Catástrofes naturais, alterações climáticas e seguros

Por António Sobrinho

As catástrofes que ocorreram ao longo do ano de 2019 provocaram perdas económicas da ordem de 146.000 milhões de USD, a nível mundial. Desse montante, 137.000 milhões correspondem a danos causados por catástrofes naturais, de acordo com a SWISS RE. No mesmo período, os desastres resultantes de intervenção humana representaram apenas cerca de 6,2% do total, cifrando-se em 9.000 milhões de USD. Do conjunto das perdas globais, apenas 60.000 milhões de USD estavam cobertos por seguros, correspondendo aproximadamente a 41,1% do seu valor. Isto permite identificar uma considerável lacuna de protecção (protection gap) – ou seja, a quota-parte das perdas económicas globais não cobertas por seguros – de 58,9%. Continuar a ler

O Pirarucu: o Rei dos Rios Amazónicos

Por Fronika de Wit

Este post é sobre um peixe. Mas não sobre qualquer peixe. Como nesta época de Covid-19 é difícil viajar, vou levar-vos numa viagem até à Amazónia, o habitat do maior peixe de escamas do mundo: o Pirarucu. Durante o meu trabalho de campo em Ucayali-Peru descobri a importância deste peixe. O pirarucu – ou “el paiche” como é conhecido na língua espanhola – é muito mais do que um mero peixe; é um componente vital da política de baixo carbono e do combate às alterações climáticas. Neste post, relato o que aprendi sobre o pirarucu e faço uma análise crítica do potencial e da ameaça do seu comércio para o desenvolvimento justo da região amazónica. Continuar a ler

Governação Ambiental: O que é que os não-humanos fariam?

Por João Afonso Baptista

A certa altura, Thomas e o departamento onde trabalha foram invadidos por muitas tarefas administrativas. Essas tarefas trouxeram desafios distintos e exigiam muito trabalho. A desorientação, o cansaço e o terror da improdutividade instalaram-se na sua equipa. Thomas e os seus colegas tinham de fazer alguma coisa para resistir a tamanha sobrecarga administrativa. Empregar mais pessoas? Contratar terceiros? Renunciar às suas novas responsabilidades administrativas? Em vez disso, Thomas aproveitou o momento difícil em que vivia para repensar a forma de trabalhar da sua equipa, e decidiu implementar uma nova forma de organização no departamento. Implicaria as mesmas pessoas, mas as atividades e os processos de tomada de decisão iriam mudar radicalmente. Para tal, Thomas adotou e pôs em prática a forma como se governa noutros locais e por outros seres. Ele adotou e pôs em prática a forma de governar das abelhas nas colmeias. Numa palestra que deu em 2011, Thomas D. Seeley revelou qual a questão que passou a surgir com mais frequência no Departamento de Neurobiologia e Comportamento da Universidade Cornell, onde trabalha, sempre que têm de resolver problemas administrativos: “O que é que as abelhas fariam?” Continuar a ler

BEACON: Coruche and its coal ovens – far from being stuck in a time warp

By Alexandra Bussler

The municipality of Coruche lies about 80 km northeast of Lisbon in the district of Santarém, in Leziría do Tejo. Despite its only 20.000 inhabitants, it is one of the largest municipalities in Portugal, stretching across 1.120 km². Due to its vast cork tree plantations, Coruche has come to call itself the cork capital of the world: as the largest cork producing district it fabricates 5 million corks every day. Continuar a ler

“International Seminar on Environment and Society”: sociólogos em debate face à emergência ambiental

Por Ana Horta

A perceção pública dos desafios ambientais tem ganho uma dimensão enorme nos últimos tempos. Isto deve-se em grande medida à inclusão das alterações climáticas nas agendas mediáticas, com as suas repercussões em eventos climáticos extremos, assim como as suas vastas implicações na produção e consumo de energia e de alimentos ou ainda na perda de biodiversidade. Além disso, recentemente outros problemas ambientais têm também captado muita atenção a nível internacional, como é o caso da utilização de plásticos. Neste contexto, cidadãos, decisores políticos, agentes dos media, cientistas e outros têm-se movimentado de formas por vezes marcantes e inéditas, como aquando do reconhecimento do estado de emergência climática e ambiental pela ONU, pelo Parlamento e pela Comissão Europeia ou pelo Papa, pelo anúncio de políticas profundamente ambiciosas (como é o caso da descarbonização da economia) ou ainda do movimento internacional de estudantes em greve à escola pelo clima. Continuar a ler

Desordenamento do território em tempo de alterações climáticas – os exemplos da CUF Tejo e do novo aeroporto no Montijo

Por Paulo Miguel Madeira

A necessidade de respostas adaptativas às consequências do aquecimento global constitui uma oportunidade, sem rival nas décadas mais recentes, para que em Portugal se leve a sério a necessidade de um ordenamento do território consequente, que responda às necessidades do conjunto da sociedade. Isto levaria a ter planos coerentes com os objetivos de política de território que sejam definidos, a todas as escalas, neste novo contexto em que os riscos climáticos se aceleram – em consonância com a versão revista do Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território (PNPOT), recentemente aprovada. E levaria também a que as normas definidas nos vários planos fossem de facto aplicadas no terreno – o que nem sempre tem acontecido. Continuar a ler

Pobreza Energética em Portugal: uma proposta metodológica para a sua avaliação e monitorização

Por João Pedro Gouveia

Nos anos 1970, na sequência da crise energética então vivida, surge no Reino Unido o termo ´pobreza energética`, uma forma de pobreza que não permite às pessoas nesse estado satisfazerem as suas necessidades de energia, por exemplo, para aquecimento e confeção de alimentos. Nessa altura começa-se a estudar o tema, mas é apenas na última década que assistimos a um crescente interesse pelo tópico, tanto na investigação como na política, passando essencialmente por perceber o conceito em diferentes áreas geográficas. Vários estudos têm alertado para a importância e influência de diferentes culturas, climas, tipologia de edifícios, tecnologias (e.g. climatização) no consumo de energia e nas diversas formas de dar resposta ao desafio de manter um ambiente confortável e saudável nas habitações. Continuar a ler

UNLEASH: pensar em soluções para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Por Jessica Verheij

No mês passado participei no UNLEASH, um programa de inovação social com a duração de uma semana, organizado por várias organizações e instituições internacionais. Este post serve para dar a conhecer o programa UNLEASH através da minha experiência, e, mais importante, para encorajar todos os doutorandos e investigadores até aos 35 anos, que estão a trabalhar em temas de desenvolvimento sustentável, a candidatar-se a este programa. UNLEASH é uma organização sem fins lucrativos patrocinada por vários parceiros internacionais, como as empresas de consultoria Chemonics e Deloitte, e várias fundações e organizações, como a Carlsberg Foundation e a Dalberg. Tem sede na Dinamarca e foi aqui que decorreu a primeira reunião do UNLEASH em 2017. No ano 2018 o programa teve lugar em Singapura, e em 2019 em Shenzhen, na China. Uma vez que está diretamente relacionado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU, o objetivo é organizar o programa todos os anos até 2030 – ano em que se pretende que os Objetivos sejam atingidos. Continuar a ler

Clima e Energia: para uma Transição Enérgica e Justa

Por Luísa Schmidt

Em plena COP25 em Madrid, onde se irão definir novas metas para redução das emissões e novas metodologias para as atingir, convém reflectir sobre Portugal.

Alterações climáticas e transição energética são dois assuntos-chave que têm dado origem a políticas públicas e suscitado preocupações sociais, colocando novos desafios à sociedade portuguesa na sua diversidade.

Comecemos por analisar alguns factos para enquadramento dos problemas e dos caminhos para uma necessária transição. Os impactos das alterações climáticas interferem directamente na nossa relação com a energia. Basta pensar nas ondas de calor e de frio que produzem desconforto térmico e sobretudo riscos para a saúde pública, nos custos da energia implicados na climatização e nos transportes, ou ainda nas dinâmicas de percepção de risco e de ansiedade que tem afectado crescentemente vários sectores da população. Continuar a ler

Adaptation and human development: looking at the climate crisis from the perspective of capabilities

By Carla Gomes

We have got used to seeing human development as some kind of ladder, where gradual improvement in quality of life is the only desirable and reasonable outcome. However, the unprecedented crisis of climate change threatens to hinder longstanding gains in poverty alleviation, health and food security, at worldwide level. The ‘climate emergency’ has a direct impact on the availability of resources, shrinking liveable territory and making it all the more challenging to achieve the Sustainable Development Goals.

Looking at this problem through the lens of capabilities – our opportunities to lead a life we have reason to value – helps to clarify the multiple ways in which climate change hinders human development, or how the ‘blind spots’ of climate-related policies may reinforce existent vulnerabilities. Conversely, it unveils how our personal and social strengths, often less visible, can serve as adaptation capabilities.

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