A floresta: sobre o conhecimento eco(i)lógico

Por João Afonso Baptista

Ao fim de quase duas semanas a residir numa aldeia em Angola afastada do asfalto, do cimento e das redes móveis, resolvi ir beber um café ao sítio mais próximo. O desejo pela cafeína que não havia ali surgiu-me quando matabichava com outras quatro pessoas. Anunciei-lhes a minha viagem para a manhã seguinte. “Então tens de dar boleia ao Senhor Administrador,” avisou-me o soba, “se não ele leva a mal.”

O Administrador era novo na aldeia. Homem magro, alto, com ar de cidade, claramente desajustado à vida que ali se vivia. Ele tinha sido transferido para este povoado há pouco mais de um mês.  Motivo (oficial) da sua colocação: administrar 27 aldeias dispersas “na mata”. A sede, como chamavam à casa do Administrador, construída pelo governo angolano no ponto mais elevado da povoação, situava-se junto à aldeia onde eu estava. “Estou muito oprimido aqui,” costumava queixar-se o Administrador.

floresta
A vida com a floresta numa aldeia em Angola. Fonte: João Afonso Baptista

Continuar a ler

A última oportunidade para os biocombustíveis no Brasil

Por Luiz Carlos Lourenço

De acordo com Guy-Peters, o caminho entre as promessas políticas e as suas efetivas realizações passa necessariamente pela escolha entre dois tipos de agendas onde a demanda específica do interesse público será processada: a agenda sistemática, organizada, objetiva e não necessariamente consensuada, com resultados semelhantes a uma bacia fluvial interconectada; ou, a agenda institucional, a qual destina-se a conter conflitos ou manter apoios, destinada a acompanhar a “marcha das coisas”, com intensidade passageira, cujos pontos críticos serão alvejados apenas quando forem extremos.

etanol fabrica
Primeira fábrica de etanol 2G do Brasil. Fonte: Wikipedia

Em estudo comparado de 2012 sobre os protagonistas mundiais de etanol, concluí que, enquanto nos EUA havia uma política de Estado a título de recuperação económica e auto-suficiência energética (com volumoso apoio à investigação científica e tecnológica, extensivos ao carvão e gás de xisto), no Brasil esteve em curso apenas a prorrogação contínua de uma política setorial de exportação de etanol. Percebiam-se dimensões diversas. No Brasil, o foco era um só tipo de biocombustível; nos EUA, visava-se atender a todas as fontes de energias renováveis. Continuar a ler

Europe, film studies and the social sciences

By Mariana Liz

This post summarizes the main findings of my doctoral research, which is published as a book. It also discusses the current challenges for contemporary European cinema research, reflecting on the role film studies might occupy within the social sciences.

Ten years ago, I took part in the European Voluntary Service (EVS) programme in Perugia, Italy. I lived and worked with two other volunteers, one from Austria and one from Latvia, and we were constantly asked to give presentations in schools about our ‘European identity’.

The fact that we had one was a given. The fact that we would know how to define it, not so much. Still, we were prompted to design posters with images of tasty food and sunny places (at least in my case – I am from Portugal), and to talk at length about differences and similarities between our nations, about humanism and universality, and about European values.
Continuar a ler

Trauma e resiliência após um sismo: o exemplo de Amatrice, Itália

Por Ana Sofia Ribeiro

Uma estrada sinuosa coberta de neve é o único caminho que leva a Amatrice, “o mais bonito município de Itália”, devastado a 24 de agosto por um sismo de magnitude 6, que assolou as áreas marginais de três províncias: Umbria, Lazio e Marche. Desde então, cerca de 4.000 pessoas receberam assistência humanitária, tendo várias sido deslocadas e outras resgatadas de edifícios em ruínas. 299 pessoas morreram, entre as quais também crianças.

img_0277
Ruínas depois do sismo em Amatrice, Itália. Fonte: Israel Rodriguez

No âmbito de uma reunião internacional, a equipa internacional do projeto CUIDAR-Culturas de Resiliência à Catástrofe entre Crianças e Jovens  visitou o local para tomar conhecimento da resposta de emergência fornecida pela Save the Children-Itália às crianças sobreviventes à catástrofe, no âmbito de um protocolo assinado em 2016, meses antes do terramoto. O projeto CUIDAR pretende fortalecer a participação das crianças nas políticas públicas de gestão de catástrofes, contando com equipas de 5 países europeus: Reino Unido, Itália, Grécia, Espanha e Portugal. Continuar a ler

Da “projetificação” ou de como o presente está a ser adiado

Este é o terceiro post da série “A utilidade das Ciência Sociais

Por Roberto Falanga

Enquanto o mundo laboral continua preso a uma lógica fundada na precariedade estrutural, oximoro que revela a força do projeto biopolítico neoliberal, muitas ou mesmo todas as esferas da vida individual e coletiva parecem ser igualmente afetadas por esta lógica.

As consequências óbvias, mas nem por isso menos perversas, da precariedade são hoje tema de debate público em Portugal. Por exemplo, a recente constituição de uma rede nacional que junta as reivindicações de investigadores em regime de bolsa ou afins conseguiu pôr em cima da mesa um debate sério e robusto sobre o futuro da investigação neste país.

A precariedade irrompe não só no mercado do trabalho, como também no quotidiano. Ela é uma força silenciosa que se apropria de tudo, engolindo o presente e deixando-nos com nostalgia de um passado que nunca tivemos e com esperança de um futuro que vislumbramos de longe. Continuar a ler

“A minha opinião vale mais que os factos!”: o novo normal da pós-verdade

Por Luís Balula

Alguns dias após a eleição presidencial norte-americana de 8 de Novembro de 2016, o Oxford Dictionaries elegeu ‘pós-verdade’—post-truth—como a palavra do ano. Devo dizer que foi a primeira vez que ouvi a palavra; a primeira vez que me confrontei com o conceito. No entanto, ele existe há pelo menos 25 anos, tendo sido usado originalmente em referência à manipulação da cobertura mediática do escândalo Irão-Contra—administração Reagan—e da primeira guerra do Golfo—administração George Bush—e, mais tarde, em referência às declarações enganosas que levaram à invasão do Iraque—administração George W. Bush.

Actualmente, o conceito ganhou particular relevância, tendo-se tornado de uso corrente no contexto das recentes eleições norte-americanas, que elevaram a fasquia do abuso da verdade a novos limites. Curiosamente, ou talvez não, também no quadro de mais uma administração republicana.

post
Evolução da frequência do uso da palavra ‘pós-verdade’. Fonte: Oxford Dictionaries

Continuar a ler

COP-22: o fim das ilusões e a aliança ‘oleogarca’ EUA-Rússia

Por João Camargo

Com o fim da 22ª Conferência das Partes—COP 22 da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, que decorreu em Marraquexe, terminaram também muitas das suas ilusões. Não tendo sido o colapso negocial da COP 15 de 2009, em Copenhaga, aqui colapsou a esperança de se atingir o Acordo global preconizado na COP 21 em Paris.

trum-camargo
Ilustração da aliança entre Trump e Putin. Autor: João Camargo

Continuar a ler