A transformação estrutural da floresta: uma resposta ainda incerta aos incêndios de 2017

Por: Paulo Miguel Madeira e João Mourato

Em 2017, na sequência dos catastróficos fogos de junho em Pedrógão Grande, o Governo português iniciou “uma reforma sistémica na política de prevenção e combate a incêndios florestais”. Suportada pela criação, em 2018, da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), esta reforma visou resolver “um problema estrutural de ordenamento do território, que o fenómeno das alterações climáticas vem revelando constituir uma grave ameaça à segurança das populações e ao potencial de desenvolvimento económico e social do país” (RCM nº 157-A/2017). Quatro anos passados, é já possível perceber o que avançou e o que está por fazer numa política pública que assumiu grande centralidade no discurso governamental.

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The Roar of Catastrophes: animals and humans in the face of (not-so-natural) disasters

By: Verónica Policarpo

Breathing in, take one. Inspiring Svetlana.  

How can we attune ourselves to the suffering of those caught by catastrophes? How much wonder can we find in their unimaginable capabilities for recovery?

These were the questions that inspired me when I first read Svetlana Alexievich’s Voices of Chernobyl, and then all her other books, as it usually happens when I get obsessively caught by an author that speaks to my deepest soul. What is it that triggers a line of restless enquiry that clings to our mind, as much as to our heart, to the point that it seems to have a life of its own? Here, I wish to reflect briefly upon what draws me to the study of catastrophes, and in particular to the experiences and suffering of nonhuman animals caught therein. I depart from Svetlana’s words, which was precisely what triggered my interest in the topic. Her books on human-made catastrophes – nuclear incidents, wars – are mainly about humans. But it strikes me how, in her narratives, she weaves the human accounts of disaster together with the non-human. May it be the forests of Ukraine or Belarus, caught in a radioactive peaceful mortal beauty. Or the innumerable animals caught in between the cruelty of such human excesses. At some point, in the preface of one of her books, she poignantly states (in much more beautiful words than those I can now recollect): one day, someone should make the History of all the animals killed in these disasters.

Like all important ideas, its simplicity hit me as fire. How come we have for so long disregarded what happens to animals in catastrophes? I am not an historian. But I am a social scientist and a human-animal studies scholar. And part of what I do is exactly to explore how to bring the non-human animals into our knowledge of social phenomena, including them as legitimate subjects of research, full co-producers of knowledge, accounting for their perspectives and interests. How could I, then, make a contribution?

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A TRANSIÇÃO ALIMENTAR NA ÁREA METROPOLITANA DE LISBOA

Por: Rosário Oliveira e Mónica Truninger
ICS Food Hub

No contexto das mudanças globais e da recuperação pós-pandemia, o suprimento alimentar das cidades com produtos frescos e seguros é um dos tópicos fundamentais a ser levado em consideração em todo o mundo. Através do planeamento alimentar é possível responder a diversos objetivos europeus como os do Pacto Ecológico Europeu, da Estratégia do Prado ao Prato e da Estratégia Biodiversidade 2030, ou nacionais como os da Agenda de Inovação Territorial 2030.

Os Parques Agroalimentares constituem-se como oportunidades de operacionalização de estratégias alimentares de base territorial, numa estreita relação com o ordenamento do território regional e local, com impacto positivo na criação de dinâmicas urbano-rurais de proximidade, podendo integrar diferentes componentes do sistema alimentar e fornecer serviços multifuncionais de forma inovadora.

O ICS-ULisboa, através do Gi Ambiente, Território e Sociedade e do ICS Food Hub, apresenta um ciclo de três webinars dedicado à Transição Alimentar com o objetivo de juntar pessoas, refinar conceitos, partilhar experiências e promover o debate sobre a relevância de uma Rede de Agroparques na Área Metropolitana de Lisboa (AML) que cumpra metas ecológicas, económicas, inclusivas, de saúde e de bem-estar para a população metropolitana.

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A walk on the wild side: Rewilding Britain’s landscapes with large herbivores

By: Filipa Soares

Conservation is at a crossroads. Despite increasing efforts worldwide aimed at halting or preventing the extinction of animal and plant species, many reports and scientific studies paint alarming pictures of rocketing extinction rates, dwindling population sizes and habitat loss. The era of the sixth mass extinction is under way, the first for which humankind is deemed responsible. In response to these ‘doom and gloom’ scenarios, a growing number of ecologists and conservationists has emphasised the need for innovative, proactive and experimental approaches to nature conservation. Rewilding, which was the focus of my PhD thesis in environmental geography, is one such approach.

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From Fixing to Healing: A Traditional Medicine approach to Climate Change

By: Fronika de Witt

“A daunting task lies ahead for scientists and engineers to guide society towards environmentally sustainable management during the era of the Anthropocene. This will require appropriate human behaviour at all scales, and may well involve internationally accepted, large-scale geo-engineering projects, for instance to “optimize ” climate.”

Paul Crutzen, “Geology of Mankind”, 2002

“Being an Onanya is not only about healing: it is about treating well our territory, love for our family, for the forest, plants and biodiversity.”

First Shipibo Konibo, Xetebo’ Traditional Medicine Convention, 2018

The citations above highlight tensions in dealing with current planetary challenges, such as climate change, deforestation, and biodiversity loss. The first epigraph comes from a highly cited article in the scientific journal Nature by the Dutch scientist Paul Crutzen, who coined the term ‘the Anthropocene’: our current geological epoch with significant human impact on the environment.

The second epigraph are words from a Shipibo shaman, an indigenous people that lives alongside the Ucayali river in the Peruvian Amazon. In 2018, I spent three months in the Peruvian department of Ucayali to conduct fieldwork for my doctoral research on Amazon climate governance and indigenous knowledge. In general, my fieldwork was a very enriching experience, but the “cherry on the pie”, in terms of indigenous perspectives on climate change, was an invitation for the first “‘Shipibo Konibo, Xetebo’ Traditional Medicine Convention”, where I heard the above words.

In this post, I depict some of the Convention’s main insights. However, first I elaborate more on the tension between the two epigraphs, or, as the Colombian-American anthropologist Arturo Escobar puts it: the tension between modernist and ontological politics.

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STRINGS: Vendendo os produtos agroalimentares de proveniência rural através de lojas gourmet em espaço urbano

Mónica Truninger, Elisabete Figueiredo e Alexandre Silva

Uma das principais transformações da sociedade portuguesa nos últimos 60 anos está relacionada, por um lado, com as mudanças observadas nas zonas rurais (mais ou menos intensas) e, por outro lado, com a consequente reestruturação das relações rural-urbano. Esta transformação tem vindo a aumentar a vulnerabilidade de muitos territórios rurais, através do declínio das dinâmicas demográficas e socioeconómicas, bem como do reforço das assimetrias entre o interior e o litoral de Portugal.

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It takes a city to learn about cities? Pitfalls and delights of urban comparative research

By Marco Allegra

What constitutes a city, how are cities organized, what happens in them, where are they going? — in a world of cities these and many other questions invoke a comparative gesture. The budding theorist finds herself asking of the many studies she reads from different parts of the world: are these processes the same in the city I know? Are they perhaps similar but for different reasons? Or are the issues that are being considered of limited relevance to pressing issues in the contexts I am familiar with?

(Robinson 2011: 1-2)

Comparative research is a key theoretical and methodological maneuver in social sciences. In the simplest possible definition, it means learning about something by comparing it to something else – as opposed to the simple description of a single case.

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Vírus expôs falha sistémica e agrava divergência na UE

Por Paulo Miguel Madeira*

Devido à pandemia da Covid-19, entre o final do inverno e o início da primavera de 2020, centenas de milhões de europeus ficaram com as suas vidas suspensas, sujeitos a regimes mais ou menos coercivos de permanência nas suas residências, com as saídas limitadas a situações específicas determinadas pelas autoridades. A estratégia de diminuição drástica do contacto social adotada durante estes meses foi necessária para conter a disseminação do vírus e salvar muitas vidas, porventura dezenas de milhares em Portugal e centenas de milhares ou mesmo milhões por toda a Europa. Estão em maior risco pessoas com problemas de saúde específicos e pessoas idosas em geral – e os europeus são uma população muito envelhecida.

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Água, Alimento e Energia: vértices em risco no Brasil

Por Luiz Carlos de Brito Lourenço

No âmbito do “Seminário Internacional sobre Ambiente e Sociedade: Desafios atuais e trajetórias de mudança”, realizado nos dias 2 e 3 de Março no ICS da Universidade de Lisboa, quis a organização da Associação Portuguesa de Sociologia abrir espaço para um painel sobre a “Governança dos Recursos Hídricos no Contexto Brasileiro”. As comunicações selecionadas partiram de três projetos de investigação de doutoramento ainda em andamento. Foram seguidas de uma síntese deste autor sobre os riscos que pairam sobre Água, Alimento e Energia, três vértices que conformam um espaço de análise de eventos que formam faces interligadas, inacabadas num infinito “poliedro de inteligibilidade” de Michel Foucault. (“Mesa redonda de 20 de Maio de 1978” in “Estratégia, Poder-Saber”, Forense, 2a ed., 2006, pág. 340) .

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Urban Islands In Times Of a Pandemic Or Boredom As Priviledge

By Diana Soeiro

My main research activity is developed within the ROCK project, funded by the European Union, under the Horizon 2020 programme, involving 13 European cities. Briefly, the project focuses on researching how can urban regeneration be promoted through cultural heritage. In Portugal it features two hosts, ICS-UL and Lisbon’s City Hall, promoting a methodology that encourages a close dialogue between the university and public institutions, known as action-research. The goal is that both institutions inform each other so that research translates into action, and action informs research. The selected area where the action-research takes place is in the neighbourhoods of Marvila and Beato (Lisbon). Since the beginning of the project, in 2017, this is the territory where the team has been focused. Continuar a ler