Um novo rumo? O Fórum da Habitação no ICS-ULisboa

Por Simone Tulumello

João Ferrão salientou recentemente neste blogue como, após algumas décadas de marginalização, a habitação está a regressar ao centro da agenda política mundial. De facto, a habitação tem estado no centro da mobilização social nos anos recentes da crise (para um enquadramento, ver In Defense of Housing de David Madden e Peter Marcuse e a minha recensão em português), para depois começar a fixar-se, embora ainda de forma muito fraca, na ação de instituições internacionais como a ONU ou a UE. Em Portugal, com alguns anos de atraso, foi a retoma económica, mais do que a crise, que trouxe a habitação de volta às agendas política e pública: um crescimento económico assente no turismo e no setor imobiliário está a produzir, através da explosão do custo da habitação nos centros urbanos, novas precariedades habitacionais, que se somam a precariedades históricas (persistência de bairros informais, habitação social degradada, sobrelotação e ausência geral de soluções para as classes baixas e médio-baixas). Com mais visibilidade após a visita da Relatora Especial das Nações Unidas pela Habitação Condigna efetuada no final de 2016, multiplicaram-se os sinais sociais deste regresso (ver, por exemplo, a Caravana pelo Direito à Habitação). E também em Portugal assistimos a uma nova institucionalização do tema, evidente na criação, em julho de 2017, de uma Secretaria de Estado da Habitação, que está a trabalhar num pacote com diferentes medidas (a Nova Geração de Políticas de Habitação), enquanto a Assembleia da República prepara uma Lei de Bases da Habitação.

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O Cinema e a Cidade na Cinemateca Portuguesa

Por Mariana Liz

A relação entre o cinema e a cidade tem sido uma das grandes áreas de investigação dos estudos cinematográficos das últimas décadas. Num artigo de 2012, Charlotte Brunsdon desenhou uma cronologia de publicações sobre cinema e cidade, sobretudo em língua inglesa, nas duas décadas anteriores. Esta contém mais de trinta monografias e coleções de ensaios, e poderíamos adicionar a esta lista pelo menos duas dúzias de publicações sobre o mesmo tema lançadas nos últimos anos. Este é um número surpreendente para um campo tão restrito como, apesar de tudo, ainda é o dos estudos cinematográficos.

Face a tão rápido crescimento, para alguns este é um tema que começa a esgotar-se. No entanto, à medida que o cinema sofre transformações aos mais variados níveis – incluindo a perceção de que vivemos numa era pós-cinematográfica – e as cidades crescem em importância – como o demonstra a adoção, pelas Nações Unidas, de uma Nova Agenda Urbana – estudos sobre o cinema e cidade ganham um novo fôlego. Trabalhos mais recentes propõem-se pensar não só o que é o cinema e o que é a cidade, mas sobretudo como os dois objetos em mudança se relacionam e, ao mesmo tempo, se transformam mutuamente.

Veio de encontro a este debate o ciclo O Cinema e a Cidade, que teve lugar na Cinemateca Portuguesa entre setembro e novembro de 2017. Durante três meses, foram exibidos e discutidos dezenas de filmes que têm representado, estruturado e ajudado a pensar o espaço urbano, incluindo clássicos sobre grandes capitais mundiais, de Lisboa, Crónica Anedótica (Leitão de Barros, 1930) a Viagem a Tóquio (Yasujiro Ozu, 1953), de Roma (Federico Fellini, 1972) a Do The Right Thing (Spike Lee, 1989).

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Da cloaca ao sistema alimentar urbano

Por Rosário Oliveira

Em 2000, Wim Delvoye dava início a uma parafernálica instalação que tinha como objetivo demonstrar a transformação do alimento no aparelho digestivo humano através de sete máquinas que reproduziam os sucos e as etapas deste processo, essencial para satisfazer uma das necessidades vitais de qualquer ser vivo: alimentar-se.

A inspiração deste artista conceptual belga terá sido influenciada pelo aceso debate que decorreu no centro da Europa em torno da Política Agrícola Comum (PAC), da qualidade ambiental e da segurança alimentar, o que motivou, primeiro, a definição de estratégias de planeamento alimentar urbano e, depois, a sua implementação. Curiosamente, à semelhança da dinâmica do processo de planeamento, também a instalação de Delvoye foi evoluindo ao longo deste período, estando em condições de ser exposta no início de 2008 no Forum d’Art Contemporain, no Luxemburgo, com o título ‘Cloaca 2000–2007’ (https://wimdelvoye.be/work/cloaca).

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Estágio Ciência Viva “A Outra Lisboa”

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No âmbito dos estágios Ciência Viva destinados a alunos do 10º ao 12º ano, o Observa propõe o estágio “A Outra Lisboa”, da responsabilidade de Ana Delicado e sob coordenação de Mariana Liz, Andy Inch, Roberto Falanga e Marco Allegra. O estágio tem cinco vagas e decorrerá de 21 a 25 de Agosto, durante todo o dia. Inclui refeições.

Descrição: A cidade de Lisboa e a sua área metropolitana apresentam um vasto conjunto de caraterísticas sociais e territoriais nem sempre uniforme e contíguo. Essas caraterísticas são influenciadas, ou até determinadas, por múltiplos fatores, como o tipo de política que vigora para os contextos urbanos, a mobilização e capacidade de se auto-organizar, e também o tipo de intervenções atuadas em prol de territórios que, face a problemas altamente complexos, requerem um cuidado especial. Neste estágio, os alunos vão fazer uma investigação científica sobre a grande diversidade social e territorial de Lisboa e da sua área metropolitana, com destaque para os territórios que apresentam várias tipologias de necessidades e, em alguns casos, carências. Os alunos serão convidados a usar ferramentas das ciências sociais e humanidades (inquéritos, trabalho de campo, visitas a arquivos e análise de imagens, etc) bem como a analisar dados derivados da aplicação das mesmas para uma abordagem crítica aos problemas identificados ao longo do estágio.

Mais informações aqui.

Escolas de Verão 2017

icsEncontram-se abertas as inscrições para as Escolas de Verão 2017 do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, este ano distribuídas por duas grandes áreas: Métodos e Técnicas e Temas e Problemas. O Grupo de Investigação em Ambiente, Território e Sociedade promove várias dessas Escolas de Verão.

A primeira é a I Escola de Verão em Sustentabilidade, de 19 a 22 Junho, sob coordenação de Luísa Schmidt e Susana Fonseca, e ainda de Sofia Santos (BCSD). Esta Escola tem o objetivo de promover a temática da sustentabilidade e a sua integração na tomada de decisão no quotidiano; explorar as interligações entre ciência, economia, gestão, política e sociedade e promover contacto entre especialistas de diferentes quadrantes da sociedade; apresentar exemplos concretos de soluções para desafios (nacionais e internacionais) na área da sustentabilidade; e criar condições para redes de contacto com vista a intervenções em prol de uma sociedade sustentável.

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COP-22: o fim das ilusões e a aliança ‘oleogarca’ EUA-Rússia

Por João Camargo

Com o fim da 22ª Conferência das Partes—COP 22 da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, que decorreu em Marraquexe, terminaram também muitas das suas ilusões. Não tendo sido o colapso negocial da COP 15 de 2009, em Copenhaga, aqui colapsou a esperança de se atingir o Acordo global preconizado na COP 21 em Paris.

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Ilustração da aliança entre Trump e Putin. Autor: João Camargo

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Is social science useful?

Este é o primeiro post da série “A utilidade das Ciência Sociais

Por Andy Inch

I’ll start by saying something that a relatively new member of an academic research group in a dedicated Institute of Social Sciences probably shouldn’t own up to but sometimes I’m not really sure of the value of academic social science research.

There, I’ve admitted it.

But I don’t think this is just a crisis of self-identity. Questions about the role and purpose of social research are vital, and perhaps have particular relevance to those of us working in more applied areas of the so-called social sciences. With budgets for research funding likely to come under increasing pressure across Europe, they are also likely to have much wider significance in the near future.

Like many others, I came to research out of a fuzzy belief that knowledge can improve society – this was underpinned by a set of equally fuzzy commitments to the creation of more socially just, democratic and environmentally sustainable ways of life. Unfortunately, steeped in the pseudo-scientific search for objectivity much ‘traditional’ social research still prefers to hide away any trace of such normative values. Shaped by increasing disciplinary specialization and the prevailing model of academic publishing, meanwhile, I worry that our practices often resemble a retreat from the complexities of the world rather than a serious attempt to engage with how we can play a part in changing it for the better.
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