Fazer da necessidade virtude: atividades participativas em tempos de COVID-19

Por: Helena Vicente, Ana Delicado, João Estevens e Jussara Rowland

Nos últimos anos tem crescido a noção de que não basta “ensinar” ciência ao público para estimular atitudes positivas e de confiança. O que as estatísticas demonstram é que “um pouco de conhecimento pode ser uma coisa perigosa”: são as pessoas com um nível intermédio de conhecimentos de ciência que demonstram atitudes mais negativas, adotando comportamentos como recusar vacinar os filhos, não reconhecer as causas humanas das alterações climáticas ou preferir tratamentos alternativos à medicina convencional.

Por isso, a ideia inicial do projeto PERSIST_EU, projeto Erasmus+ financiado pela Comissão Europeia, coordenado pela Universidade de Valência (Espanha) e com a participação de equipas da Alemanha, Eslováquia, Itália e Portugal, de desenvolver uma atividade formativa para aprofundar o conhecimento e a opinião dos estudantes europeus sobre ciência, deu lugar a uma abordagem mais participativa, que batizámos como “Science Camp” (SC).

Os SC teriam a participação de 100 jovens estudantes universitários em cada país, que se reuniriam numa tarde para visionar filmes curtos sobre alterações climáticas (AC), vacinas (VAX), organismos geneticamente modificados (OGM) e medicinas alternativas e complementares (MAC), fazer perguntas a especialistas nestes temas e debater entre si os prós e contras de diversos aspetos científicos, incluindo os modelos climáticos, as probabilidades de efeitos secundários das vacinas, o principio da precaução no uso de OGM ou o efeito placebo nos medicamentos e tratamentos alternativos. Antes e depois do evento os estudantes seriam convidados a preencher um questionário sobre estes temas, de modo a aferir como as atitudes, crenças, perceções e conhecimentos variam com a participação no SC.

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Covid-19: uma tempestade perfeita, incluindo para os processos participativos

Por: Roberto Falanga

A pandemia da covid-19 pode ser definida como uma “tempestade perfeita” que, juntamente com a crise sanitária global, alterou velhos hábitos e trouxe novos (des)equilíbrios sociais, económicos, políticos e emocionais.

Apesar de várias entidades e redes internacionais terem lançado sinais de alarme sobre os riscos iminentes de epidemias e pandemias, esta tempestade perfeita encontrou-nos impreparados e mostrou a profunda vulnerabilidade do sistema em que vivemos.

Se o distanciamento social e o uso de máscaras e álcool gel se tornaram a nossa salvaguarda no dia-a-dia, a médio e longo prazo teremos de enfrentar desafios que precisam de mais empenho político e da colaboração do tecido económico e social. Em particular, as crises alastradas pelo escasso empenho no combate às alterações climáticas representam uma ameaça incontornável para o debate público sobre o nosso futuro neste planeta.

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NATUREZA E CIDADE: EXPERIMENTANDO NOVAS ABORDAGENS ATRAVÉS DO PROJETO EUROPEU CONEXUS, EM LISBOA + 6 CIDADES

Por: Rosário Oliveira, Olivia Bina, Roberto Falanga and Andy Inch

  1. À PROCURA DE TRANSFORMAÇÕES

As múltiplas crises socioeconómicas e ecosistémicas alertam para a necessidade de olhar para uma transformação de paradigma que necessitamos imprimir na sociedade e na economia, de forma a ganharmos consciência de que somos parte integrante da natureza.  Os conceitos e as ideias inspiradoras sobre a integração dos seres humanos na natureza que vingaram nas últimas décadas não foram suficientemente efetivos, continuando a ser necessário um apelo forte à ação de todos. A Comissão Europeia lançou, no final de 2019,  o Pacto Ecológico e o roteiro para a neutralidade carbónica até 2050, exprimindo a ambição de criar uma nova estratégia, levando as cidades e os seus territórios rurais a encontrarem soluções baseadas na ideia de circularidade económica na gestão dos recursos. Esta estratégia, quando associada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pelas Nações Unidas, e aos princípios da Nova Agenda Urbana, reforça a urgência das cidades e dos assentamentos humanos se tornarem mais inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis (ver ODS 11).

Cidades em todo o mundo partilham desafios ambientais globais causados por múltiplos e complexos fatores, tais como a fragmentação da paisagem, o rápido crescimento demográfico e a expansão urbana, enquanto processos mal planeados continuam a erradicar áreas verdes e os ecossistemas associados, fundamentais para a saúde humana (física e mental) e para a biodiversidade. Uma abordagem mais ecológica requer um design criativo, quase disruptivo, e um trabalho colaborativo que conte com o envolvimento e compromisso de todos os sectores envolvidos na vida das cidades.

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Towards a ‘water-smart’ society in Europe

By Carla Gomes

When discussing water scarcity and the dire scenarios for water access in the future, European populations are probably not the first that come to mind. Yet, climate change, a growing population and competing demands between sectors such as agriculture, industry and tourism are putting pressure over water resources across the continent, and will be driving a profound shift in how we manage the ‘blue gold’ over the next few decades. Water scarcity has in fact become a serious threat, in particular for Southern Europe. In addition, over 40% of the water needed to provide products consumed in Europe is used outside EU territory, which puts pressure over global freshwater resources.

In response to an increasingly challenging scenario, improving water use efficiency is crucial. For this reason the European Commission launched in 2017 the H2020 call ‘Building a water-smart economy and society’. This call resulted in the approval of B-WaterSmart: Accelerating Water Smartness in Coastal Europe, a 4-year project coordinated by the German institute IWW Water Centre, in which the ICS-ULisboa has been involved since September 2020, being responsible for the development of the Work Package ‘Society, Governance & Policy’.

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Film industry and sustainability in the era of Covid-19

By Mariana Liz

One average tentpole film production – a film with a budget of over US$70m – generates 2,840 tonnes of CO2, the equivalent amount absorbed by 3,709 acres of forest in a year.” This is the damaging conclusion that guides the Screen New Deal report, published in September 2020. Although commissioned before the pandemic, the report already hints at new ways of working on set and on location in the era of Covid-19. 2020 has been characterized by massive changes in the film industry, from production to distribution, and particularly, exhibition. The coronavirus pandemic has seen fewer people travel by air, which is very positive in terms of carbon emissions. For instance, there have been accounts of scenes directed through Microsoft Teams and other online platforms. Several pre- and post-production activities can be done remotely, from scouting to casting, editing and special effects, and this should be encouraged as a practice even after the end of travelling restrictions.

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Catástrofes naturais, alterações climáticas e seguros

Por António Sobrinho

As catástrofes que ocorreram ao longo do ano de 2019 provocaram perdas económicas da ordem de 146.000 milhões de USD, a nível mundial. Desse montante, 137.000 milhões correspondem a danos causados por catástrofes naturais, de acordo com a SWISS RE. No mesmo período, os desastres resultantes de intervenção humana representaram apenas cerca de 6,2% do total, cifrando-se em 9.000 milhões de USD. Do conjunto das perdas globais, apenas 60.000 milhões de USD estavam cobertos por seguros, correspondendo aproximadamente a 41,1% do seu valor. Isto permite identificar uma considerável lacuna de protecção (protection gap) – ou seja, a quota-parte das perdas económicas globais não cobertas por seguros – de 58,9%. Continuar a ler

O Pirarucu: o Rei dos Rios Amazónicos

Por Fronika de Wit

Este post é sobre um peixe. Mas não sobre qualquer peixe. Como nesta época de Covid-19 é difícil viajar, vou levar-vos numa viagem até à Amazónia, o habitat do maior peixe de escamas do mundo: o Pirarucu. Durante o meu trabalho de campo em Ucayali-Peru descobri a importância deste peixe. O pirarucu – ou “el paiche” como é conhecido na língua espanhola – é muito mais do que um mero peixe; é um componente vital da política de baixo carbono e do combate às alterações climáticas. Neste post, relato o que aprendi sobre o pirarucu e faço uma análise crítica do potencial e da ameaça do seu comércio para o desenvolvimento justo da região amazónica. Continuar a ler

COVID-19 narratives: old wine in new bottles?

Por Cláudia Santos e João Morais Mourato

As the COVID-19 pandemic unfolds it becomes clear this is not just a random phenomenon of human-Nature interaction. It is the product of human choices, quintessentially anthropogenic in its creation, reach, response and politicisation. The growingly quarantined world population, from the forced seclusion of their homes, expresses the full range of human emotions. All over the world digital logbooks are keeping record of some of these voices. The large majority however will never be heard. For them this will be another layer of their vulnerability, a cruel reminder of their marginalisation and structural disadvantage. Continuar a ler

Governação Ambiental: O que é que os não-humanos fariam?

Por João Afonso Baptista

A certa altura, Thomas e o departamento onde trabalha foram invadidos por muitas tarefas administrativas. Essas tarefas trouxeram desafios distintos e exigiam muito trabalho. A desorientação, o cansaço e o terror da improdutividade instalaram-se na sua equipa. Thomas e os seus colegas tinham de fazer alguma coisa para resistir a tamanha sobrecarga administrativa. Empregar mais pessoas? Contratar terceiros? Renunciar às suas novas responsabilidades administrativas? Em vez disso, Thomas aproveitou o momento difícil em que vivia para repensar a forma de trabalhar da sua equipa, e decidiu implementar uma nova forma de organização no departamento. Implicaria as mesmas pessoas, mas as atividades e os processos de tomada de decisão iriam mudar radicalmente. Para tal, Thomas adotou e pôs em prática a forma como se governa noutros locais e por outros seres. Ele adotou e pôs em prática a forma de governar das abelhas nas colmeias. Numa palestra que deu em 2011, Thomas D. Seeley revelou qual a questão que passou a surgir com mais frequência no Departamento de Neurobiologia e Comportamento da Universidade Cornell, onde trabalha, sempre que têm de resolver problemas administrativos: “O que é que as abelhas fariam?” Continuar a ler

BEACON: Coruche and its coal ovens – far from being stuck in a time warp

By Alexandra Bussler

The municipality of Coruche lies about 80 km northeast of Lisbon in the district of Santarém, in Leziría do Tejo. Despite its only 20.000 inhabitants, it is one of the largest municipalities in Portugal, stretching across 1.120 km². Due to its vast cork tree plantations, Coruche has come to call itself the cork capital of the world: as the largest cork producing district it fabricates 5 million corks every day. Continuar a ler