organização do Colóquio n.º 7 (24 a 26 de Abril), aproveitando o facto de ser aqui que se vai realizar a VII Conferência Internacional da Via Campesina, de 15 a 24 de Julho de 2017. Continuar a ler

O valor das ciências sociais: riscos, preconceitos e desafios (Parte I)

Este é o quinto post da série “A utilidade das Ciência Sociais

Por João Morais Mourato

Há algum tempo atrás, o Andy Inch relembrou, neste blogue, uma questão fundamental, infelizmente pouco debatida: qual a utilidade das ciências sociais? Em resposta, o Simone Tullumelo, perante a atual mercantilização do saber e da academia, advogou o desenvolvimento de uma ciência social útil; Roberto Falanga sublinhou o efeito nefasto da atual “projectificação” na atividade científica; e Marco Allegra salientou a necessidade de questionar os próprios fundamentos epistemológicos universalistas que regem as ciências sociais contemporâneas.

Acumulam-se, de facto, denúncias de uma crise nas ciências sociais. Uma crise identitária e de relevância social que parece mobilizar pouco uma comunidade de prática que se encontra refém de uma lógica hegemónica de produtividade científica com questionável valor-acrescentado no impacte das ciências sociais. Em suma, sinto-me, por vezes, parte de uma dinâmica inquestionada de busca do que Mathias Biswanger designou de “excellence by nonsense.

No meu contributo para esta série em discussão neste blogue, defendo que, enquanto cientistas sociais, precisamos de refletir sobre o que investigamos, para quê e para quem. Primeiro, contudo, quero frisar porque é, a meu ver, particularmente urgente este debate. Continuar a ler

A bactéria da desconfiança: o caso de Vila Franca de Xira

Por João Guerra

Os acidentes industriais que ameaçam a saúde pública―ligados a atividades económicas que, por sua vez, garantem a subsistência das famílias e das comunidades―podem revelar-se momentos de ansiedade social excecional. Esses episódios são, geralmente, caracterizados por controvérsias públicas, pela desconfiança nos sistemas de monitorização, e por processos judiciais morosos que, do ponto de vista das comunidades afetadas, nem sempre se saldam por resultados positivos.

Face à sua ocorrência, assiste-se, frequentemente, a encadeados complexos, onde os sentimentos de incerteza e perplexidade se juntam a alguma inabilidade institucional para lidar com problemas inesperados. Este é o caso do surto de legionella, ocorrido entre 12 de Outubro e 4 de Dezembro de 2014, em Vila Franca de Xira.

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Surto de legionella em Vila Franca de Xira em 2014. Fonte: Sapo

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As ciências sociais como virtuosismo político e social: a epistemologia de Bent Flyvbjerg

Este é o quarto post da série “A utilidade das Ciência Sociais

Por Marco Allegra

Qual é a utilidade das ciências sociais? Qual o seu impacto na sociedade? E quais as opções (epistemológicas, metodológicas, políticas) disponíveis para o investigador maximizar este impacto – mantendo, ao mesmo tempo,  autonomia e a independência que muitos de nós associamos ao estatuto da ciência? Estas são algumas das perguntas essenciais  subjacentes ao recente post de Andy Inch neste blogue – seguido de um contributo de Simone Tulumello sobre “a ciência do possibilismo”.

Tive a oportunidade adicional de refletir sobre este tema durante o último seminário do nosso grupo de investigação. O debate que seguiu a apresentação sobre as metodologias quantitativas transformou-se, de facto, numa discussão sobre o processo de construção dos dados, a relação entre dados qualitativos e quantitativos, e as possibilidades de integração destes no desenho da pesquisa.

Neste post gostaria de continuar esta conversa encaixando-a numa perspetiva mais alargada – num discurso sobre os fundamentos epistemológicos das ciências sociais, a epistemologia sendo “o estudo do conhecimento e das crenças justificadas” e, mais em geral, “a criação e a disseminação do conhecimento em áreas de investigação específicas” (EpistemologyStanford Encyclopedia of Philosophy) – para depois voltar às questões levantadas por Andy descrevendo a proposta epistemológica de Bent Flyvbjerg sobre as ciências sociais como virtuosismo político e social. Continuar a ler

A floresta: sobre o conhecimento eco(i)lógico

Por João Afonso Baptista

Ao fim de quase duas semanas a residir numa aldeia em Angola afastada do asfalto, do cimento e das redes móveis, resolvi ir beber um café ao sítio mais próximo. O desejo pela cafeína que não havia ali surgiu-me quando matabichava com outras quatro pessoas. Anunciei-lhes a minha viagem para a manhã seguinte. “Então tens de dar boleia ao Senhor Administrador,” avisou-me o soba, “se não ele leva a mal.”

O Administrador era novo na aldeia. Homem magro, alto, com ar de cidade, claramente desajustado à vida que ali se vivia. Ele tinha sido transferido para este povoado há pouco mais de um mês.  Motivo (oficial) da sua colocação: administrar 27 aldeias dispersas “na mata”. A sede, como chamavam à casa do Administrador, construída pelo governo angolano no ponto mais elevado da povoação, situava-se junto à aldeia onde eu estava. “Estou muito oprimido aqui,” costumava queixar-se o Administrador.

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A vida com a floresta numa aldeia em Angola. Fonte: João Afonso Baptista

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Europe, film studies and the social sciences

By Mariana Liz

This post summarizes the main findings of my doctoral research, which is published as a book. It also discusses the current challenges for contemporary European cinema research, reflecting on the role film studies might occupy within the social sciences.

Ten years ago, I took part in the European Voluntary Service (EVS) programme in Perugia, Italy. I lived and worked with two other volunteers, one from Austria and one from Latvia, and we were constantly asked to give presentations in schools about our ‘European identity’.

The fact that we had one was a given. The fact that we would know how to define it, not so much. Still, we were prompted to design posters with images of tasty food and sunny places (at least in my case – I am from Portugal), and to talk at length about differences and similarities between our nations, about humanism and universality, and about European values.
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