Navegar a tensão entre ciência e movimentos sociais: notas a partir da soberania alimentar

Por Rita Calvário

A cada dois anos realiza-se o Colóquio sobre Estudos Agrários Críticos. Este encontro junta investigadore/as que trabalham, numa perspetiva crítica e socialmente comprometida, temas ligados à agricultura, mundo rural e alimentação com ativistas e movimentos sociais. O objetivo é proporcionar um espaço de debate que promova a reflexão crítica e a coprodução de conhecimento e contribua para avançar as lutas por um sistema agroalimentar global mais equitativo, democrático e ecológico. Este é também um espaço onde muitas das tensões que ocorrem na relação entre academia e movimentos sociais se tornam visíveis, mesmo que nem sempre de forma explícita.

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Foto de sessão plenária do Colóquio. Fonte: Elikadura21

Este ano foi o País Basco a acolher a organização do Colóquio n.º 7 (24 a 26 de Abril), aproveitando o facto de ser aqui que se vai realizar a VII Conferência Internacional da Via Campesina, de 15 a 24 de Julho de 2017. Continuar a ler

O valor das ciências sociais: riscos, preconceitos e desafios (Parte I)

Este é o quinto post da série “A utilidade das Ciência Sociais

Por João Morais Mourato

Há algum tempo atrás, o Andy Inch relembrou, neste blogue, uma questão fundamental, infelizmente pouco debatida: qual a utilidade das ciências sociais? Em resposta, o Simone Tullumelo, perante a atual mercantilização do saber e da academia, advogou o desenvolvimento de uma ciência social útil; Roberto Falanga sublinhou o efeito nefasto da atual “projectificação” na atividade científica; e Marco Allegra salientou a necessidade de questionar os próprios fundamentos epistemológicos universalistas que regem as ciências sociais contemporâneas.

Acumulam-se, de facto, denúncias de uma crise nas ciências sociais. Uma crise identitária e de relevância social que parece mobilizar pouco uma comunidade de prática que se encontra refém de uma lógica hegemónica de produtividade científica com questionável valor-acrescentado no impacte das ciências sociais. Em suma, sinto-me, por vezes, parte de uma dinâmica inquestionada de busca do que Mathias Biswanger designou de “excellence by nonsense.

No meu contributo para esta série em discussão neste blogue, defendo que, enquanto cientistas sociais, precisamos de refletir sobre o que investigamos, para quê e para quem. Primeiro, contudo, quero frisar porque é, a meu ver, particularmente urgente este debate. Continuar a ler

As ciências sociais como virtuosismo político e social: a epistemologia de Bent Flyvbjerg

Este é o quarto post da série “A utilidade das Ciência Sociais

Por Marco Allegra

Qual é a utilidade das ciências sociais? Qual o seu impacto na sociedade? E quais as opções (epistemológicas, metodológicas, políticas) disponíveis para o investigador maximizar este impacto – mantendo, ao mesmo tempo,  autonomia e a independência que muitos de nós associamos ao estatuto da ciência? Estas são algumas das perguntas essenciais  subjacentes ao recente post de Andy Inch neste blogue – seguido de um contributo de Simone Tulumello sobre “a ciência do possibilismo”.

Tive a oportunidade adicional de refletir sobre este tema durante o último seminário do nosso grupo de investigação. O debate que seguiu a apresentação sobre as metodologias quantitativas transformou-se, de facto, numa discussão sobre o processo de construção dos dados, a relação entre dados qualitativos e quantitativos, e as possibilidades de integração destes no desenho da pesquisa.

Neste post gostaria de continuar esta conversa encaixando-a numa perspetiva mais alargada – num discurso sobre os fundamentos epistemológicos das ciências sociais, a epistemologia sendo “o estudo do conhecimento e das crenças justificadas” e, mais em geral, “a criação e a disseminação do conhecimento em áreas de investigação específicas” (EpistemologyStanford Encyclopedia of Philosophy) – para depois voltar às questões levantadas por Andy descrevendo a proposta epistemológica de Bent Flyvbjerg sobre as ciências sociais como virtuosismo político e social. Continuar a ler

“A minha opinião vale mais que os factos!”: o novo normal da pós-verdade

Por Luís Balula

Alguns dias após a eleição presidencial norte-americana de 8 de Novembro de 2016, o Oxford Dictionaries elegeu ‘pós-verdade’—post-truth—como a palavra do ano. Devo dizer que foi a primeira vez que ouvi a palavra; a primeira vez que me confrontei com o conceito. No entanto, ele existe há pelo menos 25 anos, tendo sido usado originalmente em referência à manipulação da cobertura mediática do escândalo Irão-Contra—administração Reagan—e da primeira guerra do Golfo—administração George Bush—e, mais tarde, em referência às declarações enganosas que levaram à invasão do Iraque—administração George W. Bush.

Actualmente, o conceito ganhou particular relevância, tendo-se tornado de uso corrente no contexto das recentes eleições norte-americanas, que elevaram a fasquia do abuso da verdade a novos limites. Curiosamente, ou talvez não, também no quadro de mais uma administração republicana.

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Evolução da frequência do uso da palavra ‘pós-verdade’. Fonte: Oxford Dictionaries

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A “possibilidade” de umas ciências sociais “úteis”

Este é o segundo post da série “A utilidade das Ciência Sociais

Por Simone Tulumello

Este texto é uma resposta ao estimulante post de Andy Inch, no qual ele questiona a “utilidade” das ciências sociais. A minha intenção é sugerir uma possível pista para essa utilidade – uma utilidade, diga-se desde já, radicalmente oposta às dinâmicas da academia criticadas por Andy. Para tal, vou partilhar algumas reflexões sobre os conceitos de “probabilidade” e de “possibilidade”, e sobre o seu significado em relação à construção do futuro – reflexões que provêm, embora de forma bastante livre, do meu interesse sobre o desenvolvimento (e “subdesenvolvimento”) do Mezzogiorno de Itália.

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“Por aí é o caminho”. Autor: Simone Tulumello (2012).

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