A eletrificação da vida

Por: Ana Horta

Para Lenin só seria possível alcançar o comunismo quando a União Soviética estivesse completamente eletrificada. Apenas a eletricidade permitiria desenvolver a produção industrial em grande escala, necessária à concretização do comunismo. Assim, em 1920 foi concebido um plano de recuperação e desenvolvimento económico centrado na eletrificação do país que permitisse essa transição em dez anos. Cem anos depois, a eletrificação também está no centro de outra grande ambição coletiva: a sustentabilidade.

Vejamos o caso de Portugal. Em sintonia com o pacto ecológico da União Europeia, o plano nacional para alcançar a neutralidade carbónica até 2050 baseia-se na “eletrificação da economia”. Pretende-se substituir os combustíveis fósseis por eletricidade em todos os setores da sociedade, enquanto se procura que esta seja cada vez mais produzida através de fontes renováveis (incluindo através do hidrogénio). Simultaneamente este plano também promove uma “transição digital” que permita ganhar eficiência a vários níveis e que contribua para tornar a economia mais competitiva. A digitalização supõe, obviamente, maior recurso a tecnologias de informação e comunicação e consequentemente a eletrificação de mais processos e setores da sociedade. Ambicionam-se redes inteligentes de distribuição de energia, soluções inteligentes para a mobilidade, tecnologias inteligentes, uma administração pública inteligente, edifícios e cidades inteligentes, tudo isto na lógica de um “crescimento inteligente”, como preconizado no Plano de Recuperação e Resiliência.

Embora estas estratégias políticas entendam a eletrificação da sociedade de modo benéfico, resultarão inevitavelmente em mais consumo de energia e em impactos ambientais mais ou menos negativos sobre os elementos naturais que não devem ser desprezados. Toda a infraestrutura de telecomunicações necessária às tecnologias e cidades inteligentes exigirá mais energia e a crescente procura por baterias – indispensáveis aos carros elétricos e a uma miríade de outros equipamentos – causará problemas ambientais (vide, por exemplo, o debate sobre a exploração de lítio em Portugal). Para além disso, estas estratégias também terão consequências a nível sociológico. Ainda há muito por investigar a este nível, mas diversas questões podem desde já ser colocadas.

Criação de novas necessidades e aprisionamento

Nas primeiras décadas do século XX a iluminação consistia na quase totalidade das aplicações da eletricidade nos lares europeus. Isto era problemático para as centrais de produção de energia porque conduzia a grandes flutuações na procura ao longo do dia. Daí terem sido ativamente promovidos outros usos domésticos da eletricidade que assegurassem uma procura mais constante. Os ferros elétricos, os aspiradores, os frigoríficos, as máquinas de lavar roupa, os televisores, foram alguns dos produtos lançados nos mercados que passaram a fazer parte do quotidiano de cada vez mais famílias.

Progressivamente, a eletrificação das atividades domésticas tem vindo a intensificar-se. É disso exemplo a popularidade dos robôs de cozinha ou a eletrificação dos cuidados pessoais (desde os alisadores de cabelo e máquinas de barbear às escovas de dentes, entre muitos, muitos outros). A própria construção dos edifícios tem vindo a impor crescentemente a eletrificação de portas, estores, tetos (com iluminação embutida), paredes (com ventilação mecânica), pisos (com aquecimento radiante) e ainda equipamentos como exaustor, ar condicionado, banheira de hidromassagem ou elevadores. A todos estes equipamentos elétricos acresce a sua (cada vez mais frequente) ligação à internet – a chamada “internet das coisas”, que permite controlar estes aparelhos à distância.

No futuro, será a grande ambição coletiva transformar as novas gerações em ciborgues?
Copyright da imagem: Andrey Kiselev / 123RF Stock Photo

Estas tecnologias fazem parte de sistemas sociotécnicos que condicionam as práticas sociais quotidianas, prendendo-as a rotinas, aspirações e convenções sobre o que é “normal”. Assim, a promoção de uma maior eletrificação da vida (em vez de se dar prioridade à eficiência energética, por exemplo) implica que os cidadãos consumam mais energia para que possam viver plenamente integrados na sociedade. Um sinal dos tempos é o apelo ao estabelecimento do direito à energia.

Pobreza energética e desigualdades sociais

Em sociedades em que os cidadãos estão cada vez mais dependentes do uso de energia em casa é expectável que aumente a incapacidade para pagar serviços energéticos considerados normais (iluminação, aquecimento e todos os que são prestados pelos mais diversos eletrodomésticos). Sem políticas adequadas, em países com graves problemas no acesso à habitação, com um parque habitacional largamente ineficiente, rendimentos baixos e energia cara, como é o caso de Portugal, a pobreza energética deverá aumentar.

Embora esteja prevista para breve uma Estratégia Nacional para o Combate à Pobreza Energética, se os programas de apoio à adoção de energias renováveis e à melhoria da eficiência energética da habitação em Portugal continuarem como até aqui, acabam por contribuir para agravar a desigualdade entre os que têm acesso à informação, elevada literacia e capacidade financeira para investir em obras e os restantes – os que mais precisariam de apoio – num exemplo claro de “subsídios aos ricos”.

Sociabilidade e fadiga digital

A eletrificação e a digitalização são geralmente apresentadas de forma essencialmente positiva, sem que seja dada atenção a eventuais desenvolvimentos inesperados ou à complexidade das relações que os indivíduos estabelecem com as tecnologias.

A este respeito é interessante observar o atual contexto de pandemia de Covid-19, uma vez que, na medida em que tem sido combatida através de longos períodos de confinamento e da transposição para formatos digitais de diversas áreas de atividade (trabalho, escola, compras, consultas médicas, congressos, etc.), mostra de forma amplificada como vivemos em quotidianos altamente eletrificados, em que as reuniões de trabalho são feitas através de videoconferência e diariamente pouco nos afastamos de computadores, telemóveis, televisores e muitos outros eletrodomésticos.

Apesar das vantagens práticas das videoconferências, por exemplo, parecem ser mais frequentes as críticas aos limites que estas colocam à interação social e expressões como “Zoom fatigue” ou “detox digital” têm-se popularizado. Nada disto é surpreendente. Em entrevistas a cidadãos conduzidas em projetos anteriores temos encontrado diversas formas de crítica, distanciamento e rejeição de tecnologias elétricas e eletrónicas – e até nostalgia pelo mundo pré-digital.

De que formas e até que ponto a crescente eletrificação dos sistemas sociotécnicos poderá envolver a reorganização de práticas sociais, dos transportes, do regime de trabalho, do ensino, da sociabilidade, da socialização das novas gerações? São questões que devem ser analisadas face às atuais estratégias políticas de crescente eletrificação da vida.


Ana Horta é investigadora auxiliar do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, onde pertence ao grupo de investigação Ambiente, Território e Sociedade. É membro da equipa de coordenação da Secção Ambiente e Sociedade da Associação Portuguesa de Sociologia.

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