Seis temas para 2022 nos seis anos do Blogue SHIFT

Por: Alexandre Silva, Carla Gomes, Joana Sá Couto e Mariana Liz

A 5 de Janeiro de 2016 foi publicado o primeiro post do Blogue ATS – agora rebaptizado Blogue SHIFT. Em Janeiro de 2019, o livro Reflexões sobre Ambiente, Território e Sociedade marcou os seus primeiros três anos. O presente post colectivo, dos actuais editores do Blogue SHIFT, está imbuído de um espírito semelhante. Por um lado, oferece uma breve reflexão sobre o último ano do blogue, marcando, igualmente, o seu sexto aniversário. Por outro, olha para o futuro, lançando um desafio aos investigadores e investigadoras que venham a partilhar os seus textos e ideias nesta plataforma, que se quer cada vez mais aberta e anti-dogmática, ajustável às incertezas do nosso tempo.

Os posts mais visualizados no Blogue em 2021 reflectem preocupações persistentes, que ano após ano têm captado a atenção dos leitores, como as áreas protegidas e os incêndios florestais, a relação entre as alterações climáticas e as ciências sociais e a questão agrícola. Estas preocupações são reveladoras da dificuldade que temos tido em actuar sobre as grandes causas de vulnerabilidade social e ambiental em Portugal e no mundo. Este é, portanto, o nosso ponto de partida ao adiantar seis temas que deverão fazer “correr muita tinta” em 2022.

Neste aniversário do Blogue SHIFT, destacamos seis grandes temas a acompanhar durante este ano, a partir de efemérides ou eventos que irão marcar a agenda de 2022. Convidamos, assim, as autoras e autores do blogue a preservar a sua atenção ao contemporâneo, ao futuro e ao desconhecido, e a especular sobre melhores cenários para a ciência e a sociedade.

  1. Emergência climática: momentos de reflexão

Entramos em 2022 com um dos Invernos mais secos e quentes da História de Portugal. E teremos, a nível local e global, muitas oportunidades de reflectir sobre a emergência climática, enquanto cidadãos e cientistas sociais. Esperam-se duras negociações sobre o drástico corte de emissões necessário para conter o aquecimento global a 1,5 ou 2ºC, a linha vermelha que coloca em risco a humanidade e todo o planeta.

Em Abril, sai à rua em vários países a Caravana pela Justiça Climática. Em Portugal, vai percorrer 400 quilómetros, passando pelas comunidades mais expostas às consequências da crise climática e por alguns dos principais focos de emissões, marchando lado a lado com as populações locais, da Figueira da Foz até Lisboa.

Em Junho, assinalam-se os 50 anos da primeira conferência ambiental global, a emblemática conferência de Estocolmo (1972), e do primeiro relatório sobre os “Limites do Crescimento”. Em meio século, estamos cada vez mais próximos dos cenários de colapso ambiental na altura projectados. Apesar do Protocolo de Quioto e do Acordo de Paris, a política climática nunca voltou a estar à altura do momentum criado com a célebre Cimeira da Terra no Rio de Janeiro (Eco’92), na qual nasceu, há 30 anos, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (UNFCCC).

Em Novembro, realiza-se no Egipto a Conferência da ONU sobre Alterações Climáticas (COP27). Os países mais vulneráveis vêem nesta COP ‘africana’ uma oportunidade para levar à prática aquilo que ficou no papel na COP26 em Glasgow: o reconhecimento de que lhes é devida compensação pelos prejuízos que as alterações climáticas já causaram. O reforço do financiamento à acção climática, e ainda mais à adaptação, será um dos temas incontornáveis, bem como a morte anunciada, e constantemente adiada, das fontes de energia fóssil (carvão, petróleo, gás), o principal factor do aquecimento global. 

Imagem 1: Marcha “Fridays for Future”, Lisboa, Setembro de 2019.
Fonte: os autores.
  1. O papel da ciência na sustentabilidade

Em 2021 o relatório do SDG Knowledge Hub destacava uma série de falhas e insuficiências no cumprimento de metas dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e ainda o agravamento de alguns problemas devido ao impacto da pandemia, por exemplo nos indicadores de pobreza e de saúde. Neste contexto, em Setembro, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou 2022 o Ano Internacional das Ciências Básicas para o Desenvolvimento Sustentável. A iniciativa declara pretender promover o papel da ciência fundamental na prossecução dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e conta com o envolvimento de dezenas de organizações parceiras nos domínios da investigação e educação científica. 

Esta efeméride é também uma oportunidade para se pensar no lugar e na contribuição das ciências sociais para a sustentabilidade, sobretudo considerando uma acepção plural do conceito, onde se incluem áreas onde as ciências sociais sempre tiveram uma intervenção forte. Não sendo ainda conhecidas as acções que irão ocorrer ao abrigo do Ano Internacional – além das conferências de abertura e encerramento, a primeira em Julho na UNESCO em Paris, a segunda um ano depois no CERN, – foi já divulgada a lista de entidades parceiras. Destas, muitas são organismos representativos das comunidades científicas a nível global. Ainda assim é notória a extraordinária concentração geográfica destas entidades, ou das suas sedes, na Europa e América do Norte. 

Talvez uma das áreas de intervenção desta iniciativa possa ser precisamente tornar mais visíveis as comunidades científicas que vivem e trabalham nos países especialmente vulneráveis às consequências do desenvolvimento não sustentável, e que em grande parte se situam fora da Europa e América do Norte. E, apesar do reduzido peso de organizações ligadas às ciências sociais na lista de entidades parceiras, talvez estas tenham também aqui uma palavra a dizer.

  1. Trazer o mar para o Blogue SHIFT 

Neste balanço editorial sobre os últimos seis anos do Blogue Shift não poderia deixar de ser referida a necessidade de valorização das questões marítimas. Entrámos em 2021 naquela que a Organização das Nações Unidas considerou a Década da Ciência dos Oceanos para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030). 

Perante desafios como as alterações climáticas ou a poluição, é-nos algo familiar o ODS 14: em português, Proteger a vida marinha, ou, com uma tradução directa do original em inglês, Vida debaixo de água, que consagra a conservação dos oceanos como um dos grandes Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Neste sentido, um evento de especial importância será a 2ª Conferência dos Oceanos, coorganizada entre Portugal e o Quénia, que sofreu atrasos devido à Pandemia Covid-19, a acontecer em Lisboa em 2022 (27 Junho a 1 de Julho). Igualmente, o dia 8 de Junho, Dia Internacional dos Oceanos, é uma data a assinalar.

Porém, a vida nos oceanos não existe apenas debaixo de água. A pesca é uma actividade económica de grande importância, pelo que a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou 2022 o Ano Internacional da Pesca e da Aquicultura Artesanais (IYAFA). De grande interesse para as ciências sociais e para estudos multidisciplinares, a questão das comunidades piscatórias é muito relevante neste contexto de transição, uma vez que parece ser cada vez mais clara a importância das comunidades de pequena escala para a sustentabilidade. 

  1. Continuar a Discutir o Futuro das Cidades

Algo que tem vindo a interessar os leitores do Blogue SHIFT são as discussões acerca de problemáticas urbanas. A discussão sobre o futuro das cidades permanecerá viva no seio do Grupo de Investigação SHIFT, especialmente no que concerne à democratização do espaço urbano, à mobilidade sustentável e às implicações desta para o planeamento das cidades.

Grandes questões de investigação relacionadas com cidades continuam a ser relevantes perante os impactos das alterações climáticas e das vulnerabilidades que a pandemia denunciou, como a eficiência energética das casas portuguesas, uma questão indissociável da própria questão habitacional portuguesa. As comunidades energéticas e a microprodução de energia são também temas crescentes, uma vez que o melhor aproveitamento do espaço urbano para produção de energia surge como alternativa aos grandes empreendimentos de painéis solares que têm vindo a ser alvo de críticas das comunidades locais. Esta questão do melhor aproveitamento do espaço urbano pode ainda gerar linhas de investigação relacionadas com a alimentação, outro grande tema do SHIFT, a partir de hortas urbanas comunitárias, green roofs, e entre outras iniciativas das cidades ditas mais verdes. 

Imagem 2: Cidade Costeira ilustrativa de pontos de convergência de diferentes temas.
Fonte: os autores.
  1. 50 anos do 25 de Abril

A 24 de Março de 2022 têm início as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. É nessa data que a democracia supera em um dia a duração da ditadura. A herança do Estado Novo, o estado da democracia e o desenvolvimento de Portugal em relação à Europa marcaram a campanha eleitoral de Janeiro de 2022. As políticas públicas nas áreas da Alimentação, Alterações Climáticas e Sustentabilidade, Habitação e Energia, que são o foco de muitas das investigações conduzidas no seio do SHIFT, estão relacionadas com estes três temas de campanha, e não poderão deixar de reagir ao que será uma reflexão nacional sobre a evolução que as mesmas têm tido desde 1974, e podem vir a ter nos próximos anos.

Imagem 3: Celebrações do 25 de Abril em Lisboa, 2021.
Fonte: os autores.
  1. Ano Europeu da Juventude

Se o aniversário da Revolução dos Cravos faz um balanço do que tem sido o Portugal democrático, e do valor, alcance e limitações de políticas públicas em diversas áreas da sociedade, ele é também um reconhecimento da importância de análises com visão estratégica, capazes de imaginar um país diferente. A juntar-se a esta visão de futuro vem a celebração de 2022 enquanto Ano Europeu da Juventude. O objectivo é “capacitar, honrar, apoiar e dialogar com os jovens, incluindo os que têm menos oportunidades, numa perspectiva de pós-pandemia de COVID-19, com vista a ter um impacto positivo a longo prazo”, dinamizando os “esforços da União, dos Estados-Membros e das autoridades regionais e locais, em conjunto com intervenientes da sociedade civil” para este propósito.

Se foram os jovens os mais prejudicados pela crise provocada pela Covid-19, e são os jovens os que mais vêem o seu futuro ameaçado por sucessivas crises políticas, económicas e ambientais, mas também eles podem ser uma fonte única de conhecimento para a sociedade, foco e parceiros de investigação nas áreas do Ambiente, Território e Sociedade.


Alexandre Silva, Carla Gomes, Joana Sá Couto e Mariana Liz são investigadores no ICS-ULisboa.

*Nota: por opção dos autores este post foi redigido segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico.

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