Relações entre alterações climáticas e segurança

Por Renate Kottel Boeno

O debate académico—uma das forças motrizes dos estudos sobre segurança—tem salientado a relevância crescente da interrelação entre alterações climáticas e segurança. Nesse sentido, os relatórios do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) e do United Nations Office for Disasters Risk Reduction (UNISDR), os discursos securitizadores e as pesquisas científicas têm apresentado um denominador comum: o alerta de que as alterações climáticas, os desastres decorrentes de eventos climáticos extremos, a urbanização desordenada e a escassez de recursos naturais potenciam e agravam os problemas sociais e económicos, destacadamente nos países em desenvolvimento. Esses obstáculos fragilizam a segurança do Estado e da população, ameaçando o bem-estar individual, coletivo e estatal, bem como o ambiente e demais sistemas, indicando-os como ameaça à paz e exacerbando vulnerabilidades e tensões existentes—favorecendo a ocorrência de conflitos.

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Atuação de militares em ação conjunta para socorro a desastre natural nos Estados Unidos da América. Fonte: Wikipédia

Segurança, tradicionalmente, tem sido entendida como o conjunto de interesses políticos de grupos específicos, sob um discurso de forte influência militar, com a finalidade de proteger o Estado de ameaças internas ou externas, bem como de outros perigos que possam prejudicar interesses e valores da sua sociedade. A partir dessa perspetiva tradicional, segurança mediaria a ausência de ameaça e de guerra.

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As ciências sociais como virtuosismo político e social: a epistemologia de Bent Flyvbjerg

Este é o quarto post da série “A utilidade das Ciência Sociais

Por Marco Allegra

Qual é a utilidade das ciências sociais? Qual o seu impacto na sociedade? E quais as opções (epistemológicas, metodológicas, políticas) disponíveis para o investigador maximizar este impacto – mantendo, ao mesmo tempo,  autonomia e a independência que muitos de nós associamos ao estatuto da ciência? Estas são algumas das perguntas essenciais  subjacentes ao recente post de Andy Inch neste blogue – seguido de um contributo de Simone Tulumello sobre “a ciência do possibilismo”.

Tive a oportunidade adicional de refletir sobre este tema durante o último seminário do nosso grupo de investigação. O debate que seguiu a apresentação sobre as metodologias quantitativas transformou-se, de facto, numa discussão sobre o processo de construção dos dados, a relação entre dados qualitativos e quantitativos, e as possibilidades de integração destes no desenho da pesquisa.

Neste post gostaria de continuar esta conversa encaixando-a numa perspetiva mais alargada – num discurso sobre os fundamentos epistemológicos das ciências sociais, a epistemologia sendo “o estudo do conhecimento e das crenças justificadas” e, mais em geral, “a criação e a disseminação do conhecimento em áreas de investigação específicas” (EpistemologyStanford Encyclopedia of Philosophy) – para depois voltar às questões levantadas por Andy descrevendo a proposta epistemológica de Bent Flyvbjerg sobre as ciências sociais como virtuosismo político e social. Continuar a ler

“A minha opinião vale mais que os factos!”: o novo normal da pós-verdade

Por Luís Balula

Alguns dias após a eleição presidencial norte-americana de 8 de Novembro de 2016, o Oxford Dictionaries elegeu ‘pós-verdade’—post-truth—como a palavra do ano. Devo dizer que foi a primeira vez que ouvi a palavra; a primeira vez que me confrontei com o conceito. No entanto, ele existe há pelo menos 25 anos, tendo sido usado originalmente em referência à manipulação da cobertura mediática do escândalo Irão-Contra—administração Reagan—e da primeira guerra do Golfo—administração George Bush—e, mais tarde, em referência às declarações enganosas que levaram à invasão do Iraque—administração George W. Bush.

Actualmente, o conceito ganhou particular relevância, tendo-se tornado de uso corrente no contexto das recentes eleições norte-americanas, que elevaram a fasquia do abuso da verdade a novos limites. Curiosamente, ou talvez não, também no quadro de mais uma administração republicana.

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Evolução da frequência do uso da palavra ‘pós-verdade’. Fonte: Oxford Dictionaries

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O longo e tortuoso caminho da sustentabilidade

Autora: Susana Fonseca

Há momentos na vida que nos dão a impressão de serem pontos de viragem, inspiradores para a necessária mudança que terá de ocorrer se quisermos construir sociedades sustentáveis. Pessoalmente, a Cimeira do Rio, em 1992, teve esse efeito. Mas o  que aos olhos de uma jovem acabada de atingir a maioridade parecia ser o anúncio de um futuro novo, mais democrático, de trabalho conjunto entre os povos para garantir às gerações futuras a qualidade de vida que ambicionamos, não veio a concretizar-se.

Não que sejam de descurar as conquistas de então, desde logo porque, sendo marcos da história da sustentabilidade, lá estão para nos relembrar que a regressão tem limites. Mas vivemos hoje num contexto ambiental, económico e social que está muito longe do sonho da sustentabilidade. Aliás, para quem acompanha a área da regulamentação ambiental é claro que hoje se tornou muito mais difícil fazer passar legislação que promova a sustentabilidade do que há uma década atrás. Por exemplo, a aplicação do princípio da precaução, ainda que esteja instituído nos tratados da União Europeia como estruturante da política ambiental, encontra hoje uma barreira tecnocrática no seio das diferentes instituições europeias e um fortíssimo lóbi de contestação por parte da indústria, mas também de vários países, entre eles os EUA e o Canadá.
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Se o vinho sabe bem… O Lado Negro do terroir

Marco Allegra

Segundo a International Organisation of Vine and Wine, terroir “is a concept which refers to an area in which collective knowledge of the interactions between  the  identifiable  physical  and  biological  environment  and  applied  vitivinicultural  practices  develops,  providing  distinctive  characteristics  for  the products originating from this area”.

Trata-se de uma definição minimalista. Como sublinha a Revista de Vinhos, “[f]alar de Terroir é falar de topografia, orografia, geologia, pedologia, drenagem, clima e microclima, condução da vinha, castas, porta-enxerto, intervenção humana, cultura, história, tradição etc.”. Um artigo no New York Times define o terroir como “a concept almost untranslatable, combining soil, weather, region and notions of authenticity, of genuineness and particularity – of roots, and home – in contrast to globalized products designed to taste the same everywhere”.

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Sustentabilidade e Justiça no Antropoceno

Autor: André Silveira

A sessão de lançamento do barómetro da sustentabilidade, organizada pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS-UL) no passado dia 6 de Setembro, tocou em aspetos da sustentabilidade e da governança que aqui merecem reflexão, e se podem associar ao conceito de justiça, no seu sentido mais lato.

O Ministro do Ambiente terminou a sua intervenção na sessão com dois pontos de particular interesse: (a) a constatação de que a administração pública está  demasiado distante das pessoas no que respeita à gestão do território, dos recursos naturais e dos ecossistemas que providenciam esses recursos; (b) um repto lançado ao grupo SONAE para que se faça uma análise cuidada da pegada ecológica dos seus produtos e cadeias logísticas, e se disponibilize esta informação ao consumidor.

Estes pontos vincam, por um lado, o interesse do estudo da sustentabilidade de modelos de produção e de consumo intensivos de alcance planetário e, por outro, a importância das instituições de proximidade que permitam criar parcerias com a população local, monitorizar a saúde dos ecosistemas e fazer face a desafios socio-ambientais do Antropoceno, como a poluição e as alterações climáticas.

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Do Planeamento Colaborativo: artefacto ou artifício?

Autor: Sebastião M.F. Bhatt

A perceção quotidiana de uma crescente proximidade interpessoal permitida ao longo das últimas décadas pelas novas tecnologias de informação e comunicação tem contrastado com a persistente e generalizada ideia de afastamento dos cidadãos face às suas instituições e políticas, não obstante os processos de democratização e modernização empreendidos. Neste cenário, o gradual acentuar da crise económica dos estados e os seus efeitos têm interpelado o sector das políticas públicas e respetivos instrumentos para a construção e afirmação de um novo paradigma de políticas e de planeamento visando a abertura, o empoderamento e a participação cidadã.

Com efeito, a evolução da crise da dívida soberana e o acentuar das desigualdades socioeconómicas evidenciados em relatórios internacionais revelaram, por um lado, a indisponibilidade do Estado e do seu planeamento em continuar a responder aos desafios territoriais isoladamente e, por outro, a necessidade de recorrer a parcerias e a redes de cooperação como modelo administrativo eficiente de organização processual e de suprimento das suas limitações. Assim, as décadas de 80 e 90 do século XX apontaram de forma progressiva – numa evolução diferenciada ao nível territorial e cultural – para uma alteração do modo tradicionalista e formalista do exercício de governo e do planeamento, com o assumir de uma nova agenda participativa visando a mobilização e implicação de agentes privados e das comunidades locais num trabalho conjunto.

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© 2012 Scott Adams, Inc. Fonte: dilbert.com

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