Moçambique: insustentável é a guerra (2)

Autor: Paulo Granjo

(2) Uma economia dependente e “auto-insustentável”

A economia moçambicana, durante anos apresentada pelo FMI e pelo Banco Mundial como um exemplo de sucesso, assenta ao longo dos últimos 24 anos em bases que tornam estatísticas como o PIB ainda mais enganadoras do que é hábito.

Com reduzida atividade produtiva, à exceção de um setor primário largamente familiar e de algumas grandes empresas intensivas em capital estrangeiro, a vida económica monetarizada e os florescentes comércio e serviços citadinos tornam-se viáveis devido à recirculação do permanente caudal de meios financeiros vindos do exterior.

Para se ter uma ideia, a comparticipação direta de governos estrangeiros no orçamento de estado, que com a crise na Europa e um aumento das receitas fiscais se situa agora na casa dos 30%, atingiu regularmente 50 a 60%. Mas mesmo então, essa comparticipação nunca representou mais de 20 a 25% do dinheiro que entrou anualmente no país, através de atividades de “apoio ao desenvolvimento” promovidas por instituições internacionais, governos estrangeiros e ONG.

PIB de Moçambique

Fonte: http://infodiario.co.mz/ 

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Moçambique: insustentável é a guerra (1)

Autor: Paulo Granjo

(1)  Nem guerra nem paz

Em Moçambique, arrasta-se há mais de 3 anos uma crise político-militar de consequências imprevisíveis.

Remonta a finais de 2012, com um “retiro” do líder do maior partido da oposição – Afonso Dhlakama, presidente da RENAMO – para a sua antiga base de guerrilha em Satungira, reivindicando mudanças na lei eleitoral e o cumprimento de cláusulas do Acordo de Paz firmado 20 anos antes, que previam a integração no aparelho de Estado dos antigos oficiais das suas forças.

Afonso Dhlakama

Fonte: http://www.voaportugues.com/

Aquilo que, na altura, foi publicamente interpretado como mais uma exigência musculada de negociações com o governo (ocupado pela FRELIMO desde 1975), tendo em mente o acesso aos esperados benefícios da futura exploração das reservas de gás natural há pouco descobertas, acabou por se transformar num rol de recontros armados, ao longo de 2013. Primeiro, num troço limitado da principal estrada do país; depois, através do cerco e ataque a Satungira por parte das forças de elite governamentais, ordenado pelo então Presidente da República, Armando Guebuza.
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As cidades (in)conscientes

Autor: Roberto Falanga

Em Tamara, uma das cidades visitadas pelo Marco Polo do Italo Calvino na obra “Cidades Invisíveis” (1972), o protagonista observa que a cidade diz tudo o que é necessário pensar, faz repetir o seu discurso e enquanto o viajante pensa estar a visitar a cidade ele está, na verdade, a registar os nomes com que ela se define a si própria e a todas as suas partes.

O caráter relacional, contextual e conflitual da língua reflete-se nas formas como conhecemos as cidades. A origem das línguas e as negociações sobre os significados das palavras trilham caminhos que vale a pena percorrer para entender o presente. As histórias das línguas e das cidades são histórias de fusões e distanciamentos incessantes, são estórias de uma História que faz e desfaz, que junta e afasta, e que nos faz andar, saltar, correr e, por vezes, separar e parar. A língua é a evocação da memória, é a citação íntima e emocional do passado que nos permite aproximar do futuro. Recordar é voltar a pôr (-re-) no coração (-cor-), como fazem também os ingleses (by heart) ou os franceses (par coeur). Nas encostas das palavras existe a memória dos acontecimentos mais singulares, dos hábitos, das zangas, dos amores, das malandragens.

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“Não é maravilhoso ver as pessoas a viver como querem?!”

Autora: Susana Boletas

A Cova da Moura é um bairro periférico de Lisboa, um dos maiores de concentração de população imigrante. É um espaço autoconstruído e multiétnico, com um forte e interventivo tecido associativo.

10387617_499828923453363_6641458407111906138_n.jpgFonte: Página do Sabura no Facebook (autor desconhecido)

O Sabura é um projeto de uma associação local, o Moinho da Juventude, ativo desde 2004, que visa proporcionar aos interessados passeios turísticos e visitas guiadas à Cova da Moura. Os visitantes, geralmente grupos de estudantes portugueses e estrangeiros e pessoas interessadas neste tipo de turismo temático, são guiados pelas várias instalações do Moinho da Juventude, onde lhes são descrito os vários serviços que a associação tem disponíveis: creche, jardim-de-infância, atividades de tempos livres e apoio escolar, alfabetização de adultos, cantina social, gabinete de inserção social, biblioteca e um estúdio de gravação onde os jovens do bairro têm a oportunidade de mostrar aos visitantes as suas músicas e vídeos. Pelas ruas sinuosas da Cova da Moura, o guia vai contando aos visitantes como os moradores construíram eles próprios as suas casas, enquanto vão passando pelos vários restaurantes, cabeleireiros e mercearias existentes no bairro associados ao Sabura e pelos street art murals da autoria de jovens do bairro. As festas são, também, ocasiões que atraem visitantes à Cova da Moura, em especial o Kola San Jon, uma festa junina cabo-verdiana recriada no bairro e patrimonializada em 2013. Os visitantes trazem dinheiro ao bairro e levam consigo narrativas que contrariam o estigma a ele associado.

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Sustentabilidade demográfica: um tabú cultural?

Autor: Luís Balula

Entre 1346 e 1353, a Peste Negra dizimou cerca de metade da população da Europa. Desde aí, e apesar das diversas guerras, epidemias e fomes que ocorreram ao longo dos seis séculos seguintes, a população humana continuou sempre a crescer. Durante as três últimas gerações, no entanto, esse crescimento tornou-se exponencial. Sobretudo devido aos avanços da medicina e ao aumento da produtividade agrícola, entre outros factores, a partir de 1950 verificou-se uma aceleração massiva do crescimento populacional. Cerca de metade de todas as nações do mundo quadruplicaram a sua população desde 1950. E este enorme ritmo de crescimento traduziu-se também, inevitavelmente, numa aceleração da actividade humana e na transformação, em larga escala, do sistema Terra.

Recentemente, o Programa Internacional Biosfera-Geosfera calculou como esta “Grande Aceleração” se reflectiu em 24 tendências globais de crescimento, entre 1750 e 2000. Como se pode ver nos vários gráficos que exprimem essas tendências, 1950 marca o início do crescimento exponencial de variáveis tão diversas como o número de automóveis, o número de McDonalds, o número de barragens hidroelétricas, o turismo internacional, o consumo de água, de fertilizantes e de papel, entre outras. Subjacente a todas estas acelerações exponenciais, o crescimento populacional surge como a óbvia — e a única — variável independente.

O ESTRANHO FENÓMENO DO CRESCIMENTO EXPONENCIAL

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Fonte: International Geosphere-Biosphere Program (slide de Alan Atkisson)

Somos hoje cerca de 7,5 mil milhões, e segundo as últimas projecções das Nações Unidas, admitindo uma taxa de fertilidade média, a população mundial chegará aos 10 mil milhões em 2056, seis anos mais cedo do que o anteriormente projectado nas estimativas de 2013. E mantendo-se o actual ritmo de crescimento populacional, em 2100 seremos 16 mil milhões—valor que as estimativas científicas mais generosas indicam ser o limite máximo antes de esgotarmos a capacidade de carga do planeta (as estimativas menos generosas indicam 4 mil milhões).

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A Aldeia Lunar: “Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”

Autoras: Mónica Truninger e Vera Assis Fernandes

(english version)

E se um dia houvesse uma base permanente na Lua? Em vez dos ‘pequenos passos’ de Neil Armstrong e dos outros 11 astronautas das missões da Apólo que pisaram a Lua nos anos 60 e 70 do século passado, teríamos vários passos na construção e no uso de uma Aldeia Lunar (Moon Village) – diríamos um ‘salto gigantesco’ para a humanidade… E será?

Imagem2.pngFonte: Nascer da Terra, Apollo 8, NASA.

Esta Aldeia Lunar seria composta por infraestruturas, edifícios, habitações e hotéis, veículos e, quem sabe, explorações agrícolas para produção alimentar, cadeias de supermercados, cafés, pastelarias e até bares construídos sobre o regolito lunar ou dentro de tubos de lava, com a ajuda de impressoras 3D, robots e cyborgs. Se esta imagem caricatural parece retirada de um livro de ficção científica espacial, dos trabalhos de Andrei Sokolov e de Pavel Klushantsev, entre outros, sobre cidades soviéticas na Lua, ou da série televisiva Espaço 1999, na cabeça de muitos cientistas planetários, de responsáveis dos países ou regiões envolvidos na ‘velha’ e na ‘nova’ corrida ao espaço (EUA, Rússia, China, Japão, Índia, Europa, Canadá) e de empresários ‘lunáticos’ que apostam no próximo grande investimento – o turismo espacial –, a construção de uma Aldeia Lunar está a passar de um sonho a um projecto concreto que envolve milhares de milhões de euros. Continuar a ler

Inquéritos ao Território. Uma exposição a não perder. Uma prática a reforçar.

Rosário Oliveira

“INQUÉRITOS AO TERRITÓRIO – PAISAGEM E POVOAMENTO” é uma exposição que coloca em diálogo múltiplos olhares e perspetivas sobre Portugal, de finais do século XIX à atualidade.

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Através de uma cuidada integração de domínios disciplinares, como a Etnologia, a Arquitetura e a Geografia, com as narrativas artísticas da fotografia, do vídeo, da ilustração e da sonoplastia, a exposição é, antes de mais, uma dupla homenagem; ao Território e aos diversos trabalhos e autores que têm tomado o Território e a Paisagem em Portugal como objeto da sua investigação, produção ou intervenção no último século.

São confrontados um amplo conjunto de imagens, documentos e publicações, alguns deles nunca antes vistos em contexto museológico, oferecendo-nos uma miríade de retratos do território português, tão diversos quanto fascinantes, que nos induzem a uma reflexão sobre nós mesmos e o lugar em que nos foi dado viver.

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Segurança urbana, poder local e (des)centralização entre Lisboa e Memphis

Encontro-me, graças a uma bolsa da comissão Fulbright EUA-Itália, no departamento de Planeamento Urbano e Regional da Universidade de Memphis (Tennessee), no período entre janeiro e julho de 2016. O objetivo desta estada em Memphis é produzir um estudo de caso para comparação com a Área Metropolitana de Lisboa no meu projeto de pós-doc Which “secure cities”? A critical approach to security and feelings of fear in urban planning in Southern Europe (FCT SFRH/BPD/86394/2012).

O projeto de investigação, iniciado em janeiro de 2013, é uma exploração crítica do papel das políticas locais urbanas, e das políticas de planeamento urbano e ordenamento do território, na segurança urbana e prevenção da criminalidade. Os objetivos são: i) entender melhor as relações entre espaço, políticas e perceções de segurança e de crime no espaço urbano; e ii) contribuir para a produção colaborativa de políticas de segurança numa ótica de justiça espacial e de governança urbana democrática. Na primeira parte do projeto analisei as políticas de segurança e o papel das políticas urbanas para a segurança nas cidades de Lisboa, Cascais e Barreiro (os resultados principais encontram-se neste relatório).

O trabalho de campo em Memphis permite-me comparar dois contextos radicalmente diferentes e complementares. Em Lisboa, uma das metrópoles mais seguras do mundo, as políticas de segurança são uma mistura de policiamento e de intervenção social e as autarquias têm experimentado uma série de políticas variadas (como o policiamento comunitário na Alta de Lisboa ou o Plano Estratégico para a Segurança de Cascais). Em Memphis, que sofre de taxas de crime violento particularmente altas (os homicídios são entre 10 e 20 vezes mais frequentes que em Lisboa) e de significativas relações entre pobreza, exclusão social e violência, a conceção da segurança centra-se totalmente na aplicação da lei, na repressão e, portanto, no papel do departamento municipal da polícia.

Homicídios por 100.000 habitantes em Portugal, Lisboa, EUA e Memphis. Dados: UNODC (PT, Lisboa, EUA), FBI e US Census Bureau (Memphis).
Homicídios por 100.000 habitantes em Portugal, Lisboa, EUA e Memphis. Dados: UNODC (PT, Lisboa, EUA), FBI e US Census Bureau (Memphis).

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TTIP – Do silêncio dos deuses à não-opinião dos servos

Autora: Ana Patrícia Rodrigues

A comunicação social em Portugal, mas também por toda a parte, tem vindo a sofrer fortemente uma crise de índole informativa. Se a responsabilidade final dos órgãos de comunicação é a de destacar e expor os assuntos que estão na ordem do dia de forma lógica e racional, o que poderemos concluir da sua atitude quando pensamos no TTIP (Trade and Investment Partnership)?

APFonte: http://www.cartoonmovement.com/

O TTIP, ou PTCI (Parceria Transatlântica para o Comércio e Investimento) em português, é um acordo entre os Estados Unidos e a União Europeia cuja preparação está a ser marcada por uma grande falta de transparência e de secretismo, que violam quaisquer pressupostos democráticos pelos quais os países europeus se regem. As conversações sobre em que moldes o acordo será estabelecido teve início em 2013, envolvendo a Comissão Europeia e o governo dos E.U.A. No contexto da crise financeira de 2008, com a estagnação económica e o desemprego a ganhar cada vez mais força, o TTIP tem como objetivo final garantir o livre comércio através da eliminação de todas as barreiras legais, como normas de segurança alimentar e saúde pública, direitos laborais, direitos dos consumidores, etc.

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O princípio da suficiência

Autora: Susana Fonseca

There are two ways to have enough. One is to accumulate more and more. The other is to desire less.”

O uso de citações para ilustrar o nosso posicionamento em termos de valores tende a ser relativamente comum, desde as assinaturas nos emails até teses, relatórios, redes sociais ou outros meios que possamos usar para nos expressarmos.

Nunca tendo sido fã desta abordagem, alterei um pouco a minha perspetiva ao encontrar a citação de G. K. Chesterton com que dei início a este post, datada do início do século XX, que resume, em poucas palavras, aquele que me parece ser o dilema central do momento presente da história da humanidade.

Neste blogue, foram  vários os posts que chamaram a atenção para os desafios que a humanidade enfrenta e como as respostas que forem dadas podem conduzir, ou evitar, a extinção da própria espécie humana. O planeta, enquanto estrutura geológica, não está em perigo, mas as condições para suster a vida sim.
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