Agricultura em Portugal, mil anos de História

Por Dulce Freire

Acabou de sair o primeiro livro sobre a história da agricultura em Portugal. Ainda que o país tenha sido essencialmente agrícola até aos anos 60 do século XX, faltava fazer uma síntese desse percurso e, também, das décadas mais recentes. A obra oferece uma perspectiva de longa duração, que começa nos primórdios da nacionalidade e se estende até ao século XXI. Trata-se de An Agrarian History of Portugal, 1000-2000. Economic development on the European Frontier, publicada pela editora Brill. Este é um livro colectivo, em inglês, que reúne onze investigadores que, nas últimas décadas, se têm dedicado à pesquisa de várias temáticas relacionadas com a produção e o consumo de bens alimentares.

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Capa do livro “An Agrarian History of Portugal, 1000-2000”. Fonte: Brill

Procurar os fundamentos da desigualdade na Europa

Este livro segue as tendências historiográficas que procuram construir interpretações mais unificadoras sobre as condições para o crescimento e a estagnação económica, as quais estão a contribuir para identificar os fundamentos do desenvolvimento desigual que tem marcado a Europa. Dando continuidade a um debate (já) antigo, considera-se presentemente que, para melhor compreender as trajectórias de crescimento das diferentes regiões, é pertinente explorar duas vias de pesquisa: olhar para lá dos países de modernização mais precoce e analisar as mudanças nos séculos anteriores à industrialização.

Neste contexto, um estudo sobre a agricultura portuguesa é um contributo relevante para as discussões em curso. Enquanto país da periferia, ainda que não tenha estado na linha da frente dos ganhos de produtividade, mostrou capacidade de adaptação e resposta aos estímulos para a mudança. Essa versatilidade tornou-se notória, por exemplo, nas rotas traçadas desde a Idade Média para exportar produtos (como o vinho) para o Norte da Europa ou na difusão das sementes e plantas (milho, batata, tomate, feijão, etc.) que chegaram do Novo Mundo a partir do século XV. Assim, as pesquisas recentes sugerem que o facto de o atraso económico não ter desaparecido nos séculos XIX e XX acaba por não ser a parte mais relevante do percurso da agricultura portuguesa, tanto mais que, em outros períodos históricos, mostrou dinâmicas de expansão.

Impactos históricos das alterações climáticas

Os estudos reunidos neste livro contribuem também para outros debates actuais, como os relacionados com os impactos das alterações climáticas. Há várias gerações que os historiadores estão a considerar o clima com factor crucial para explicar as oscilações na produção agrícola e as consequências relacionadas com esta (ciclos de escassez ou abundância de alimentos, movimentos sociais, crises políticas, etc.).

Nos últimos anos, as informações de diferentes origens (desde o pólen acumulado em sucessivas camadas do solo às notícias dos primeiros jornais) colectados por cientistas de vários países estão a permitir construir séries de dados com indicadores sobre o clima (temperatura, pluviosidade, etc.) desde a pré-história à actualidade (diversos organismos fornecem dados sobre este assunto, como o NOAA nos Estados Unidos). Estes indicadores, geograficamente amplos e historicamente mais precisos, são essenciais não só para conceber modelos que ajudem a prever futuras alterações climáticas, mas ainda para tornar mais sólidas as análises sobre o passado.

Durante os mil anos tratados neste livro, o clima passou do calor medieval para a “pequena idade do gelo” (uma designação polémica que resume a tendência para baixas temperaturas registadas entre os séculos XVI e XIX) e para o aquecimento que se está a verificar desde o século XIX. Cruzando dados mais recentes com outros há muito identificados, é possível aprofundar o conhecimento mesmo sobre acontecimentos ou épocas que já têm merecido numerosos estudos. É o caso, por exemplo, da reinterpretação do sucesso da Reconquista cristã, mostrando como o clima medieval foi menos favorável para a produção agrícola das regiões do Sul da Península Ibérica e terá contribuído para debilitar os que aí residiam.

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Rural português. Fonte: ICS

Novas interpretações sobre a agricultura portuguesa

Procurando construir uma análise sistemática  de dados e problemas ao longo de todo o período, os autores dos vários capítulos proporcionam uma leitura coerente para os cerca de mil anos de história da agricultura portuguesa. Nos primeiros capítulos discutem-se os impactos na agricultura decorrentes, quer do avanço da fronteira durante a Reconquista, quer da Peste Negra em meados do século XIV. A partir do século XV, a intensificação das trocas com outros continentes colocou diversos desafios à agricultura, mas sem resolver os problemas de abastecimento alimentar, que continuaram a afectar o crescimento da população e da economia.

As mudanças mais notórias e generalizadas pelo país tornaram-se visíveis no século XVIII, quando novas culturas, como o milho, já estavam a ser cultivadas em diversas regiões. Desde essa altura, o aumento consistente da população começou a inverter uma característica secular: a escassez de habitantes permitia a existência de vastas áreas por cultivar. A expansão das terras cultivadas foi uma das tendências marcantes das décadas seguintes, mas que chegou ao limite em meados do século XX. Ainda que globalmente os ganhos de produtividade tenham sido mais baixos do que nos países vizinhos, regionalmente a agricultura mostrou capacidade para inovar e responder a diversos estímulos.

Apesar de a documentação disponível não permitir colmatar todas as lacunas na informação, apresentam-se para cada época os dados conhecidos sobre oscilações na produção agrícola, mudanças regionais na área e nos produtos cultivados, redefinição de circuitos comerciais para abastecimento interno e exportação, flutuações na população ou as alterações da geografia dos principais centros urbanos. Em anexo, o livro tem uma colecção de mapas, muitos dos quais agregam informação que estava dispersa em várias fontes ou publicações, pertinentes para a compreensão deste longo percurso.

O conjunto dos capítulos mostra que as interpretações que têm apresentado a agricultura portuguesa como secularmente atrasada, rotineira ou fechada no auto-consumo carecem de fundamento histórico.


Dulce Freire é investigadora auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

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