A Aldeia Lunar: “Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”

Autoras: Mónica Truninger e Vera Assis Fernandes

(english version)

E se um dia houvesse uma base permanente na Lua? Em vez dos ‘pequenos passos’ de Neil Armstrong e dos outros 11 astronautas das missões da Apólo que pisaram a Lua nos anos 60 e 70 do século passado, teríamos vários passos na construção e no uso de uma Aldeia Lunar (Moon Village) – diríamos um ‘salto gigantesco’ para a humanidade… E será?

Imagem2.pngFonte: Nascer da Terra, Apollo 8, NASA.

Esta Aldeia Lunar seria composta por infraestruturas, edifícios, habitações e hotéis, veículos e, quem sabe, explorações agrícolas para produção alimentar, cadeias de supermercados, cafés, pastelarias e até bares construídos sobre o regolito lunar ou dentro de tubos de lava, com a ajuda de impressoras 3D, robots e cyborgs. Se esta imagem caricatural parece retirada de um livro de ficção científica espacial, dos trabalhos de Andrei Sokolov e de Pavel Klushantsev, entre outros, sobre cidades soviéticas na Lua, ou da série televisiva Espaço 1999, na cabeça de muitos cientistas planetários, de responsáveis dos países ou regiões envolvidos na ‘velha’ e na ‘nova’ corrida ao espaço (EUA, Rússia, China, Japão, Índia, Europa, Canadá) e de empresários ‘lunáticos’ que apostam no próximo grande investimento – o turismo espacial –, a construção de uma Aldeia Lunar está a passar de um sonho a um projecto concreto que envolve milhares de milhões de euros.

Em Abril último, o director da Agência Espacial Europeia, Johann-Dietrich Wörner, anunciou planos para a construção de uma Aldeia Lunar ou Moon Village. Uma das propostas é construir a aldeia com tecnologia 3D, tal como explicita este vídeo. Esta base lunar servirá de passagem para outros vôos interplanetários, e eventualmente chegará a Marte onde, quem sabe, cadeias de supermercados, cafés, pastelarias e até bares serão construídos um dia [1].

É provável que a construção desta base lunar se torne realidade enquanto a população terrestre dá atenção (e bem) aos graves problemas do nosso planeta. Nomeadamente, as questões religiosas, ambientais, culturais, económicas, éticas e sociais que atingem diferentes grupos e que circulam nos média: o drama dos refugiados, os bombistas suicidas, a poluição da água (Rio Doce – o mais ‘amargo’ desastre ambiental do Brasil), o esgotamento dos recursos naturais e as energias fósseis, os papéis do Panamá, as desigualdades socio-económicas agravadas pela crise financeira, as alterações climáticas, o desrespeito pelos direitos humanos, etc. Mas pouca atenção das ciências sociais tem sido dada ao investimento cada vez maior de recursos na materialização do velho sonho da exploração espacial e da colonização da Lua, de Marte e do restante Sistema Solar pela espécie humana. Aquilo que Amitai Etzioni escreveu em 1964 no The Moondoggle: Domestic and International Implications of the Space Race parece ser tão atual agora: “A corrida ao espaço é usada como fuga. Ao focar [o nosso interesse] na Lua, adiamos enfrentarmo-nos a nós próprios, como americanos e como cidadãos da Terra” (p. 198, tradução própria).

Imagem1.pngPosters Visões do Futuro. Créditos: NASA/JPL.

E o que diz a opinião pública sobre tudo isto? No mais recente inquérito do Eurobarómetro realizado aos europeus sobre as actividades espaciais, observa-se que os sectores que estes pensam que mais beneficiarão com estas actividades nos próximos 20 anos são: a energia (37%), o ambiente (33%) e a comunicação (31%). São os cidadãos com níveis de escolaridade mais altos, os homens e os jovens que se mostram mais optimistas quanto ao papel e aos impactos das actividades espaciais. No que respeita aos planos da União Europeia em relação ao investimento em futuras actividades de exploração espacial (por exemplo, a Moon Village), há uma clara divisão de opinião: 47% dos europeus considera que é importante investir enquanto 46% acredita que esse investimento não é importante, com destaque para Portugal (60%) e para Espanha (61%). Verifica-se também que uma grande percentagem dos europeus menciona que há assuntos mais urgentes a tratar no planeta Terra do que investir na exploração espacial e nas suas actividades tecnológicas.

Há vários motivos impulsionadores tanto da utilização da órbita geoestacionária da Terra como da exploração espacial do Sistema Solar. Os interesses vão desde a geoestratégia militar às telecomunicações e satélites, à monitorização das alterações climáticas ou às mais elevadas ambições de extracção de recursos noutros planetas, que poderão culminar na colonização e mercantilização do espaço (ver Peter Dickens e James Ormrod no livro pioneiro Cosmic Society – Towards a Sociology of the Universe). O possível esgotamento de recursos naturais na Terra e o consequente foco dos modelos capitalistas na privatização do espaço apoiados por uma hegemonia política e social terrestre são apresentados como justificação para a procura de recursos (minérios, energia) de forma a compensar futuros cenários de crise na Terra (crises económicas, alimentares, ambientais). É em alturas de crise que a exploração espacial ganha força, precisamente porque é um subterfúgio aos problemas vividos na Terra; sendo que é neste espaço vazio e infinito que se projectam a esperança, a utopia e o sonho da espécie humana (visível nas exposições científicas sobre o espaço).

Porém, a Lua é um corpo celeste que se formou pouco depois da Terra e devido ao seu pequeno tamanho e composição química não existe actividade tectónica como a que é presenciada na Terra. A Lua, por isso mesmo, contém uma biblioteca de informação do Sistema Solar que se acumulou desde a sua origem até ao presente. Devido à proximidade celeste entre a Terra e a Lua, esta última fornece-nos informação sobre os primórdios da evolução do Sistema Solar e sobre o que afectava a Terra, permitindo compreender melhor o aparecimento e a evolução da vida no nosso planeta. O ambiente lunar é, por isso, um património de informação que, uma vez perturbado pela eventual construção de uma Aldeia Lunar, será destruído sem possibilidade de se reconstruir a história do nosso planeta e das dinâmicas do Sistema Solar. Poucos estão a pensar nas consequências culturais, ambientais, sociais e éticas da construção desta Aldeia Lunar e dos vôos mais altos da exploração espacial. Nomeadamente, a possibilidade de levarmos para os mundos extraterrestres os mesmos problemas que criámos na Terra: exaustão de recursos naturais, guerras, conflitos, refugiados, bombistas suicidas, papéis do Panamá… Mais reflexão, análise crítica e interacção de ideias são necessárias para compreender as consequências de tudo isto e identificar que vias de exploração espacial podem ser melhor implementadas, passando pelos princípios da precaução, responsabilidade, universalidade de direitos de acesso e respeito pelo uso do espaço, não só por parte de todos os seres humanos na Terra como de outras espécies não humanas, terrestres ou não. Talvez um dia devêssemos perguntar à Lua se gostaria de ser colonizada por nós?

[1] A propósito, poderíamos aludir ao seguinte trocadilho: From a Mars Bar to a Bar in Mars! (créditos: João Mourato).

(Este texto utiliza a ortografia pré-acordo ortográfico.)

Mónica Truninger é socióloga e investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

Vera Assis Fernandes é geóloga lunar e investigadora no Museum für Naturkunde Leibniz-Institut für Evolutions-und Biodiversitätsforschung, Berlim


The Moon Village: “One small step for a man, one giant leap for humanity”

Authors: Mónica Truninger e Vera Assis Fernandes

And if one day there was a permanent base on the Moon? Instead of the ‘small steps’ by Neil Armstrong and the other 11 Apollo astronauts that walked on the Moon at the end of the 1960s and in the 1970s, we would need many more steps in the construction and use of a Moon Village – a ‘giant leap’ for humanity they say… But will it be?

Imagem2.pngSource: Apollo 8 Earthrise, NASA.

This Moon Village would be comprised of infrastructures, buildings, homes and hotels, vehicles and, who knows, farms for food production, supermarket chains, cafés, bakeries and even pubs and bars built on the lunar regolith or inside lava tubes, with the help of 3D printers, robots and cyborgs. If this ludicrous image seems taken from a science-fiction book, or the work by Andrei Sokolov and Pavel Klushantsev on Soviet cities on the Moon, or even the TV series Space 1999, for many planetary scientists, government officials of the ‘old’ and ‘new’ space race countries (USA, Russia, China, Japan, India, Europe, Canada), and some ‘lunatic’ entrepreneurs betting on the next great investment – space tourism –, building a lunar village is swiftly being turned into a concrete project that involves billions of euros.

Last April, the Director of the European Space Agency, Johann-Dietrich Wörner, announced plans to build a Moon Village. One of the proposals is to build the village with 3D technology, such the one in this video. This lunar base will serve as a passageway for other interplanetary flights, which will eventually reach Mars where, perhaps, supermarket chains, cafés, bakeries and even bars will be built one day [1].

The construction of this lunar base will probably become reality while people focus (and well) on the serious problems on planet Earth. Namely, the religious, cultural, economic, environmental, ethical and social issues that reach different groups and are broadcasted daily by the media: the drama of the refugees, suicide bombers, water pollution (Rio Doce [Sweet River] – the most ‘bitter’ environmental disaster of Brazil), the depletion of natural resources and fossil fuels, the Panama Papers, socio-economic inequalities exacerbated by the financial crisis, climate change, human rights’ abuse, etc. However, scarce critical thinking by the social sciences has been given to the increasing investment of resources in the materialization of the old dream of space exploration and colonization of the Moon, Mars and the Solar System by the human species. What Amitai Etzioni wrote in 1964 in The Moon-doggle: Domestic and International Implications of the Space Race appears to be so current now: “Above all, the space race is used as an escape, by focusing on the moon we delay facing ourselves, as Americans and as citizens of the earth” (p. 198).

Imagem1.pngSource: Visions of the Future, NASA/JPL.

But, what is the public opinion on all this? In the latest Eurobarometer survey carried out on space activities it is noted that the sectors Europeans think will benefit the most from these activities in the next 20 years are: energy (37%); the environment (33%) and communication (31%). Those with higher levels of education, men and younger people are more optimistic regarding the role and the impact of space activities. Regarding the European Union’s plans to invest in future space exploration activities (for example, the Moon Village), there is a clear division of opinion: 47% of Europeans consider that it is important to invest, and 46% mention that it is not important, particularly the Portuguese (60%) and the Spanish (61%). There is also a large percentage of Europeans who believe there are more pressing matters to attend to on planet Earth, than to invest in space exploration and technological activities.

There are several reasons for the use of the Earth’s geostationary orbit and for space exploration of the Solar System. The interests range from military use to telecommunications and satellites, to climate change monitoring, among others, but also to the highest ambitions of resource extraction on other planets, which may culminate in the colonization and commodification of space (see Peter Dickens and James Ormrod’s Cosmic Society-Towards a Sociology of the Universe). The possible depletion of natural resources on Earth and the focus on capitalist models in the privatization of space are often presented as justification for searching for resources (ores, energy) in outer space to compensate for future crisis on Earth (economic, food security, environmental). It is in times of crisis that space exploration gains strength, precisely because it is an escape to the problems experienced on Earth; it being in this empty space that humans’ hope, utopia and dreams are projected (also visible in space exhibitions).

Nevertheless, the Moon is a celestial body that was formed shortly after the Earth, and due to its small size and chemical composition, there is no tectonic activity as it is witnessed on Earth. Hence, the Moon comprises a library of the Solar System that has accumulated information since its origins to the present. Due to the great proximity between the Earth and the Moon, the latter provides information about the early evolution of the Solar System and what affected the Earth, allowing for a better understanding of the emergence and evolution of life on our planet. The lunar environment contains a legacy of information that, once disturbed by the possible construction of a Moon Village, will be destroyed, leaving us without the possibility to reconstruct the history of our planet and the dynamics of the Solar System. Scarce attention is paid to the environmental, social, cultural and ethical consequences resulting from the construction of this village and also of the highest flights of space exploration. In particular, the potential to take to these new worlds the same problems we have created on Earth: depletion of natural resources, wars, conflicts, refugees, suicide bombers, Panama Papers, etc.

More reflection, critical analysis and interaction of ideas are needed to better understand the consequences of all this, so that the process of space exploration can be best implemented following the precautionary principle of risk management, responsibility, and universal rights of access and respect for the use of outer space, not only by every human being on Earth as by non-humans, earthlings or not. Maybe one day we should ask the Moon whether ‘She’ wants to be colonized by us?

[1] The following pun is illustrative: ‘From a Mars Bar to a Bar in Mars’ (Credits: João Mourato).

 

Mónica Trüninger is a sociologist and researcher at the Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, Portugal

Vera Assis Fernandes is a geologist and lunar researcher at Museum für Naturkunde Leibniz-Institut für Evolutions-und Biodiversitätsforschung, Berlin, Germany.

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