Mulheres camponesas no Sul do Brasil: transições agroecológicas mudando vidas

Por: Siomara Marques

Os movimentos de mulheres rurais no Brasil tiveram origem nos anos 1980, período de “reabertura” à democracia, e momento pelo qual o país passava por intensa mobilização social e retorno dos movimentos civis, entre eles o feminista, o sindical e mais tarde o ecológico. Organizadas em movimentos específicos como no Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) ou nos movimentos mistos como Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), as mulheres trabalhadoras rurais no Sul do Brasil, influenciadas pelo feminismo, mas também pelo movimento sindical, iniciam sua trajetória reivindicando reconhecimento profissional como trabalhadoras rurais e não mais como “do lar”, bem como o direito à previdência social (aposentadoria). A partir daí, através da sua mobilização, as mulheres rurais brasileiras foram obtendo outros direitos, como a titularidade conjunta da terra ou a licença de maternidade. Na atualidade, somam-se às lutas feministas as lutas de enfrentamento ao racismo e à violência contra a mulher. Na agricultura, elas estão incorporando a prática agroecológica de produção de alimentos e de preservação do meio ambiente.

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O Papel da Sociologia no Nosso Futuro Comum

Por: Susana Fonseca

Existimos num planeta como não há outro (que seja do nosso conhecimento), que nos proporciona condições extraordinárias para sermos quem somos e podermos explorar todo o nosso potencial. Contudo, a relação que estabelecemos com a base que permite a nossa existência é tudo menos a que deveria ser. Usamos e abusamos da generosidade inerente ao planeta em que vivemos, sem respeitarmos os limites que nos surgem de forma cada vez mais evidente. Arrogantemente avançamos numa lógica de conquista e exploração, perseguindo objetivos de acumulação numa visão muito estreita de crescimento económico, pouco inclusivo e tendente à acumulação em determinadas franjas da sociedade.

Não haverá sociedades, nem economia, se não existirem os recursos naturais e os serviços ambientais generosamente fornecidos pelo único planeta conhecido em todo o universo como tendo condições para albergar vida. Nenhum de nós pode existir se não houver ar para respirar, água para beber, solo para cultivar os alimentos, entre muitos outros “recursos” de que dependemos totalmente. É importante não esquecer que o Planeta Terra vive bem sem a espécie humana, mas já o contrário…

É tempo de questionar a necessidade, a pertinência, a sustentabilidade das nossas opções e não apenas se elas são mais eficientes. Estamos perante uma mudança civilizacional, uma nova era. Mas como é que podemos dar passos firmes rumo a essa nova era, como podemos impulsionar a mudança necessária e construir uma sociedade do bem-estar, dentro dos limites do planeta?

Recentemente fui desafiada a pensar sobre a forma com a Sociologia e a Ecologia se interligam e podem ser aliadas na construção do caminho identificado no parágrafo anterior. Muito embora há muitos anos me divida entre a Sociologia e o ambientalismo, sempre procurei diferenciar estas duas áreas, distanciando-as na procura de evitar “contaminações”, em particular da última para a primeira.

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From Fixing to Healing: A Traditional Medicine approach to Climate Change

By: Fronika de Witt

“A daunting task lies ahead for scientists and engineers to guide society towards environmentally sustainable management during the era of the Anthropocene. This will require appropriate human behaviour at all scales, and may well involve internationally accepted, large-scale geo-engineering projects, for instance to “optimize ” climate.”

Paul Crutzen, “Geology of Mankind”, 2002

“Being an Onanya is not only about healing: it is about treating well our territory, love for our family, for the forest, plants and biodiversity.”

First Shipibo Konibo, Xetebo’ Traditional Medicine Convention, 2018

The citations above highlight tensions in dealing with current planetary challenges, such as climate change, deforestation, and biodiversity loss. The first epigraph comes from a highly cited article in the scientific journal Nature by the Dutch scientist Paul Crutzen, who coined the term ‘the Anthropocene’: our current geological epoch with significant human impact on the environment.

The second epigraph are words from a Shipibo shaman, an indigenous people that lives alongside the Ucayali river in the Peruvian Amazon. In 2018, I spent three months in the Peruvian department of Ucayali to conduct fieldwork for my doctoral research on Amazon climate governance and indigenous knowledge. In general, my fieldwork was a very enriching experience, but the “cherry on the pie”, in terms of indigenous perspectives on climate change, was an invitation for the first “‘Shipibo Konibo, Xetebo’ Traditional Medicine Convention”, where I heard the above words.

In this post, I depict some of the Convention’s main insights. However, first I elaborate more on the tension between the two epigraphs, or, as the Colombian-American anthropologist Arturo Escobar puts it: the tension between modernist and ontological politics.

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Fazer da necessidade virtude: atividades participativas em tempos de COVID-19

Por: Helena Vicente, Ana Delicado, João Estevens e Jussara Rowland

Nos últimos anos tem crescido a noção de que não basta “ensinar” ciência ao público para estimular atitudes positivas e de confiança. O que as estatísticas demonstram é que “um pouco de conhecimento pode ser uma coisa perigosa”: são as pessoas com um nível intermédio de conhecimentos de ciência que demonstram atitudes mais negativas, adotando comportamentos como recusar vacinar os filhos, não reconhecer as causas humanas das alterações climáticas ou preferir tratamentos alternativos à medicina convencional.

Por isso, a ideia inicial do projeto PERSIST_EU, projeto Erasmus+ financiado pela Comissão Europeia, coordenado pela Universidade de Valência (Espanha) e com a participação de equipas da Alemanha, Eslováquia, Itália e Portugal, de desenvolver uma atividade formativa para aprofundar o conhecimento e a opinião dos estudantes europeus sobre ciência, deu lugar a uma abordagem mais participativa, que batizámos como “Science Camp” (SC).

Os SC teriam a participação de 100 jovens estudantes universitários em cada país, que se reuniriam numa tarde para visionar filmes curtos sobre alterações climáticas (AC), vacinas (VAX), organismos geneticamente modificados (OGM) e medicinas alternativas e complementares (MAC), fazer perguntas a especialistas nestes temas e debater entre si os prós e contras de diversos aspetos científicos, incluindo os modelos climáticos, as probabilidades de efeitos secundários das vacinas, o principio da precaução no uso de OGM ou o efeito placebo nos medicamentos e tratamentos alternativos. Antes e depois do evento os estudantes seriam convidados a preencher um questionário sobre estes temas, de modo a aferir como as atitudes, crenças, perceções e conhecimentos variam com a participação no SC.

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Covid-19: uma tempestade perfeita, incluindo para os processos participativos

Por: Roberto Falanga

A pandemia da covid-19 pode ser definida como uma “tempestade perfeita” que, juntamente com a crise sanitária global, alterou velhos hábitos e trouxe novos (des)equilíbrios sociais, económicos, políticos e emocionais.

Apesar de várias entidades e redes internacionais terem lançado sinais de alarme sobre os riscos iminentes de epidemias e pandemias, esta tempestade perfeita encontrou-nos impreparados e mostrou a profunda vulnerabilidade do sistema em que vivemos.

Se o distanciamento social e o uso de máscaras e álcool gel se tornaram a nossa salvaguarda no dia-a-dia, a médio e longo prazo teremos de enfrentar desafios que precisam de mais empenho político e da colaboração do tecido económico e social. Em particular, as crises alastradas pelo escasso empenho no combate às alterações climáticas representam uma ameaça incontornável para o debate público sobre o nosso futuro neste planeta.

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NATUREZA E CIDADE: EXPERIMENTANDO NOVAS ABORDAGENS ATRAVÉS DO PROJETO EUROPEU CONEXUS, EM LISBOA + 6 CIDADES

Por: Rosário Oliveira, Olivia Bina, Roberto Falanga and Andy Inch

  1. À PROCURA DE TRANSFORMAÇÕES

As múltiplas crises socioeconómicas e ecosistémicas alertam para a necessidade de olhar para uma transformação de paradigma que necessitamos imprimir na sociedade e na economia, de forma a ganharmos consciência de que somos parte integrante da natureza.  Os conceitos e as ideias inspiradoras sobre a integração dos seres humanos na natureza que vingaram nas últimas décadas não foram suficientemente efetivos, continuando a ser necessário um apelo forte à ação de todos. A Comissão Europeia lançou, no final de 2019,  o Pacto Ecológico e o roteiro para a neutralidade carbónica até 2050, exprimindo a ambição de criar uma nova estratégia, levando as cidades e os seus territórios rurais a encontrarem soluções baseadas na ideia de circularidade económica na gestão dos recursos. Esta estratégia, quando associada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pelas Nações Unidas, e aos princípios da Nova Agenda Urbana, reforça a urgência das cidades e dos assentamentos humanos se tornarem mais inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis (ver ODS 11).

Cidades em todo o mundo partilham desafios ambientais globais causados por múltiplos e complexos fatores, tais como a fragmentação da paisagem, o rápido crescimento demográfico e a expansão urbana, enquanto processos mal planeados continuam a erradicar áreas verdes e os ecossistemas associados, fundamentais para a saúde humana (física e mental) e para a biodiversidade. Uma abordagem mais ecológica requer um design criativo, quase disruptivo, e um trabalho colaborativo que conte com o envolvimento e compromisso de todos os sectores envolvidos na vida das cidades.

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Peixe não Puxa Carroça

Por Lúcia Campos

“Peixe não puxa carroça”. “Galinha gorda não precisa de tempero”. Todos nós conhecemos estas e outras expressões populares, que espelham as ideias pré-concebidas que existem sobre a comida.

Mas existem também crenças sobre quem consome os alimentos: estereotipicamente, a carne está associada à ideia de virilidade, enquanto que a fruta e legumes estão associados a uma ideia de feminilidade. Como exemplo de que este efeito é praticamente universal, um estudo conduzido no Japão mostrou que as pessoas associam nomes femininos a sobremesas, fruta e saladas, e, pelo contrário, associam nomes masculinos a pratos de carne. De acordo com o Inquérito Nacional de Saúde (INE/INSA, 2016), em Portugal, de facto, são as mulheres quem mais consome legumes e saladas (61% das mulheres referem consumir frequentemente estes alimentos/refeições, comparativamente com 49% dos homens que referem o mesmo comportamento). Continuar a ler

A Reflection on the Scientific Foundations of Social Sciences

By Diana Soeiro

In the wake of the current pandemic each profession is impacted in its own way. Social scientists seem eager to prove their usefulness and value and the many posts, new blogs, new discussion groups and newsletters seem to confirm this tendency. The motivation is to be able to provide others an informed opinion. Those looking a little bit more ahead try to find ways to collect data in order to be able to produce scientific articles about the current situation – conducting surveys, interviews, or soliciting personal reflections.

A few examples that are relevant to refer at this point in the realm of health are: 1) The website Barómetro COVID-19, an initiative conducted by the National School of Public Health (ENSP) – Universidade Nova de Lisboa, taking an interdisciplinary approach, featuring different sections dedicated to ‘opinion and commentary’, public policy, occupational health and epidemiology. The goal is to provide informed and updated information; 2) The Life and Health Sciences Research Institute (ICVS), School of Medicine, Universidade do Minho, is conducting a long-term study to better understand the impact of the pandemia on mental health. The study encompasses Portugal and Spain, working in partnership, and is coordinated by Maria Picó Pérez and Pedro Morgado. Continuar a ler

Action research and ethics in times of a global pandemic. An ongoing reflection on the EU-funded project ROCK in Lisbon

By Roberto Falanga, Jessica Verheij and Mafalda Corrêa Nunes

The Covid19 pandemic and the ROCK project

The widespread use of action research methods in social sciences since the mid-20th century, and the increase in participatory, transdisciplinary and engaged research approaches in the last few decades confirm an ongoing paradigm shift regarding the relationship between expert and lay knowledge. A growing interest into new ways of grasping social life and co-producing knowledge with local actors has unsettled the conventional divides between researchers and their “objects” of study. As local actors become active co-creators of knowledge, critical ethical issues arise regarding the role of researchers in the field, as well as the production, use, and impacts of scientific knowledge. Continuar a ler

Água, Alimento e Energia: vértices em risco no Brasil

Por Luiz Carlos de Brito Lourenço

No âmbito do “Seminário Internacional sobre Ambiente e Sociedade: Desafios atuais e trajetórias de mudança”, realizado nos dias 2 e 3 de Março no ICS da Universidade de Lisboa, quis a organização da Associação Portuguesa de Sociologia abrir espaço para um painel sobre a “Governança dos Recursos Hídricos no Contexto Brasileiro”. As comunicações selecionadas partiram de três projetos de investigação de doutoramento ainda em andamento. Foram seguidas de uma síntese deste autor sobre os riscos que pairam sobre Água, Alimento e Energia, três vértices que conformam um espaço de análise de eventos que formam faces interligadas, inacabadas num infinito “poliedro de inteligibilidade” de Michel Foucault. (“Mesa redonda de 20 de Maio de 1978” in “Estratégia, Poder-Saber”, Forense, 2a ed., 2006, pág. 340) .

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