Relações entre alterações climáticas e segurança

Por Renate Kottel Boeno

O debate académico—uma das forças motrizes dos estudos sobre segurança—tem salientado a relevância crescente da interrelação entre alterações climáticas e segurança. Nesse sentido, os relatórios do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) e do United Nations Office for Disasters Risk Reduction (UNISDR), os discursos securitizadores e as pesquisas científicas têm apresentado um denominador comum: o alerta de que as alterações climáticas, os desastres decorrentes de eventos climáticos extremos, a urbanização desordenada e a escassez de recursos naturais potenciam e agravam os problemas sociais e económicos, destacadamente nos países em desenvolvimento. Esses obstáculos fragilizam a segurança do Estado e da população, ameaçando o bem-estar individual, coletivo e estatal, bem como o ambiente e demais sistemas, indicando-os como ameaça à paz e exacerbando vulnerabilidades e tensões existentes—favorecendo a ocorrência de conflitos.

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Atuação de militares em ação conjunta para socorro a desastre natural nos Estados Unidos da América. Fonte: Wikipédia

Segurança, tradicionalmente, tem sido entendida como o conjunto de interesses políticos de grupos específicos, sob um discurso de forte influência militar, com a finalidade de proteger o Estado de ameaças internas ou externas, bem como de outros perigos que possam prejudicar interesses e valores da sua sociedade. A partir dessa perspetiva tradicional, segurança mediaria a ausência de ameaça e de guerra.

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Políticas públicas de regadios no Nordeste do Brasil

Por Gleydson Pinheiro Albano

O Nordeste do território brasileiro, principalmente sua região semiárida, atravessou os últimos séculos sendo lembrado dentro e fora do país como uma região atrasada, muito em função da pobreza da sua população, da desigualdade de acesso a terra e da ocorrência de secas, que fizeram uma multidão de nordestinos migrar para outras áreas do país, como o Sudeste e a região Amazônica.

No início do século XX, com a ocorrência de mais uma grande seca nessa região do país, o governo brasileiro resolveu criar um órgão para enfrentar as secas dessa região e assim nasce no ano de 1909 a Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS) (hoje, Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – DNOCS).

Durante toda a primeira metade do século XX esse órgão iria ser responsável por políticas de construção de açudes com o objetivo de fornecer água para matar a sede do nordestino. Inclusive é pela criação e área de delimitação do órgão (área de ocorrência de secas) que o termo Nordeste é popularizado e institucionalizado no país, entrando posteriormente na cartografia como uma das regiões brasileiras. Continuar a ler

Navegar a tensão entre ciência e movimentos sociais: notas a partir da soberania alimentar

Por Rita Calvário

A cada dois anos realiza-se o Colóquio sobre Estudos Agrários Críticos. Este encontro junta investigadore/as que trabalham, numa perspetiva crítica e socialmente comprometida, temas ligados à agricultura, mundo rural e alimentação com ativistas e movimentos sociais. O objetivo é proporcionar um espaço de debate que promova a reflexão crítica e a coprodução de conhecimento e contribua para avançar as lutas por um sistema agroalimentar global mais equitativo, democrático e ecológico. Este é também um espaço onde muitas das tensões que ocorrem na relação entre academia e movimentos sociais se tornam visíveis, mesmo que nem sempre de forma explícita.

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Foto de sessão plenária do Colóquio. Fonte: Elikadura21

Este ano foi o País Basco a acolher a organização do Colóquio n.º 7 (24 a 26 de Abril), aproveitando o facto de ser aqui que se vai realizar a VII Conferência Internacional da Via Campesina, de 15 a 24 de Julho de 2017. Continuar a ler

Redução do sobreconsumo de alimentos de origem animal: um tabu persistente

Por Fernando Mano

A “carnificação” da dieta humana

A crescente voracidade dos humanos por alimentos de origem animal (sobretudo carne, lacticínios e ovos), converteu um punhado de espécies com interesse pecuário, nas mais preponderantes do Planeta. Se um extraterrestre chegasse hoje à Terra, provavelmente sentir-se-ia motivado a chamar-lhe “Planeta das Vacas”, coisa que não seria absurda, considerando que já em 2010 a massa total de bovinos domésticos excedia 130 milhões de toneladas, enquanto o total da massa de seres humanos não ultrapassava à data 100 milhões de toneladas. Ou talvez o nosso imaginário visitante preferisse chamar-nos o “Planeta dos Frangos”, atendendo a que a população total de frangos é 3 vezes superior à população total de seres humanos, cifras que testemunham o enorme incremento do sector pecuário ao longo das últimas décadas.

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Produção intensiva de frangos nos EUA. Fonte: Wikipedia 

Há um século atrás, a proteína animal representava, em alguns países, uma considerável fatia da dieta das suas populações, embora distribuída muito desigualmente pelas diferentes classes sociais. O Reino Unido é um exemplo de grande consumo de carne já em finais do século XIX e princípios do século XX, fenómeno que acompanhou a crescente urbanização e o aumento dos rendimentos das famílias, e que viria a revelar posterior tendência para a estabilização. É na segunda metade do século XX que se inicia um enorme aumento do consumo dos produtos de origem animal, primeiro na maioria dos países “desenvolvidos”, mas que rapidamente alastrou às classes mais abastadas dos países “em desenvolvimento”, tendo a produção global de carne triplicado ao longo das últimas quatro décadas. Continuar a ler

European funds for interdisciplinarity and the social sciences and humanities: lessons to be learnt?

By Olivia Bina

In January 2017, as part of the COST Action INTREPID on the role of interdisciplinarity in research programming and funding, we organised an international conference to discuss the status of the social sciences and of interdisciplinarity in occasion of the 20th anniversary of the Gulbenkian Commission’s publication: Open the social sciences: Report of the Gulbenkian Commission on the restructuring of the social sciences (1996).

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Immanuel Wallerstein keynote. Photo: João Cão

As part of this event, we planned a Special Session to discuss the status and challenges of the social sciences and humanities (SSH) and interdisciplinarity in European Funding. This included six invited speakers and discussants, followed by a workshop designed as a world café session, aimed at identifying a range of recommendations towards informing the next programming period (FP9) from the perspective of interdisciplinarity, SSH and responsible research and innovation (RRI), and possibly contributing to improvements for the final programming stage of H2020 (2018-2020) and input to FP9. A policy brief will soon be published on INTREPID’s website, detailing all recommendations. Here, I’d like to focus on the main areas of discussion, concern and recommendation around interdisciplinarity and SSH. Continuar a ler

Escolas de Verão 2017

icsEncontram-se abertas as inscrições para as Escolas de Verão 2017 do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, este ano distribuídas por duas grandes áreas: Métodos e Técnicas e Temas e Problemas. O Grupo de Investigação em Ambiente, Território e Sociedade promove várias dessas Escolas de Verão.

A primeira é a I Escola de Verão em Sustentabilidade, de 19 a 22 Junho, sob coordenação de Luísa Schmidt e Susana Fonseca, e ainda de Sofia Santos (BCSD). Esta Escola tem o objetivo de promover a temática da sustentabilidade e a sua integração na tomada de decisão no quotidiano; explorar as interligações entre ciência, economia, gestão, política e sociedade e promover contacto entre especialistas de diferentes quadrantes da sociedade; apresentar exemplos concretos de soluções para desafios (nacionais e internacionais) na área da sustentabilidade; e criar condições para redes de contacto com vista a intervenções em prol de uma sociedade sustentável.

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O valor das ciências sociais: riscos, preconceitos e desafios (Parte I)

Este é o quinto post da série “A utilidade das Ciência Sociais

Por João Morais Mourato

Há algum tempo atrás, o Andy Inch relembrou, neste blogue, uma questão fundamental, infelizmente pouco debatida: qual a utilidade das ciências sociais? Em resposta, o Simone Tullumelo, perante a atual mercantilização do saber e da academia, advogou o desenvolvimento de uma ciência social útil; Roberto Falanga sublinhou o efeito nefasto da atual “projectificação” na atividade científica; e Marco Allegra salientou a necessidade de questionar os próprios fundamentos epistemológicos universalistas que regem as ciências sociais contemporâneas.

Acumulam-se, de facto, denúncias de uma crise nas ciências sociais. Uma crise identitária e de relevância social que parece mobilizar pouco uma comunidade de prática que se encontra refém de uma lógica hegemónica de produtividade científica com questionável valor-acrescentado no impacte das ciências sociais. Em suma, sinto-me, por vezes, parte de uma dinâmica inquestionada de busca do que Mathias Biswanger designou de “excellence by nonsense.

No meu contributo para esta série em discussão neste blogue, defendo que, enquanto cientistas sociais, precisamos de refletir sobre o que investigamos, para quê e para quem. Primeiro, contudo, quero frisar porque é, a meu ver, particularmente urgente este debate. Continuar a ler