Relações entre alterações climáticas e segurança

Por Renate Kottel Boeno

O debate académico—uma das forças motrizes dos estudos sobre segurança—tem salientado a relevância crescente da interrelação entre alterações climáticas e segurança. Nesse sentido, os relatórios do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) e do United Nations Office for Disasters Risk Reduction (UNISDR), os discursos securitizadores e as pesquisas científicas têm apresentado um denominador comum: o alerta de que as alterações climáticas, os desastres decorrentes de eventos climáticos extremos, a urbanização desordenada e a escassez de recursos naturais potenciam e agravam os problemas sociais e económicos, destacadamente nos países em desenvolvimento. Esses obstáculos fragilizam a segurança do Estado e da população, ameaçando o bem-estar individual, coletivo e estatal, bem como o ambiente e demais sistemas, indicando-os como ameaça à paz e exacerbando vulnerabilidades e tensões existentes—favorecendo a ocorrência de conflitos.

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Atuação de militares em ação conjunta para socorro a desastre natural nos Estados Unidos da América. Fonte: Wikipédia

Segurança, tradicionalmente, tem sido entendida como o conjunto de interesses políticos de grupos específicos, sob um discurso de forte influência militar, com a finalidade de proteger o Estado de ameaças internas ou externas, bem como de outros perigos que possam prejudicar interesses e valores da sua sociedade. A partir dessa perspetiva tradicional, segurança mediaria a ausência de ameaça e de guerra.

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A floresta: sobre o conhecimento eco(i)lógico

Por João Afonso Baptista

Ao fim de quase duas semanas a residir numa aldeia em Angola afastada do asfalto, do cimento e das redes móveis, resolvi ir beber um café ao sítio mais próximo. O desejo pela cafeína que não havia ali surgiu-me quando matabichava com outras quatro pessoas. Anunciei-lhes a minha viagem para a manhã seguinte. “Então tens de dar boleia ao Senhor Administrador,” avisou-me o soba, “se não ele leva a mal.”

O Administrador era novo na aldeia. Homem magro, alto, com ar de cidade, claramente desajustado à vida que ali se vivia. Ele tinha sido transferido para este povoado há pouco mais de um mês.  Motivo (oficial) da sua colocação: administrar 27 aldeias dispersas “na mata”. A sede, como chamavam à casa do Administrador, construída pelo governo angolano no ponto mais elevado da povoação, situava-se junto à aldeia onde eu estava. “Estou muito oprimido aqui,” costumava queixar-se o Administrador.

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A vida com a floresta numa aldeia em Angola. Fonte: João Afonso Baptista

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O longo e tortuoso caminho da sustentabilidade

Autora: Susana Fonseca

Há momentos na vida que nos dão a impressão de serem pontos de viragem, inspiradores para a necessária mudança que terá de ocorrer se quisermos construir sociedades sustentáveis. Pessoalmente, a Cimeira do Rio, em 1992, teve esse efeito. Mas o  que aos olhos de uma jovem acabada de atingir a maioridade parecia ser o anúncio de um futuro novo, mais democrático, de trabalho conjunto entre os povos para garantir às gerações futuras a qualidade de vida que ambicionamos, não veio a concretizar-se.

Não que sejam de descurar as conquistas de então, desde logo porque, sendo marcos da história da sustentabilidade, lá estão para nos relembrar que a regressão tem limites. Mas vivemos hoje num contexto ambiental, económico e social que está muito longe do sonho da sustentabilidade. Aliás, para quem acompanha a área da regulamentação ambiental é claro que hoje se tornou muito mais difícil fazer passar legislação que promova a sustentabilidade do que há uma década atrás. Por exemplo, a aplicação do princípio da precaução, ainda que esteja instituído nos tratados da União Europeia como estruturante da política ambiental, encontra hoje uma barreira tecnocrática no seio das diferentes instituições europeias e um fortíssimo lóbi de contestação por parte da indústria, mas também de vários países, entre eles os EUA e o Canadá.
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Se o vinho sabe bem… O Lado Negro do terroir

Marco Allegra

Segundo a International Organisation of Vine and Wine, terroir “is a concept which refers to an area in which collective knowledge of the interactions between  the  identifiable  physical  and  biological  environment  and  applied  vitivinicultural  practices  develops,  providing  distinctive  characteristics  for  the products originating from this area”.

Trata-se de uma definição minimalista. Como sublinha a Revista de Vinhos, “[f]alar de Terroir é falar de topografia, orografia, geologia, pedologia, drenagem, clima e microclima, condução da vinha, castas, porta-enxerto, intervenção humana, cultura, história, tradição etc.”. Um artigo no New York Times define o terroir como “a concept almost untranslatable, combining soil, weather, region and notions of authenticity, of genuineness and particularity – of roots, and home – in contrast to globalized products designed to taste the same everywhere”.

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A palestra cultural do clima

Autora: Adriana Ferreira Alves

O convidado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS ULisboa), para a palestra de abertura do ano lectivo 2016/2017  foi o inglês Mike Hulme.

Geógrafo de formação, trabalhou durante 25 anos na Universidade de EastAnglia, sendo actualmente professor de Climate and Culture, no King’s College London (Faculty of Social Science & Public Policy), onde dirige o Departamento de Geografia e coordena o Grupo de Investigação sobre Clima. Está na direcção editorial de várias revistas científicas, entre as quais a conceituada WIREs Climate Change.

The cultural fonctions of Climate foi o tema da sua palestra, no passado mês de Outubro, onde, no conjunto dos programas doutorais da Universidade de Lisboa, se destaca, como o maior e um dos mais internacionais Doutoramentos da Universidade de Lisboa, precisamente o Programa Doutoral em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável. Continuar a ler

Um comentário ao livro Portugal: ambientes de mudança

Autora: Ana Delicado

Acaba de ser publicado o livro Portugal: ambientes de mudança – erros, mentiras e conquistas, da autoria de Luísa Schmidt, coordenadora do Observa e investigadora do Grupo de Investigação ´Ambiente, Território e Sociedade`. Lançado a 2 de novembro no Centro Cultural de Belém, contou com uma ampla divulgação mediática nos jornais e televisões e com a presença de variadas figuras da academia, dos media e da política de ambiente.

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Capitalismo Puro

Autor: Ana Horta

“Há uns vinte anos fomos forçados a aderir ao capitalismo; agora compreendemo-lo.” É assim que o investimento em energias renováveis é sentido numa pequena comunidade da antiga República Democrática Alemã. Esta comunidade, considerada exemplar no envolvimento comunitário na produção de energia renovável, assegurou 35% do total da eletricidade consumida pela povoação em 2014 e, em 2050, pretende tornar-se autossuficiente em termos de produção de eletricidade através de fontes renováveis.

Figura 1 – A escola, o pavilhão desportivo e outros edifícios são aquecidos por um sistema comunitário que não emite CO2.
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Fotografia da autora

Zschadraß (em Colditz, no estado da Saxónia) tem sido referida como uma comunidade modelo em que a população é coproprietária dos investimentos feitos em energias renováveis. Através de uma fundação e de uma associação formadas por habitantes locais, a comunidade tem investido em projetos de energia renovável que incluem aerogeradores de energia eólica (em que 20% é propriedade da comunidade, pertencendo o restante a um investidor privado local), painéis fotovoltaicos nos edifícios públicos e um sistema de biomassa instalado numa quinta, entre outros. Com o lucro obtido através da venda da eletricidade à rede são financiados programas comunitários de apoio às crianças que têm proporcionado, por exemplo, refeições escolares gratuitas para crianças de famílias com baixos rendimentos, campos de férias e serviços de transporte. O jardim infantil também é apoiado e quando o empréstimo bancário realizado para financiar os aerogeradores estiver pago pretende-se que o lucro seja usado para permitir que o jardim infantil seja gratuito para todas as crianças da povoação.
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