Serviços de Ecossistemas e Bem-Estar: a participação do ICS no projeto Riveal

Por Joana Sá Couto, Luísa Schmidt e Ana Delicado

O Projeto RIVEAL – Valores e Serviços dos Ecossistemas Fluviais e das Florestas Ripárias em Paisagens Fluviais Alteradas e Futuros Climáticos Incertos – tem como objetivo compreender, mapear e quantificar os serviços de ecossistemas dos rios e das florestas ripárias, em zonas a montante e a jusante de barragens, especificamente nos casos do Rio Lima (Barragem de Touvedo) e do Rio Alva (Barragem de Fronhas). Para tal, uma equipa multidisciplinar de diversas instituições – Universidade de Coimbra, Universidade de Aveiro, Instituto Superior de Agronomia e o Instituto de Ciências Sociais, ambos da Universidade de Lisboa – tem como objectivo efectuar uma análise holística dos serviços de ecossistema de paisagens ribeirinhas alteradas por barragens. Continuar a ler

Peixe não Puxa Carroça

Por Lúcia Campos

“Peixe não puxa carroça”. “Galinha gorda não precisa de tempero”. Todos nós conhecemos estas e outras expressões populares, que espelham as ideias pré-concebidas que existem sobre a comida.

Mas existem também crenças sobre quem consome os alimentos: estereotipicamente, a carne está associada à ideia de virilidade, enquanto que a fruta e legumes estão associados a uma ideia de feminilidade. Como exemplo de que este efeito é praticamente universal, um estudo conduzido no Japão mostrou que as pessoas associam nomes femininos a sobremesas, fruta e saladas, e, pelo contrário, associam nomes masculinos a pratos de carne. De acordo com o Inquérito Nacional de Saúde (INE/INSA, 2016), em Portugal, de facto, são as mulheres quem mais consome legumes e saladas (61% das mulheres referem consumir frequentemente estes alimentos/refeições, comparativamente com 49% dos homens que referem o mesmo comportamento). Continuar a ler

Catástrofes naturais, alterações climáticas e seguros

Por António Sobrinho

As catástrofes que ocorreram ao longo do ano de 2019 provocaram perdas económicas da ordem de 146.000 milhões de USD, a nível mundial. Desse montante, 137.000 milhões correspondem a danos causados por catástrofes naturais, de acordo com a SWISS RE. No mesmo período, os desastres resultantes de intervenção humana representaram apenas cerca de 6,2% do total, cifrando-se em 9.000 milhões de USD. Do conjunto das perdas globais, apenas 60.000 milhões de USD estavam cobertos por seguros, correspondendo aproximadamente a 41,1% do seu valor. Isto permite identificar uma considerável lacuna de protecção (protection gap) – ou seja, a quota-parte das perdas económicas globais não cobertas por seguros – de 58,9%. Continuar a ler

Perspetivas Rurais sobre o Futuro dos Sistemas Alimentares

Por Kaya Schwemmlein

Um estudo recente da Rede Global Contra Crises Alimentares refere que quase 135 milhões de pessoas em 55 países ou territórios viviam “em crise ou pior” em 2019. As condições meteorológicas extremas e a pandemia de Covid-19 estão entre os principais fatores da insegurança alimentar global em 2020, piorando o estado de crise, risco e conflito.

Os indivíduos economicamente mais vulneráveis e suscetíveis à situação de insegurança alimentar são, na sua maioria, habitantes de zonas rurais que dependem da remuneração da produção agrícola e, neste contexto, a pandemia global de Covid-19, não só veio expor várias fragilidades do sistema social, político e económico vigente, mas também sublinhou diversas desigualdades e injustiças estruturais sofridas por indivíduos que vivem e trabalham no campo. Veja-se por exemplo que, devido à pandemia, os pequenos produtores deixaram de ter acesso a mercados de venda direta, para muitos a única fonte de rendimento; ou o caso dos trabalhadores rurais migrantes, que acusam a exploração e indiferença face à sua situação, bem como a salvaguarda dos seus direitos fundamentais. Continuar a ler

Negação e saúde mental: da urgência de um plano de intervenção em tempos de pandemia

Por Roberto Falanga

Impreparação?

Há pouco menos de três meses o mundo como o conhecíamos mudou. A Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia da SARS-CoV-2 a 11 de março 2020 e, em seguida, muitos governos centrais declararam medidas de contenção que passaram, em muitos casos, por um longo período de isolamento profilático seguido, como no caso de Portugal, por medidas de desconfinamento gradual e regulado. Há, porém, segundo confirmam virologistas, e conforme o anúncio feito pelo diretor da Organização Mundial da Saúde na Europa Hans Kluge, a elevada probabilidade de este coronavírus ter chegado para ficar. Ou ainda a eventualidade de este ser o primeiro de outros vírus que resultam da ação do ser humano nos ecossistemas naturais, incluindo através da aceleração da produção industrial, da agricultura intensiva, e da desflorestação em massa. Continuar a ler

O Pirarucu: o Rei dos Rios Amazónicos

Por Fronika de Wit

Este post é sobre um peixe. Mas não sobre qualquer peixe. Como nesta época de Covid-19 é difícil viajar, vou levar-vos numa viagem até à Amazónia, o habitat do maior peixe de escamas do mundo: o Pirarucu. Durante o meu trabalho de campo em Ucayali-Peru descobri a importância deste peixe. O pirarucu – ou “el paiche” como é conhecido na língua espanhola – é muito mais do que um mero peixe; é um componente vital da política de baixo carbono e do combate às alterações climáticas. Neste post, relato o que aprendi sobre o pirarucu e faço uma análise crítica do potencial e da ameaça do seu comércio para o desenvolvimento justo da região amazónica. Continuar a ler

A Reflection on the Scientific Foundations of Social Sciences

By Diana Soeiro

In the wake of the current pandemic each profession is impacted in its own way. Social scientists seem eager to prove their usefulness and value and the many posts, new blogs, new discussion groups and newsletters seem to confirm this tendency. The motivation is to be able to provide others an informed opinion. Those looking a little bit more ahead try to find ways to collect data in order to be able to produce scientific articles about the current situation – conducting surveys, interviews, or soliciting personal reflections.

A few examples that are relevant to refer at this point in the realm of health are: 1) The website Barómetro COVID-19, an initiative conducted by the National School of Public Health (ENSP) – Universidade Nova de Lisboa, taking an interdisciplinary approach, featuring different sections dedicated to ‘opinion and commentary’, public policy, occupational health and epidemiology. The goal is to provide informed and updated information; 2) The Life and Health Sciences Research Institute (ICVS), School of Medicine, Universidade do Minho, is conducting a long-term study to better understand the impact of the pandemia on mental health. The study encompasses Portugal and Spain, working in partnership, and is coordinated by Maria Picó Pérez and Pedro Morgado. Continuar a ler

COVID-19 narratives: old wine in new bottles?

Por Cláudia Santos e João Morais Mourato

As the COVID-19 pandemic unfolds it becomes clear this is not just a random phenomenon of human-Nature interaction. It is the product of human choices, quintessentially anthropogenic in its creation, reach, response and politicisation. The growingly quarantined world population, from the forced seclusion of their homes, expresses the full range of human emotions. All over the world digital logbooks are keeping record of some of these voices. The large majority however will never be heard. For them this will be another layer of their vulnerability, a cruel reminder of their marginalisation and structural disadvantage. Continuar a ler

Pandemia e inquietação nas ciências sociais: Uma reflexão do Urban Transitions Hub, no Instituto de Ciências Sociais

Por Urban Transitions Hub

Os membros do Urban Transitions Hub pretendem contribuir para o debate sobre o que significa, e o que pode representar a médio prazo, ser um/a académico/a nas ciências sociais face à pandemia que enfrentamos nos dias de hoje. Este texto apresenta-se como um exercício contínuo de autorreflexão em tempos de Covid-19, o qual não pretende esgotar as nossas inquietações, mas sim começar a dar-lhes voz.

(NOVA) CRISE

Aparentemente, parece que estamos perante uma tempestade perfeita. Uma tempestade que gera inquietação, mas também sentimentos de confusão e luta. Para muitos/as de nós, esta crise representa uma aceleração de padrões sociais já existentes, assim como de tendências que são críticas há já muito tempo. Problemas e contradições das nossas sociedades têm vindo a acumular-se nas últimas décadas, e a pandemia parece oferecer-lhes um novo e dramático desenlace ao mesmo tempo que novos “monstros em ascensão”, como alguns de nós têm vindo a chamar-lhes, parecem rastejar no horizonte: as tecno-distopias, as repercussões autoritárias, a evidente desigualdade do sofrimento. Continuar a ler

Action research and ethics in times of a global pandemic. An ongoing reflection on the EU-funded project ROCK in Lisbon

By Roberto Falanga, Jessica Verheij and Mafalda Corrêa Nunes

The Covid19 pandemic and the ROCK project

The widespread use of action research methods in social sciences since the mid-20th century, and the increase in participatory, transdisciplinary and engaged research approaches in the last few decades confirm an ongoing paradigm shift regarding the relationship between expert and lay knowledge. A growing interest into new ways of grasping social life and co-producing knowledge with local actors has unsettled the conventional divides between researchers and their “objects” of study. As local actors become active co-creators of knowledge, critical ethical issues arise regarding the role of researchers in the field, as well as the production, use, and impacts of scientific knowledge. Continuar a ler