YOON [caminho]

Por Pedro Figueiredo Neto

YOON | jɒn |, que em idioma wolof pode significar estrada, caminho ou percurso, é um projecto de longa metragem documental, contando também com uma  componente de investigação e  projecto artístico.

Rodado entre Portugal e o Senegal, atravessando Marrocos e a Mauritânia, YOON lança um olhar sobre determinadas mobilidades e actividades económicas entre Norte e Sul, e que envolvem não só bens e pessoas, mas também informações e ideias. Tudo isto é revelado através dos percursos de Mbaye S., um routier (denominação usada para referir os indivíduos que conduzem carros usados com fins comerciais) que, a cada mês, percorre os mais de 4000 Km de estrada que separam os dois lugares a que chama casa.

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Fotograma. Fonte: Autor.

A actividade routier é altamente segmentada, envolvendo carros, camiões e autocarros. Os veículos partem de Portugal, Itália, Espanha, França, Holanda ou Alemanha, e têm como destino as geografias dos próprios condutores — Senegal, Mali, Guiné Conakry, Guiné Bissau, entre outros da região. No caso do Senegal, entre os veículos normalmente mais desejados encontram-se os Peugeot 504 e 505, ou antigos modelos de VW Golf, Ford Transit, Toyota Hiace, Hyundai H100 e Mercedes 190. À medida que avançam em direcção a sul, observa-se o renascimento comercial e funcional destes veículos. Tal deve-se não só aos arranjos mecânicos e estéticos efectuados, nomeadamente em Marrocos, mas sobretudo às habilidades e capacidades físicas, sociais e burocráticas dos routiers em navegar os meandros deste caminho. A actividade routier envolve riscos e imprevistos vários que só os indivíduos melhor preparados conseguem gerir.

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Fotograma. Fonte: Autor.

Contudo, para os routiers, os ganhos não resultam apenas do comércio de carros, nem são exclusivamente económicos. Com efeito, os routiers carregam nos seus veículos uma série de outros itens a serem vendidos, trocados ou entregues, seja ao longo do caminho – com outros comerciantes, mecânicos, migrantes, etc –, seja no destino final – neste caso concreto, em Pikine, periferia de Dakar. Roupa, cobertores e toalhas, sacos de arroz, peças de automóveis e bicicletas, brinquedos, utensílios vários e pequenos electrodomésticos, perfumes e cosméticos, são recorrentes. No entanto, circulam também informações, mensagens, remessas de dinheiro, outras bagagens pessoais. Frequentemente, o objectivo e significado destes elementos vão além do seu carácter funcional ou utilitário. As trocas e os encontros gerados jogam um papel essencial na produção de relações sociais e de reconhecimento social enquanto em movimento.

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Fotograma. Fonte: Autor.

YOON questiona uma série de ideias associadas ao movimento — de bens, de pessoas, de dinheiro, de ideias e de informações–ilustrando a relevância e necessidade de poder circular entre Norte e Sul, entre Sul e Norte.

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O projecto-filme YOON, dos antropólogos Pedro Figueiredo Neto, investigador do ICS-ULisboa, e Ricardo Falcão, investigador do Centro de Estudos Internacionais-. teve início em 2017, ganhou o concurso de apoio ao documentário do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA-IP) em 2019, e tem estreia prevista para o final deste ano, 2020. O filme tem produção da C.R.I.M. Produções, e está neste momento em fase de finalização.

YOON comporta ainda uma vertente de investigação e de projecto artístico. O processo de rodagem foi, desde o primeiro momento, uma odisseia etnográfica. Sem a componente de investigação antropológica, penetrar neste universo nunca teria sido possível. Parte substancial da informação recolhida ao longo deste processo dará origem a um conjunto de artigos científicos. Além disso, em 2019, YOON ganhou também a GeoHumanities Creative Commissions: Variations on Mobility, uma iniciativa da DiSSGeA -Università degli Studi di Padova e do Royal Holloway, University of London, inserida no projecto ‘Mobility and the Humanities’. Dessa forma, parte dos materiais captados serão retrabalhados e resignificados de forma experimental com o objectivo de criar uma instalação artística audiovisual e sonora.

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Fotograma. Fonte: Autor.

Pedro Figueiredo Neto (Tomar, 1984), é arquitecto, antropólogo e realizador, actualmente investigador no ICS-ULisboa. O seu trabalho tem focado questões como fronteiras, migrações e deslocamento forçado, campos de refugiados e reassentamentos na África Austral (Angola, Moçambique e Zâmbia). Mais recentemente, tem-se debruçado sobre fronteiras e o movimento de bens e pessoas, entre o Sul da Europa e a África Ocidental.

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