PilotSTRATEGY Captura e Armazenamento de Carbono em Portugal

Por: Jussara Rowland, Ana Delicado, Luísa Schmidt

As alterações climáticas são um problema “malvado” (wicked, na terminologia inglesa). Complexo, de difícil resolução, não há uma “bala mágica” que o consiga travar. Da mudança de comportamentos individuais à transformação dos sistemas de produção e consumo globais, muitas são as propostas para prevenir um aumento catastrófico da temperatura no planeta, como múltiplas são as respostas tecnológicas que podem contribuir para isso. Segundo o IPCC e a Comissão Europeia, a captura e armazenamento geológico de carbono é uma das respostas possíveis,  particularmente relevante para mitigar as emissões carbónicas de algumas indústrias cujos processos industriais implicam a produção de CO2. O CO2 é capturado nas grandes fontes emissoras industriais ou de produção de energia, comprimido em estado líquido e transportado por gasoduto, navio ou comboio para ser injetado no subsolo, geralmente a profundidades superiores a 1 km. O armazenamento é feito em formações geológicas como aquíferos salinos profundos, reservatórios esgotados de petróleo ou gás, ou em camadas de carvão não-exploráveis.

Figura 1: Opções de mitigação e estimativas dos intervalos de custos e potenciais em 2030. Entre estas encontra-se a Captura e Armazenamento de Carbono (CCS de Carbon Capture and Storage em Inglês). Fonte: Sexto relatório de avaliação do IPCC

Apesar de já estar em funcionamento em alguns países (nos Estados Unidos e na Noruega, por exemplo), esta tecnologia está ainda pouco desenvolvida na Europa. O projeto de investigação “CO2 Geological Pilots in Strategic Territories” PilotSTRATEGY, coordenado pelo Bureau de Recherches Géologiques et Minières (França) e financiado pela União Europeia (programa Horizonte 2020), no qual o ICS-ULisboa participa, procura investigar as potencialidades desta tecnologia, estudando a capacidade de armazenamento de CO2 em França, Portugal, Espanha, Grécia e Polónia. 

Uma imagem com mapa

Descrição gerada automaticamente

Figura 2: mapa dos parceiros do projeto PilotSTRATEGY. Fonte: website do projeto PilotSTRATEGY

Tendo tido início em maio de 2021 e prolongando-se até abril de 2026, os seus principais objetivos são:

– Estudar os aquíferos salinos profundos que proporcionam grande capacidade de armazenamento de CO2;

– Identificar locais piloto de armazenamento seguros e eficazes;

– Envolver os cidadãos e as partes interessadas ao longo do projeto e investigar a aceitação social da Captura e Armazenamento de Carbono.

O PilotSTRATEGY tem uma abordagem trans e interdisciplinar, envolvendo especialistas nas áreas da geociência, engenharia e ciências sociais, e, em conformidade com um modelo ético de investigação e inovação responsável (RRI), considera que a investigação e desenvolvimento de tecnologias sustentáveis não é apenas uma tarefa técnica; mas também depende de processos societais de consciencialização para as alterações climáticas. Como tal, o projeto inclui um Work Package dedicado a investigar as atitudes sociais perante potenciais projetos de armazenamento de CO2 nas regiões identificadas e a lançar as bases para iniciativas de envolvimento público, de forma a garantir que as perspetivas dos cidadãos e das partes interessadas estão plenamente representadas no processo.

Em Portugal, o projeto é liderado pela Universidade de Évora, que é responsável pelas tarefas de geocaracterização, análise de risco e análise de segurança e desempenho. O papel do ICS-ULisboa é estudar as atitudes sociais de diferentes sectores da sociedade face à captura e armazenamento de carbono, bem como coordenar o processo de envolvimento das comunidades afetadas. O projeto conta também, tal como recomendado pela Comissão Europeia, com o apoio técnico e operacional de um parceiro industrial, neste caso a GALP. Os nossos parceiros internacionais de ciências sociais são o CISOT-CIEMAT em Espanha, com quem já trabalhamos há muitos anos noutros projetos, o Institut SYMLOG em França e o Fraunhofer ISI na Alemanha.

Em Portugal, a análise das características técnicas, geológicas e económicas em projetos anteriores levou à identificação de duas áreas com potencial para armazenamento geológico no país: uma em terra (onshore) e outra no mar (offshore). As duas encontram-se na Região Centro/Oeste do país. Estas áreas de estudo correspondem a zonas com aquíferos salinos profundos com diferentes potencialidades de armazenamento.

Uma imagem com mapa

Descrição gerada automaticamente

Figura 3: Mapa das zonas com potencial para armazenamento geológico em aquíferos salinos profundos na região Centro/Oeste de Portugal. Fonte: projeto PilotSTRATEGY

Investigar a aceitação social da Captura e Armazenamento de Carbono

No que diz respeito à aceitação social desta tecnologia, o projeto pretende perceber quais são as atitudes sociais face ao armazenamento de carbono a nível nacional e local, ou seja, investigar o conhecimento que existe sobre o assunto, os possíveis impactos sociais nas zonas em estudo, recolher opiniões, perceber prioridades e garantir que a perspetiva das comunidades locais é tida em conta no projeto. Essa tarefa irá ser desenvolvida ao longo do primeiro ano e meio do projeto (até outubro de 2022) e envolve as seguintes etapas:

  1. Caracterização das áreas em estudo com base em análise documental: regulamentação técnica, caracterização económica e sócio-demográfica, Identidade local, património natural e cultural;
  2. Análise de media: representação do tema nos media locais e nacionais e análise da informação disponível na Internet;
  3. Entrevistas a partes interessadas e informantes privilegiados a nível nacional e regional (ministérios, agências governamentais, organizações não governamentais de ambiente, associações empresariais, empresas emissoras, sindicatos);
  4. Entrevistas a partes interessadas e informantes privilegiados a nível local (municípios, associações ambientais, associações empresariais, outras organizações da sociedade civil);
  5. Inquérito telefónico à população local nos oito municípios da zona de estudo onshore e offshore.

Os resultados desta etapa serão tidos em conta na seleção da área (onshore ou offshore) que, por sua vez, será o foco das atividades subsequentes do projeto.

No que diz respeito ao envolvimento de partes interessadas e comunidades locais da área selecionada, essa tarefa irá decorrer a partir de outubro de 2022 e até ao final do projeto, incluindo as seguintes etapas: 

  1. A criação de um comité local de partes interessadas de diferentes setores da sociedade que irá acompanhar todo o projeto;
  2. O desenho e dinamização de workshops com as populações locais, no sentido de garantir o seu envolvimento no processo;
  3. Um segundo inquérito telefónico à população local (já só nos municípios da área piloto).

Tratando-se de uma investigação financiada pela UE, os resultados e dados da investigação irão sendo tornados públicos durante o decorrer do projeto. O objetivo é criar uma plataforma onde agências nacionais, centros de investigação, indústrias locais e representantes das comunidades locais possam aceder ao conhecimento recolhido e olhar em conjunto para potenciais decisões e soluções. O primeiro relatório da tarefa de análise da aceitação social será publicado em outubro de 2022.

Desafios de investigar uma tecnologia pouco conhecida

Numa recente reunião do grupo de investigação SHIFT em que apresentámos o projeto levantámos algumas questões com que nos temos confrontado ao longo desta primeira fase do trabalho de campo. Como se pergunta às pessoas a sua opinião sobre uma tecnologia de que nunca ouviram falar? Do trabalho que já fizemos (recolha documental, análise de imprensa, algumas entrevistas) deu para constatar que a captura e armazenamento de carbono, apesar de ser discutida internacionalmente há várias décadas, é um tema desconhecido em Portugal, mesmo junto de alguns interlocutores institucionais que seriam necessariamente interpelados no caso de desenvolvimento de um projeto desta natureza. Temos pedido aos nossos colegas geólogos que participem nas entrevistas, uma vez que, em alguns casos, são mais as perguntas que os entrevistados nos fazem do que aquelas que lhes conseguimos fazer. 

Mas como fornecer informação neutra, que não influencie a opinião dos entrevistados? Como comunicar em linguagem simples e acessível sem perder o rigor e exatidão que se exigem de um projeto científico? Que formatos usar para garantir a inclusão da perspetiva de diferentes audiências? Como corresponder às necessidades e expetativas dos diferentes grupos e partes interessadas? Estas são as inquietações/reflexões que têm pautado o nosso trabalho até agora e que serão particularmente relevantes para as próximas etapas do projeto.


Jussara Rowland é investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, jussara.rowland@ics.ulisboa.pt

Ana Delicado é investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, ana.delicado@ics.ulisboa.pt

Luísa Schmidt é investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e coordenadora do Observa – Observatórios de Ambiente, Território e Sociedade, mlschmidt@ics.ulisboa.pt

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