“Inclusão”, liminaridade e precariedade científica (II)

Por Paulo Granjo

(Continuação do post publicado a 4 de Outubro)

Verifiquemos, então, em que medida esta proposta teórica poderá ser útil para compreender um processo de inclusão em curso e a negociação social nele envolvida: a regularização da precarização científica estrutural.

3 . Quando o precariado científico “não existia”

Tendo em conta o contraste entre essa situação e a atual, deveremos começar por focar a atenção no tempo recente, há menos de 2 anos, em que o precariado científico «não existia».

Claro que existia precariedade científica, abrangendo aliás 70% d@s investigadores trabalhando no país, sob 6 diferentes situações de vinculação laboral, concretizadas através de bolsas e de contratos a termo certo ou incerto. Contudo, para utilizar uma expressão clássica na análise de classes, constituíam um grupo “em si” (pela sua situação objetiva), mas não um grupo “para si” (segundo a sua perceção subjetiva).

Esse quadro resultava em grande medida de uma atomização, quer das condições de trabalho, quer das representações que lhes estavam associadas.

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Securitização das alterações climáticas: um debate político com implicações para as forças armadas

Por Raul Boeno

Enquanto o debate académico se tem ocupado em discutir conceitos paralelos, complementares e adjacentes ao de segurança, o debate político tem-se dividido entre securitizar e dessecuritizar o tema alterações climáticas.

Na Europa, a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte), o maior bloco armado do planeta, semanas antes da realização da COP 21 (Paris/2015) emitiu a Resolution 427 on Climate Change and International Security, demonstrando uma nítida postura securitizadora sobre o tema.

Esta resolução orientou os seus membros para aumentar a frequência e a participação de consultas militares, no seio da NATO, em assuntos ligados às alterações climáticas. Reforçou, também, a importância do assunto a ser tratado em Paris, devido aos futuros reflexos nos interesses da aliança na Europa e no mundo. Sobre a NATO, cabe lembrar dois pontos: o bloco incluiu as alterações climáticas como uma ameaça na sua atual estratégia de segurança e não é composto apenas por países europeus, como é o caso do Canadá e dos Estados Unidos da América (EUA). Continuar a ler

Navegar a tensão entre ciência e movimentos sociais: notas a partir da soberania alimentar

Por Rita Calvário

A cada dois anos realiza-se o Colóquio sobre Estudos Agrários Críticos. Este encontro junta investigadore/as que trabalham, numa perspetiva crítica e socialmente comprometida, temas ligados à agricultura, mundo rural e alimentação com ativistas e movimentos sociais. O objetivo é proporcionar um espaço de debate que promova a reflexão crítica e a coprodução de conhecimento e contribua para avançar as lutas por um sistema agroalimentar global mais equitativo, democrático e ecológico. Este é também um espaço onde muitas das tensões que ocorrem na relação entre academia e movimentos sociais se tornam visíveis, mesmo que nem sempre de forma explícita.

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Foto de sessão plenária do Colóquio. Fonte: Elikadura21

Este ano foi o País Basco a acolher a organização do Colóquio n.º 7 (24 a 26 de Abril), aproveitando o facto de ser aqui que se vai realizar a VII Conferência Internacional da Via Campesina, de 15 a 24 de Julho de 2017. Continuar a ler

Trauma e resiliência após um sismo: o exemplo de Amatrice, Itália

Por Ana Sofia Ribeiro

Uma estrada sinuosa coberta de neve é o único caminho que leva a Amatrice, “o mais bonito município de Itália”, devastado a 24 de agosto por um sismo de magnitude 6, que assolou as áreas marginais de três províncias: Umbria, Lazio e Marche. Desde então, cerca de 4.000 pessoas receberam assistência humanitária, tendo várias sido deslocadas e outras resgatadas de edifícios em ruínas. 299 pessoas morreram, entre as quais também crianças.

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Ruínas depois do sismo em Amatrice, Itália. Fonte: Israel Rodriguez

No âmbito de uma reunião internacional, a equipa internacional do projeto CUIDAR-Culturas de Resiliência à Catástrofe entre Crianças e Jovens  visitou o local para tomar conhecimento da resposta de emergência fornecida pela Save the Children-Itália às crianças sobreviventes à catástrofe, no âmbito de um protocolo assinado em 2016, meses antes do terramoto. O projeto CUIDAR pretende fortalecer a participação das crianças nas políticas públicas de gestão de catástrofes, contando com equipas de 5 países europeus: Reino Unido, Itália, Grécia, Espanha e Portugal. Continuar a ler

A “possibilidade” de umas ciências sociais “úteis”

Este é o segundo post da série “A utilidade das Ciência Sociais

Por Simone Tulumello

Este texto é uma resposta ao estimulante post de Andy Inch, no qual ele questiona a “utilidade” das ciências sociais. A minha intenção é sugerir uma possível pista para essa utilidade – uma utilidade, diga-se desde já, radicalmente oposta às dinâmicas da academia criticadas por Andy. Para tal, vou partilhar algumas reflexões sobre os conceitos de “probabilidade” e de “possibilidade”, e sobre o seu significado em relação à construção do futuro – reflexões que provêm, embora de forma bastante livre, do meu interesse sobre o desenvolvimento (e “subdesenvolvimento”) do Mezzogiorno de Itália.

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“Por aí é o caminho”. Autor: Simone Tulumello (2012).

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Clima e energia: política pública de ambiente em Cabo Verde

Por Luzia Oliveira

O resultado da COP 21 em Paris evidenciou a importância que a questão das alterações climáticas ocupa na agenda dos decisores políticos, tanto à escala macro como micro. Os compromissos assumidos pelos grandes e pequenos países emissores, como é o caso de Cabo Verde, mostram que não há outro caminho que não seja a opção por uma política voltada para a descarbonização da economia, a fim de evitar que a temperatura média global ultrapasse os 2ºC acima dos níveis pré-industriais.

Apesar de a primeira reunião pós-Paris COP 22, realizada em Marraquexe, ter terminado num clima de incerteza devido às eleições presidenciais norte-americanas, ficou patente que o paradigma do desenvolvimento atual, baseado essencialmente em combustíveis fósseis, é incompatível com a capacidade de absorção do planeta. Refiro-me à capacidade de sequestro por parte dos grandes sumidouros naturais, como sejam os oceanos e florestas, e mesmo das tecnologias desenvolvidas para potenciar tal capacidade, pelo que todos os esforços devem ser desencadeados para tentar inverter a trajetória de crescimento das emissões de gases com efeito de estufa. Não restam dúvidas de que é indispensável a opção por uma política energética assente na produção por fontes renováveis, conjuntamente com medidas de eficiência energética, que vão desde alternativas para otimizar a produção até às pequenas práticas individuais para racionalizar o consumo. Continuar a ler

Uma agenda social para as alterações climáticas: CLIMA EXPO 360 e Conferência no MNHNC

Carla Gomes

A necessidade de criar em Portugal uma verdadeira agenda social para as alterações climáticas ficou como uma das grandes questões em aberto da conferência ‘Alterações Climáticas: por onde passa o futuro próximo?’, que teve lugar no Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MNHNC). A conferência, que contou com a participação de investigadores franceses e portugueses, realizou-se em paralelo com a inauguração da Exposição CLIMA EXPO 360, que pode ser visitada no museu até 28 de Fevereiro. A inauguração contou com a presença do Ministro do Ambiente e do Embaixador de França.

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Poucos dias após a Conferência Global sobre as Alterações Climáticas (COP22), que terminou a 18 de Novembro em Marraquexe, o painel de cientistas convidados trouxe à discussão os principais desafios que se colocam atualmente nas frentes da mitigação e da adaptação. Filipe Duarte Santos, da Faculdade de Ciências da ULisboa, apresentou os cenários possíveis para as alterações climáticas, bem como as suas consequências sociais e económicas, nas próximas décadas. Júlia Seixas, investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, abordou as estratégias e medidas necessárias a uma economia de baixo carbono, em áreas como a energia ou os transportes.

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