Etnografia urbana, a passo de corrida

Por: Simone Tulumello

No dia 15 de janeiro de 2021, pelas 9h30, saí de casa para a minha corrida diária. Além do telemóvel com o GPS ativado, levava comigo um gravador de áudio. Nesse mesmo dia começava o “dever geral de recolhimento domiciliário”, decretado pelo Decreto 3-A/2021 de 14 de janeiro em resposta ao rápido crescimento de casos de Covid-19. Pela segunda vez no espaço de um ano, Portugal voltava a confinar. Tal como tinha acontecido durante o primeiro confinamento (entre março e maio de 2020), o dever de recolhimento incluía algumas exceções, entre as quais a atividade física e o treino de desportos individuais ao ar livre.

A 15 de janeiro de 2021, comecei um pequeno projeto de investigação: Ethnography on the run: jogging through Portugal’s second lockdown. O objetivo geral era indagar as transformações urbanas e os impactos diferenciais das medidas sanitárias na cidade. Durante o primeiro confinamento tinha emergido com clareza que “nem todos os bairros são iguais face à pandemia”, isto é, que a capacidade local de ajustar a vida social à obrigação de recolhimento domiciliário tinha muito que ver com distinções de classe (um dos bairros que melhor “resistiram” é um dos mais ricos da cidade) e com as trajetórias de desenvolvimento urbano (com os bairros profundamente turistificados a serem impactados de forma especialmente poderosa).

Durante o primeiro confinamento, as minhas reflexões tinham-se ficado por uma forma fragmentada. Durante os meses seguintes pensei sobre a questão: sabia que, caso viesse um segundo confinamento, queria estar preparado para indagar estas questões de forma “quase” sistemática.

Estava interessado em tornar a pandemia, ou, melhor, algumas das medidas sanitárias, em objeto de estudo, e ao mesmo tempo em adaptar a minha metodologia de investigação ao contexto do estado de confinamento – algo com que as ciências sociais se têm vindo a debater durante este ano e meio, também neste blogue.

“Ethnography on the run” foi a minha proposta. Era possível fazer investigação social a passo de corrida? Ou, mais precisamente, que tipo de investigação é possível fazer a passo de corrida?

Diferentemente de outras práticas físicas como a caminhada, e embora exista alguma literatura sobre a corrida como prática individual e social, a corrida nunca foi utilizada de forma rigorosa como instrumento metodológico. Não havia outra possibilidade que começar a correr e afinar a estratégia metodológica durante o projeto. Estava interessado em enquadrar o trabalho numa abordagem etnográfica e resolvi adotar um desenho metodológico ligeiro:

– utilizar o GPS para mapear as corridas e ao mesmo tempo planear as atividades de forma a cobrir o território de Lisboa de forma quase-sistemática;

– recolher as minhas impressões ao longo da corrida com o gravador;

– e apontar as questões de interesse logo a seguir às corridas, produzindo um diário publicado no meu blogue.

Nos dois meses seguintes, em 16 atividades de duração entre 50 minutos e uma hora, corri cerca de 150 quilómetros, recolhendo quase quatro horas de gravação, e escrevi nove posts – tive de desistir do propósito de escrever um post para cada atividade.

Elaboração própria. Produzido com Google Maps. Mapas Instituto Geográfico Nacional, 2021.

Que tipo de investigação social foi possível fazer a passo de corrida? Consegui levar a bom fim o objetivo de observar de forma quase-sistemática Lisboa durante o confinamento: tenho “dados” suficientes para tornar as reflexões sobre o impacto assimétrico das medidas sanitárias sobre a cidade em “investigação social”. Contudo, ao longo do processo fui compreendendo que outras dimensões me interessavam mais. Ou seja, tive que reconhecer que a etnografia urbana da escala que me interessava poderia ter sido efetuada com outros meios de transporte. O que emergia de original e peculiar de uma etnografia feita a passo de corrida eram outras dimensões – e quero concluir este post com dois exemplos.

Primeiro, quando fazemos etnografias “clássicas”, nem sempre refletimos no papel do nosso estado emocional e físico na interpretação que temos do espaço urbano. Ao correr, pelo contrário, num estado de alerta e concentração estimulado pelo esforço físico, e por ser esse mesmo estado influenciado de forma aguda por fatores como a temperatura exterior, o caráter da pavimentação, ou o estarmos em declive ou subida, é fácil reparar na variabilidade da nossa interpretação dos arredores. Por exemplo, pelo meu doutoramento tinha utilizado métodos etnográficos para desenvolver uma crítica do urbanismo modernista de Chelas – inclusive as suas largas estradas pensada para os carros mais que para os peões, o espaçamento entre os prédios de habitação, a baixa densidade habitacional – pelos seus efeitos em termos de geração de sentimentos de (in)segurança. Esse mesmo urbanismo, ao contrário, torna-se num dos lugares mais lindos da cidade para correr e enquanto corremos. A segunda perceção, embora não retire valor à primeira, permite dar mais nuances à nossa compreensão do mesmo contexto – inclusive, potencialmente, no sentido de contribuir a uma estigmatização de um bairro considerado como “marginal” e “periférico”.

Chelas, “Cinco dedos” (projeto de Vítor Figueiredo), 2011. Foto do autor.

Segundo, enquanto a minha preocupação principal era com a “comparação” entre contextos diferentes, fui-me apercebendo que a corrida garantia um ritmo que permite, ao mesmo tempo, focar o contínuo e enfatizar os pontos de “passagem”. Consideremos, por exemplo, a Praça da Figueira, espaço público que marca a transição entre uma parte da cidade que se tem mantido bastante ativa durante o confinamento (Martim Moniz, Almirante Reis e arredores) e um bairro que foi fundamentalmente “desligado” pela suspensão do turismo e do shopping (a Baixa). Descobri, afinal, que ainda mais que a comparação entre esses dois contextos me interessava a forma como a própria Praça da Figueira – com os seus bares e o mercado, com os skaters e os sem abrigo – funciona como um espaço de tensão e resolução das diferenças. Isso não só por ser menos dinâmico que o Martim Moniz e mais animado que a Baixa, mas também por constituir-se como espaço de encontro (e, ocasionalmente conflito) entre populações e atividades que utilizam as duas partes da cidade: um verdadeiro espaço de fronteira. E isso torna-se especialmente evidente nas duas dúzias de segundos que demora atravessá-la a correr, sentindo fisicamente a súbita, mas ao mesmo tempo progressiva, mudança de contexto urbano.

Será que posso considerar esse tipo de reflexões uma etnografia urbana no sentido próprio? Sim, porquê permite uma observação qualitativa das atividades humanas no espaço da cidade; e ao mesmo tempo não, porquê não permite a interação – se não por breves instantes – com outros humanos que carateriza a etnografia. Ao mesmo tempo, a emergência de materiais para refletir sobre a vida urbana no contínuo urbano configura-se como um olhar de escala diferente: será que poderemos chama-lo de urbanografia? Ainda não tenho respostas a essas perguntas, ou talvez não seja tão importante ter respostas definitivas – respostas, afinal, que só se podem buscar a passo de corrida!


Simone Tulumello é investigador auxiliar no ICS-ULisboa e descobriu ao longo do seu caminho ser alérgico às fronteiras disciplinares – pelo menos às que separam a geografia humana, os estudos urbanos, a sociologia do território, o ordenamento e planeamento – e metodológicas.

simone.tulumello@ics.ulisboa.pt

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