A Cidade das Mulheres: Lisboa no Cinema

Por: Mariana Liz

Num filme produzido para a celebração de Lisboa, Capital Europeia da Cultura, em 1994, Manuel Mozos reuniu imagens da capital portuguesa que até então tinham aparecido no cinema. A excertos de filmes como Os Verdes Anos, Um Adeus Português ou O Bobo, juntou depoimentos dos realizadores Paulo Rocha, João Botelho e José Fonseca e Costa, entre outros. O “outros” é intencional: é apenas uma a realizadora entrevistada, Teresa Villaverde. As estatísticas são conhecidas e têm sido cada vez mais discutidas na esfera pública: em Portugal, são realizados muitos menos filmes por mulheres do que homens, o que, aliás, está em linha com a situação na Europa. De acordo com um estudo de dezembro de 2021 do Observatório Europeu do Audiovisual, apenas 25% dos filmes europeus dos últimos anos foram realizados por mulheres.

Neste Dia Internacional da Mulher, vale a pena considerar em maior detalhe o cinema português das últimas décadas. Também em linha com a Europa, o primeiro filme português, dita a convenção, foi Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança, de Aurélio Paz dos Reis, em 1896. Já o primeiro filme realizado por uma mulher em Portugal surgiu apenas em 1946: Três Dias sem Deus, de Bárbara Virgínia, do qual restam apenas 26 minutos, sem som, recentemente digitalizados pela Cinemateca Portuguesa

A história do cinema português realizado por mulheres apenas arranca verdadeiramente depois do fim do Estado Novo. Logo no período que se seguiu ao 25 de Abril, muitas foram as realizadoras que participaram ativamente no esforço de captação do real que levou à produção de filmes coletivos como As Armas e o Povo (1975). Se a convenção diz também que o segundo filme realizado por uma mulher em Portugal foi Trás-os-Montes (1976), por Margarida Cordeiro e o seu marido, António Reis, nesse mesmo ano outras realizadoras trabalhavam já na produção dos seus primeiros filmes, incluindo Noémia Delgado, Manuela Serra, Margarida Gil e Monique Rutler.

Enquanto os filmes de Delgado e Serra (Máscaras, agora na plataforma de filmes do Plano Nacional de Cinema; O Movimento das Coisas, atualmente em distribuição comercial), como outros filmes do início do período democrático, procuravam no Portugal rural, e sobretudo em Trás-os-Montes, um lado mítico do país, é num filme urbano que este texto se centra: Jogo de Mão (1983), de Monique Rutler, recentemente editado em DVD pela Academia Portuguesa de Cinema e a Cinemateca. A partir da década de 90, muitas mais realizadoras começaram não só a fazer cinema com alguma regularidade em Portugal, como a debruçar-se sobre o espaço urbano. Teresa Villaverde é, de facto, o melhor exemplo, sendo o seu filme Os Mutantes (1998) uma notável representação de Lisboa

Nesta pequena história do cinema realizado por mulheres em Portugal, Jogo de Mão surge como um filme diferente. O que fazer do passado colonial (Um Adeus Português), aristocrático (Relação Fiel e Verdadeira) ou revolucionário (O Bobo) eram interrogações características do cinema de autor de essa altura. Jogo de Mão perguntava-se antes o que fazer de Lisboa – questão que, aliás, não era alheia ao cinema europeu da altura, como bem testemunha A Cidade Branca de Alain Tanner (1983). Para além de ser um dos poucos filmes realizados por mulheres em Portugal nos anos 80, Jogo de Mão é um filme fascinante não só porque se centra na questão urbana, mas também porque se aproxima de uma estética internacional e cosmopolita, muito provavelmente justificada pelo seu tópico principal: a cidade. Para além disto, questiona de forma aberta, ainda que não inequívoca, a situação das mulheres num Portugal que, entretanto, procurava reinventar-se.

Monique Rutler nasceu em França, mas fixou-se em Portugal em 1969. Conseguiu financiamento do Instituto Português de Cinema para um filme em quatro episódios, todos passados em Lisboa, sobre a relação entre homens e mulheres no Portugal contemporâneo, e, nas suas palavras, na figura, obviamente questionável, do “macho lusitano”. Rutler associa, assim, à representação da cidade (boémia, decrépita e em renovação), uma ideia de modernidade apenas anunciada, que descreve igualmente o papel da mulher na sociedade da altura. Neste sentido, o filme tem semelhanças com obras da commedia all’italiana, género que se disseminou em Itália a partir do final dos anos 50, e cujos temas principais incluíam a transformação social, as novas reconfigurações da família e as relações de género. 

Vistas do rio, uma luz intensa, ruas estreitas e colinas íngremes são elementos recorrentes nos filmes sobre Lisboa. Jogo de Mão inclui muitos deles, seguindo as personagens principais enquanto sobem e descem a Calçada do Combro, atravessam o Largo de Camões, o Chiado ou a Bica, e se passeiam num travelling irrepetível em frente ao “Adamastor” (Figura 1). Enquanto as mulheres trabalham (na sapataria, na lavandaria, ou na cozinha de restaurantes), cuidam dos filhos, são vítimas de agressão e fogem das suas casas, os homens vão a bares e cabarés, ou jogam matraquilhos depois de uma sessão no Animatógrafo (Figura 2). Servindo-se de uma linguagem cinematográfica reminiscente do género em que parece inspirar-se, e que, é importante relembrar, é dos anos 50, Jogo de Mão acaba por perpetuar estereótipos, tanto sobre Lisboa, como sobre as mulheres. E, no entanto, um aparente filme “turístico”, que espelha um cinema, uma Lisboa e uma sociedade antiga, pode ser lido como filme denúncia.

Figura 1: Jogo de Mão: A câmara faz um travelling enquanto os protagonistas conversam em frente ao Tejo. Créditos: Academia Portuguesa de Cinema & Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, 2019.
Figura 2: Jogo de Mão: Rossio. Créditos: Academia Portuguesa de Cinema & Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, 2019.

Um novo olhar sobre a história do cinema português deve ir além da constatação do óbvio (poucas mulheres filmavam) e questionar as razões dessa limitação. É igualmente importante lembrar que parte da invisibilidade das mulheres no cinema tem que ver com a parca disseminação do seu trabalho (veja-se a ausência de realizadoras no filme de Mozos), e que há filmes por descobrir e analisar, sobretudo à luz de temáticas pouco abordadas pelos estudos fílmicos em Portugal, como são o espaço urbano e as questões de género. Olhando para o futuro, será fulcral que mais mulheres em Portugal filmem, filmem Lisboa, e filmem mulheres em Lisboa. Só assim poderá surgir um novo imaginário da relação entre a cidade e as mulheres, bem como uma sociedade mais aberta e inclusiva, representativa de verdadeiras mudanças, muitas ainda por ocorrer.


Mariana Liz é Professora Auxiliar na Faculdade de Letras e Investigadora no Instituto de Ciências Sociais, ambos na Universidade de Lisboa. mariana.liz@ics.ulisboa.pt 

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