Pobreza Energética em Portugal: uma proposta metodológica para a sua avaliação e monitorização

Por João Pedro Gouveia

Nos anos 1970, na sequência da crise energética então vivida, surge no Reino Unido o termo ´pobreza energética`, uma forma de pobreza que não permite às pessoas nesse estado satisfazerem as suas necessidades de energia, por exemplo, para aquecimento e confeção de alimentos. Nessa altura começa-se a estudar o tema, mas é apenas na última década que assistimos a um crescente interesse pelo tópico, tanto na investigação como na política, passando essencialmente por perceber o conceito em diferentes áreas geográficas. Vários estudos têm alertado para a importância e influência de diferentes culturas, climas, tipologia de edifícios, tecnologias (e.g. climatização) no consumo de energia e nas diversas formas de dar resposta ao desafio de manter um ambiente confortável e saudável nas habitações. Continuar a ler

CONCISE: O papel da comunicação nas perceções e crenças dos cidadãos europeus sobre ciência

Por Ana Delicado, Jussara Rowland, João Estevens, Roberto Falanga, Mónica Truninger

As alterações climáticas são um embuste inventado pela China. As vacinas causam autismo. Os alimentos com OGM (Organismos Geneticamente Modificados) fazem mal à saúde. A homeopatia cura o cancro, mas as empresas farmacêuticas não querem que se saiba. O Homem nunca foi à Lua. A Terra é plana.

São muitas as ideias que circulam nas redes sociais que contrariam o consenso científico prevalente. São transmitidas entre amigos, publicadas em websites, partilhadas em fóruns de discussão.  A sua disseminação aumenta o número de crentes. E, se opiniões toda a gente tem a sua, quando formam a base da tomada de decisão podem tornar-se prejudiciais para a sociedade. Pais que não vacinam os filhos não só põem em risco de vida as suas crianças como contribuem para a eclosão de epidemias. Céticos das alterações climáticas opõem-se a medidas de mitigação das emissões poluentes que poderiam impedir a catástrofe iminente. Em determinadas doenças, pacientes que substituem a medicina convencional por terapêuticas alternativas incorrem numa maior probabilidade de agravar o seu estado de saúde e até de morrer. Continuar a ler

Métodos quantitativos para uma análise exploratória de discursos sobre energia

Por Luís Junqueira

A participação nas redes sociais como o Facebook, Twitter e Instagram vem a ganhar uma importância cada vez maior na nossa interação com o mundo: veja-se, por exemplo, o papel do Twitter nas eleições americanas de 2016 ou do Facebook na mobilização para a manifestação “Que se lixe a troika” em 2013. Estas plataformas são cada vez mais espaços onde se estabelecem relações, se expressam representações sociais e se desenvolvem controvérsias. A exploração destas na sua componente relacional foi já referida num post anterior, mas ficou por fazer uma discussão sobre as possibilidades de análise do seu conteúdo. A massificação da internet trouxe também o acesso alargado a bases de documentação digitalizada, das quais as mais proeminentes são as bases de artigos de imprensa, mas que abrangem também debates parlamentares, documentos de políticas públicas, bases de livros ou de artigos científicos, entre outros. Continuar a ler

Novos dados do Eurostat sobre Alterações Climáticas

Por Ana Rita Matias

Um dos mais recentes blocos de indicadores que compõem o módulo “cross cutting topics” (temas transversais) desenvolvido pelo Eurostat, autoridade europeia de estatística, diz respeito às Alterações Climáticas. Esta compilação faz parte do esforço levado a cabo pelo Eurostat de monitorizar os progressos feitos pelos países europeus quanto aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Agenda 2030 das Nações Unidas. O módulo dedicado às Alterações Climáticas encontra-se subdividido em cinco seções temáticas, abarcando indicadores vários: 1. Emissão de gases com efeito de estufa; 2. Causas; 3. Mitigação; 4. Impactos e adaptação e, por fim, 5. Iniciativas de ação climática.

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Parque eólico offshore na Suécia. Foto de Tomasz Sienicki, licença Creative Commons 3.0 (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Turbiny_wiatrowe_w_Szwecji,_2011_ubt.JPG)

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Visualização de dados nas ciências sociais

Por Luís Junqueira

A visualização de dados é um tema que tem vindo a despertar o meu interesse ao longo da minha (ainda breve) carreira. A necessidade de representar as complexas teias de relações entre indivíduos, instituições, lugares, objetos, textos, etc. que compõem as dinâmicas sociais que estudamos fica frequentemente limitada pela nossa capacidade de as representar de forma clara e eficiente através de palavras e números.

As técnicas de visualização de dados foram um elemento importante ao longo da história da prática científica, não apenas como ilustração/representação de dados, mas como parte integrante do processo da sua interpretação. Ao trabalhar com dados quantitativos, as representações numéricas implicam frequentemente uma perda de informação ou uma visualização pouco intuitiva. A visualização através de gráficos, mapas e diagramas permite criar sínteses de grandes quantidades de informação com imenso valor para guiar, interpretar e validar o trabalho de análise estatística dos dados.

No entanto, durante grande parte do século XX a representação gráfica de dados não teve a atenção merecida por parte das ciências sociais. Após a segunda metade do século XIX, que Michael Friendly chama a Era Dourada dos gráficos estatísticos – deixo alguns exemplos interessantes de infografias do século XIX, segue-se um período marcado pela emergência das técnicas modernas de análise de dados baseadas em amostragens e testes de hipóteses estatísticas.  A introdução destas técnicas transformou as práticas científicas assentes na análise de dados quantitativos, cuja interpretação passa a ser em grande medida mediada por conjunto limitado de parâmetros estatísticos, em particular a significância, descurando a visualização dos dados como parte desta interpretação.

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O uso de métodos criativos nas ciências sociais

Por Jussara Rowland

Entre os dias 6 e 8 de julho tive a oportunidade de participar na CASICS – Creative Methods for Research and Community Engagement Summer School, em Keele, no Reino Unido. O meu interesse por esta escola deve-se ao trabalho que tenho vindo a desenvolver enquanto membro da equipa do ICS-Ulisboa no projeto CUIDAR – Culturas de Resiliência à Catástrofe entre Crianças e Jovens. Um projeto europeu de investigação-ação participativa, no qual são utilizados um conjunto alargado de métodos criativos e participativos para promover, co-criar e comunicar as perspetivas, necessidades e capacidades das crianças junto de stakeholders dos setores da emergência e proteção civil.

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Exemplo de métodos criativos usados no projeto CUIDAR: roda das catástrofes (Loures, Portugal) e mapa participativo (Ancona, Itália). Fonte: Projeto CUIDAR

Nos últimos anos tem-se assistido a um interesse crescente pelo uso de métodos criativos nas ciências sociais. Estes incluem métodos visuais (e audiovisuais), artísticos, performativos, sensoriais, narrativos, mas também novos métodos digitais. Apesar da utilização de métodos criativos não ser um fenómeno recente, o interesse atual pelo tema deve-se, por um lado, à crescente difusão na sociedade contemporânea de uma cultura visual e multimédia que tem obrigado ao desenvolvimento de novos métodos de pesquisa orientados para este tipo de conteúdos. E, por outro, à “viragem participativa” das ciências sociais, atualmente mais direcionadas para uma investigação colaborativa e coproduzida, na qual é valorizado o envolvimento ativo dos participantes na criação e produção de dados. Continuar a ler

Fazer pesquisa num contexto de partido dominante: o caso de Moçambique

Por Edson Cortez

Neste pequeno artigo pretendo dar a conhecer as vicissitudes inerentes a conduzir investigação sobre a economia política de Moçambique e assuntos similares num ambiente em que os responsáveis por fontes escritas e orais têm receio de prestar declarações ou fornecer documentos que sejam fulcrais para que o investigador obtenha resposta às suas questões de pesquisa.

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Maputo, capital e maior cidade de Moçambique. Fonte: Wikipédia

Moçambique é uma democracia de partido dominante, onde a Frente de Libertação de Moçambique—FRELIMO detém o controlo sobre o Estado, a economia, os recursos e parte da sociedade civil. Segundo o estudo “Os custos da corrupção para a economia moçambicana“,

Neste tipo de economia política, as elites dominantes que ocupam posições-chave no partido, na administração pública, militar e económica possuem uma tendência de manter o poder através da ‘reciclagem’, entre posições no partido, governo, instituições do Estado e parlamento, bem como na criação de ‘arranjos políticos’ no seio dos vários segmentos das elites governantes. Estas elites podem ser consideradas como sendo agentes que estão para se servirem a si próprios e que consolidam o poder organizando grupos de clientes, oferecendo-lhes determinados benefícios (financeiros, organizacionais, económicos, etc.) e acesso aos recursos em troca do seu apoio.

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