A inconcebível perda das sementes agrícolas enquanto bem comum

Por Lanka Horstink

O bem comum compreende benefícios materiais, culturais ou institucionais, cuja pertença e responsabilidade para a sua preservação cabem, em igual medida, a todos os membros de uma comunidade. O solo, a água potável, os minérios, as florestas, os monumentos, as gastronomias, e o próprio ar, são exemplos de bem comum. Pode parecer evidente que estes benefícios a todos pertencem e que são cuidados em conjunto, mas a realidade não poderia ser mais distinta. Com a consagração da propriedade privada no advento da industrialização — uma condição sine qua non para o sucesso do capitalismo industrial — a humanidade foi relativizando a noção de bem comum, aceitando com progressiva normalidade a ideia da privatização de benefícios comunitários, passados assim para as mãos do melhor pagador. É hoje inegável a enorme perda de terras florestais e aráveis para as monoculturas de soja, milho e óleo de palma, que alimentam muitas indústrias e segregam camponeses e indígenas (land grabbing). Igualmente conhecida é a venda de aquíferos às maiores empresas transnacionais de processamento alimentar e a grandes empresas financeiras que vêem nestes recursos um excelente negócio de futuros (water grabbing). Já bem menos presente na esfera pública tem estado a problemática das sementes agrícolas, que são um bem milenar que trouxe sustento e sustentabilidade à humanidade, e que estão igualmente a ser retiradas do foro do bem comum, com consequências muito mais devastadoras do que possamos imaginar. Continuar a ler