O Papel da Sociologia no Nosso Futuro Comum

Por: Susana Fonseca

Existimos num planeta como não há outro (que seja do nosso conhecimento), que nos proporciona condições extraordinárias para sermos quem somos e podermos explorar todo o nosso potencial. Contudo, a relação que estabelecemos com a base que permite a nossa existência é tudo menos a que deveria ser. Usamos e abusamos da generosidade inerente ao planeta em que vivemos, sem respeitarmos os limites que nos surgem de forma cada vez mais evidente. Arrogantemente avançamos numa lógica de conquista e exploração, perseguindo objetivos de acumulação numa visão muito estreita de crescimento económico, pouco inclusivo e tendente à acumulação em determinadas franjas da sociedade.

Não haverá sociedades, nem economia, se não existirem os recursos naturais e os serviços ambientais generosamente fornecidos pelo único planeta conhecido em todo o universo como tendo condições para albergar vida. Nenhum de nós pode existir se não houver ar para respirar, água para beber, solo para cultivar os alimentos, entre muitos outros “recursos” de que dependemos totalmente. É importante não esquecer que o Planeta Terra vive bem sem a espécie humana, mas já o contrário…

É tempo de questionar a necessidade, a pertinência, a sustentabilidade das nossas opções e não apenas se elas são mais eficientes. Estamos perante uma mudança civilizacional, uma nova era. Mas como é que podemos dar passos firmes rumo a essa nova era, como podemos impulsionar a mudança necessária e construir uma sociedade do bem-estar, dentro dos limites do planeta?

Recentemente fui desafiada a pensar sobre a forma com a Sociologia e a Ecologia se interligam e podem ser aliadas na construção do caminho identificado no parágrafo anterior. Muito embora há muitos anos me divida entre a Sociologia e o ambientalismo, sempre procurei diferenciar estas duas áreas, distanciando-as na procura de evitar “contaminações”, em particular da última para a primeira.

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Fazer da necessidade virtude: atividades participativas em tempos de COVID-19

Por: Helena Vicente, Ana Delicado, João Estevens e Jussara Rowland

Nos últimos anos tem crescido a noção de que não basta “ensinar” ciência ao público para estimular atitudes positivas e de confiança. O que as estatísticas demonstram é que “um pouco de conhecimento pode ser uma coisa perigosa”: são as pessoas com um nível intermédio de conhecimentos de ciência que demonstram atitudes mais negativas, adotando comportamentos como recusar vacinar os filhos, não reconhecer as causas humanas das alterações climáticas ou preferir tratamentos alternativos à medicina convencional.

Por isso, a ideia inicial do projeto PERSIST_EU, projeto Erasmus+ financiado pela Comissão Europeia, coordenado pela Universidade de Valência (Espanha) e com a participação de equipas da Alemanha, Eslováquia, Itália e Portugal, de desenvolver uma atividade formativa para aprofundar o conhecimento e a opinião dos estudantes europeus sobre ciência, deu lugar a uma abordagem mais participativa, que batizámos como “Science Camp” (SC).

Os SC teriam a participação de 100 jovens estudantes universitários em cada país, que se reuniriam numa tarde para visionar filmes curtos sobre alterações climáticas (AC), vacinas (VAX), organismos geneticamente modificados (OGM) e medicinas alternativas e complementares (MAC), fazer perguntas a especialistas nestes temas e debater entre si os prós e contras de diversos aspetos científicos, incluindo os modelos climáticos, as probabilidades de efeitos secundários das vacinas, o principio da precaução no uso de OGM ou o efeito placebo nos medicamentos e tratamentos alternativos. Antes e depois do evento os estudantes seriam convidados a preencher um questionário sobre estes temas, de modo a aferir como as atitudes, crenças, perceções e conhecimentos variam com a participação no SC.

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A reinvenção da roda

Por: Ana Delicado

Vivemos tempos sem precedentes. Ou talvez não. Esta não é a primeira pandemia global. Nem a segunda. Temos é a memória curta. Da centenária gripe espanhola à mais recente e ainda por resolver pandemia do VIH-SIDA, passando pela gripe asiática do final dos anos 1950 ou pela cólera dos anos 1970, o mundo vai sendo assolado por microrganismos que se aproveitam da nossa tendência para convivermos em proximidade e de viajarmos pelo globo.

Não faltará material às ciências sociais nas próximas décadas para analisar a cascata de fenómenos sociais que esta pandemia provocou. Das transformações no trabalho às dinâmicas familiares intergeracionais, do lazer ao luto, das fragilidades do tecido económico postas a nu pela crise do turismo à problemática da mobilidade urbana, são incontáveis os trabalhos que se publicarão sobre esta pandemia. Já para nem falar dos múltiplos ângulos da sociologia e antropologia da saúde pelos quais se pode examinar a pandemia.

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It takes a city to learn about cities? Pitfalls and delights of urban comparative research

By Marco Allegra

What constitutes a city, how are cities organized, what happens in them, where are they going? — in a world of cities these and many other questions invoke a comparative gesture. The budding theorist finds herself asking of the many studies she reads from different parts of the world: are these processes the same in the city I know? Are they perhaps similar but for different reasons? Or are the issues that are being considered of limited relevance to pressing issues in the contexts I am familiar with?

(Robinson 2011: 1-2)

Comparative research is a key theoretical and methodological maneuver in social sciences. In the simplest possible definition, it means learning about something by comparing it to something else – as opposed to the simple description of a single case.

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Brief notes on the 2020 Rosi Braidotti’s Summer School: ‘Posthuman convergences’, postpresencial experience

By: Lavínia Pereira

It was only in July that I was informed I had been selected for this year’s Rosi Braidotti’s Summer School at the University of Utrecht (12-21 August). It was my second time applying and I was told it was very difficult to be accepted due to the avalanche of applications they receive every year. So I was both glad for the opportunity and disappointed with the news that the summer school would – eventually – be online. Despite this setback (I am really not a fan of the online mediation apparatus that we have been forced to use, during these last few months!), my expectations were high and… they were fulfilled.  

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Recursos interativos para uma alimentação mais sustentável

Por Equipa SUSTAINMEALS

Uma transição para dietas com menor consumo de carne e baseadas em alimentos de origem vegetal é importante para responder a desafios globais de sustentabilidade e saúde na alimentação. Descubra aqui a pegada ecológica dos alimentos, conheça o seu potencial de mudança e saiba como pode agir!

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Ajuda alimentar em Portugal: as crises que enaltecem o papel das iniciativas

Por Fábio Rafael Augusto

Ajuda, apoio ou assistência alimentar remete para um conjunto de serviços que visam garantir o acesso a bens alimentares a pessoas que se encontram socialmente vulneráveis. Geralmente, este tipo de apoio é proporcionado por iniciativas que advêm da sociedade civil e envolve a doação de alimentos. Em alguns casos, estas respostas articulam-se com sistemas de recolha e redistribuição de excedentes alimentares que não estão inseridos nos habituais processos de comercialização.

A análise desta realidade no contexto nacional representa a força motriz da minha tese de doutoramento, bem como do motivo que me conduziu à escrita deste post. Compreender as dinâmicas relacionais e organizacionais que se estabelecem nos principais modelos de ajuda alimentar que atuam em Portugal representa o principal objetivo do projeto de doutoramento iniciado em 2016. Conhecer o modus operandi das iniciativas, bem como as suas fragilidades e potencialidades, permitirá lançar algumas pistas para o extenso debate, dentro e fora da academia, acerca do papel social destas respostas. Continuar a ler

Negação e saúde mental: da urgência de um plano de intervenção em tempos de pandemia

Por Roberto Falanga

Impreparação?

Há pouco menos de três meses o mundo como o conhecíamos mudou. A Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia da SARS-CoV-2 a 11 de março 2020 e, em seguida, muitos governos centrais declararam medidas de contenção que passaram, em muitos casos, por um longo período de isolamento profilático seguido, como no caso de Portugal, por medidas de desconfinamento gradual e regulado. Há, porém, segundo confirmam virologistas, e conforme o anúncio feito pelo diretor da Organização Mundial da Saúde na Europa Hans Kluge, a elevada probabilidade de este coronavírus ter chegado para ficar. Ou ainda a eventualidade de este ser o primeiro de outros vírus que resultam da ação do ser humano nos ecossistemas naturais, incluindo através da aceleração da produção industrial, da agricultura intensiva, e da desflorestação em massa. Continuar a ler

A Reflection on the Scientific Foundations of Social Sciences

By Diana Soeiro

In the wake of the current pandemic each profession is impacted in its own way. Social scientists seem eager to prove their usefulness and value and the many posts, new blogs, new discussion groups and newsletters seem to confirm this tendency. The motivation is to be able to provide others an informed opinion. Those looking a little bit more ahead try to find ways to collect data in order to be able to produce scientific articles about the current situation – conducting surveys, interviews, or soliciting personal reflections.

A few examples that are relevant to refer at this point in the realm of health are: 1) The website Barómetro COVID-19, an initiative conducted by the National School of Public Health (ENSP) – Universidade Nova de Lisboa, taking an interdisciplinary approach, featuring different sections dedicated to ‘opinion and commentary’, public policy, occupational health and epidemiology. The goal is to provide informed and updated information; 2) The Life and Health Sciences Research Institute (ICVS), School of Medicine, Universidade do Minho, is conducting a long-term study to better understand the impact of the pandemia on mental health. The study encompasses Portugal and Spain, working in partnership, and is coordinated by Maria Picó Pérez and Pedro Morgado. Continuar a ler

Action research and ethics in times of a global pandemic. An ongoing reflection on the EU-funded project ROCK in Lisbon

By Roberto Falanga, Jessica Verheij and Mafalda Corrêa Nunes

The Covid19 pandemic and the ROCK project

The widespread use of action research methods in social sciences since the mid-20th century, and the increase in participatory, transdisciplinary and engaged research approaches in the last few decades confirm an ongoing paradigm shift regarding the relationship between expert and lay knowledge. A growing interest into new ways of grasping social life and co-producing knowledge with local actors has unsettled the conventional divides between researchers and their “objects” of study. As local actors become active co-creators of knowledge, critical ethical issues arise regarding the role of researchers in the field, as well as the production, use, and impacts of scientific knowledge. Continuar a ler