Adaptação e pobreza rural em África: o caso de Moçambique

Por Carla Gomes

“Agora é que vimos que trabalhar na margem do rio fica feio”. O desabafo vem de um jovem camponês que entrevistei em 2015 nas margens do Lúrio, um dos grandes rios de Moçambique. As cheias desse ano engoliram impiedosamente as machambas (terrenos de cultivo) que as populações da aldeia tão laboriosamente tinham cultivado, pondo em risco toda a época de colheitas e precipitando uma crise alimentar. Mais uma.

No período que passei no Norte do país, em trabalho de campo, as chuvas foram de tal modo intensas que o governo declarou o estado de emergência. De acordo com o Ministério da Agricultura, mais de 100 mil hectares terão sido afetados. Seguiu-se, em 2016, o ‘alerta vermelho’ devido à seca extrema (Centro e Sul), alimentando uma ‘bola de neve’ de prejuízos de que as populações rurais dificilmente chegam a recuperar.

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Agricultura em Portugal, mil anos de História

Por Dulce Freire

Acabou de sair o primeiro livro sobre a história da agricultura em Portugal. Ainda que o país tenha sido essencialmente agrícola até aos anos 60 do século XX, faltava fazer uma síntese desse percurso e, também, das décadas mais recentes. A obra oferece uma perspectiva de longa duração, que começa nos primórdios da nacionalidade e se estende até ao século XXI. Trata-se de An Agrarian History of Portugal, 1000-2000. Economic development on the European Frontier, publicada pela editora Brill. Este é um livro colectivo, em inglês, que reúne onze investigadores que, nas últimas décadas, se têm dedicado à pesquisa de várias temáticas relacionadas com a produção e o consumo de bens alimentares.

agrarian history
Capa do livro “An Agrarian History of Portugal, 1000-2000”. Fonte: Brill

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Segurança alimentar: da cacofonia à sinfonia semântica?

Por Mónica Truninger

O conceito de segurança alimentar tem sido objeto de vários debates e reconfigurações ao longo do tempo, de tal forma que há quem diga que existem mais de 200 definições.

A confusão ainda é maior nas línguas de origem latina! Não é invulgar estarmos num debate em português onde os e as oradoras empregam o termo ‘segurança alimentar’ para se referirem a realidades distintas: seja em relação a questões de risco, higiene, limpeza e desinfeção dos alimentos—food safety na língua inglesa e bem ilustrado pelo Hazard Analysis Critical Control Points—HACCP;  a questões de fome e escassez alimentar—food security; ou a questões de direito à alimentação—food rights.

Esta variedade de significados, mais as suas múltiplas nuances semânticas e combinações, explicam a cacofonia e falta de clareza concetual entre os termos de ‘pobreza’, ‘segurança’ e ‘soberania’ alimentares.

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Se o vinho sabe bem… O Lado Negro do terroir

Marco Allegra

Segundo a International Organisation of Vine and Wine, terroir “is a concept which refers to an area in which collective knowledge of the interactions between  the  identifiable  physical  and  biological  environment  and  applied  vitivinicultural  practices  develops,  providing  distinctive  characteristics  for  the products originating from this area”.

Trata-se de uma definição minimalista. Como sublinha a Revista de Vinhos, “[f]alar de Terroir é falar de topografia, orografia, geologia, pedologia, drenagem, clima e microclima, condução da vinha, castas, porta-enxerto, intervenção humana, cultura, história, tradição etc.”. Um artigo no New York Times define o terroir como “a concept almost untranslatable, combining soil, weather, region and notions of authenticity, of genuineness and particularity – of roots, and home – in contrast to globalized products designed to taste the same everywhere”.

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Na terra dos emolimoli

Autora: Carla Gomes

Reflexões sobre uma experiência de trabalho de campo em Moçambique

A chuva provocara o caos. Inundara o centro do país, derrubara postes de alta tensão e pontes, cortando estradas nacionais. Todo o Norte de Moçambique mergulhou num “apagão” que se prolongaria por um mês. Alerta vermelho, decretou o Governo. Foi neste cenário, em Fevereiro de 2015, que cheguei a um dos lugares mais bonitos que já conheci, na caixa de uma camioneta de caixa aberta, sentada em equilíbrio precário sobre uma saca de peixe salgado. Depois de descer do machimbombo com todos os passageiros, percorrer a pé um troço da estrada Malema-Cuamba, feito rio de lama, e torrar durante horas na beira da picada, à espera do “carro” que não veio.

Nessa noite, depois de mais uma profusa chuvada, os emolimoli celebravam como nunca. E esse cheiro da terra era o mesmo que sentia na minha ilha, quando estia. E esses insetos luzentes eram afinal os mesmos que habitam a serra à beira da minha casa. A todo um mundo de distância. Esta aldeia já nem queria que de lá saíssemos, eu e a outra investigadora portuguesa que comigo partilhou a louca viagem. “Mais vale ficarem e fazerem machamba aqui”, gracejava um rapaz ao ver-nos regressar, tendo desconseguido voltar à vila a bordo de mais um “chapa“.

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