Antropoceno: o derradeiro axioma escatológico?

Autor: João Mourato

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Fonte: Image: ‘Habitus’ (2013) Edge Hill University, Ormskirk, Lancashire, by Robyn Woolston.

No século I A.D., num lugar remoto que recentemente visitei, um meu homónimo relatou detalhadamente a visão profética e apocalíptica sobre o fim de tudo que o filho do seu Deus lhe tinha transmitido. O resultado é o que conhecemos hoje como o Livro da Revelação do Novo Testamento, pilar incontornável da escatologia cristã. A escatologia consiste na linha de pensamento filosófico / teológico que aborda os últimos eventos da história do mundo e o destino final da humanidade. Sublinhe-se, porém, que existe também um campo de reflexão escatológica de natureza secular. Em comum, ambas exploram a discussão do fim das eras, do tempo e da vida tal como os concebemos, e dos processos que os sucedem, se de facto estes existirem. Daqui emerge um profícuo universo filosófico, literário e cinematográfico que plasma um binómio narrativo entre retratos utópicos e distópicos do fim do mundo, perfeito enquadramento para o conceito que aqui iremos explorar.

Antropoceno

Em 2002, Paul Crutzen, prémio Nobel da química (1995), desencadeou com uma página apenas publicada na revista Nature a entrada do Antropoceno no debate científico. Como Crutzen explica em detalhe, a genealogia do conceito é bem mais complexa. De raízes tão distantes quanto o trabalho do geólogo italiano António Stoppani (1873), é a partir da década de 70 do século XX que se consolidam e intensificam referências, nomeadamente a acompanhar a emblemática Earthrise da NASA (data) e no agora livro seminal, financiando pela fundação Volkswagen sob a direção do Clube de Roma (1972), Limits to Growth.

Por sua vez, Eugene Stoermer inicia, nos anos 80, uma utilização mais sistemática do termo mas sem o formalizar e Andrew Revkin no seu livro Global Warming (1992) denomina a entrada numa era pós-Haloceno como a era do Antroceno. É só mais tarde, já no ano 2000, que numa newsletter do International Geosphere-Biosphere Programme Crutzen e Stoermer cunham de forma mais assertiva o conceito de Antropoceno. Desde então, independentemente da controvérsia científica que o acompanha, tem existido uma crescente sistematização da sua definição (por ex. Steffen, Crutzen e McNeill, 2007) e uma articulação enquanto agenda de investigação transdisciplinar (por exemplo, Bennett et al., 2015 e Biermann et al., 2015).

Mas afinal de que falamos? De acordo com Crutzen, e de forma muito sucinta, o argumento subjacente ao Antropoceno é que a espécie humana, através da sua expansão e atividades, rivaliza atualmente com algumas das grandes forças da natureza ao nível do impacto no funcionamento do ecossistema Terra. A questão fundamental das alterações climáticas é somente a ponta do iceberg. A ação humana, ampliada pela emergência da Tecnosfera, alterou substancialmente outros ciclos biogeoquímicos fundamentais da vida no nosso planeta, condicionou de forma irreversível a sua permeabilidade e sustentabilidade hídrica, etc. Subjacente ao debate sobre a reversibilidade destas alterações está a sua consequência última, que é a probabilidade de, numa dinâmica Antropocénica, a espécie humana estar a potenciar um evento de extinção em massa.

Extinção

Numa análise retrospectiva, evolução e extinção são fenómenos largamente indissociáveis na vida do planeta Terra. Estima-se que 99% das espécies que habitaram a Terra em determinado momento estão extintas. O que aqui pretendo sublinhar é a natureza distinta dos processos de extinção, nomeadamente no que diz respeito à escala em que acontecem. Extinções isoladas são comuns. Relembremos um exemplo icástico: o Dodó. Este pássaro, cujo nome se tornou sinónimo do fenómeno da extinção, habitou e evoluiu, por largos séculos e sem predadores naturais, na ilhas Maurícias. Contudo, com a chegada da era dos descobrimentos, no final do século XVI, aportaram a estas ilhas marinheiros holandeses, e provavelmente portugueses quase noventa anos antes, que conjuntamente com todos os animais domésticos que com eles vieram, dizimaram em tempo record, um “pombo do tamanho de um perú”, presa fácil pois não voava, e que não conseguiu adaptar-se as alterações estruturais, e repentinas, no seu habitat. O seu nicho ecológico desapareceu, e com ele o Dodo.

Casos de extinções isoladas, como o acima referido, são relativamente comuns. O que mais preocupa atualmente os cientistas é o ritmo a que estas extinções estão a acontecer, partindo do princípio de que nem sequer é possível determinar o número total das mesmas. Estima-se que até metade das espécies hoje em dia existentes no planeta esteja extinta em 2100. E é neste contexto que temos que equacionar o potencial processo da extinção da espécie humana e até que ponto é o Antropoceno a consagração de um processo evolutivo que a ela conduzirá. Numa leitura imediata, há pelo menos um fator do processo de extinção da espécie humana que é estruturalmente diferenciador do das restantes espécies que connosco coabitam no planeta: o potencial controlo que poderíamos ter sobre a evolução do nosso “nicho ecológico”, cuja degradação provocámos.

Consciencialização

A questão fundamental é então: de que depende esse controlo? Lester Brown identifica-o de forma incisiva: “unless civilization changes its ways, its end is truly near… we’re in a race between natural tipping points and political tipping points, – ‘what we need most of all is for the market to tell the environmental truth.’ E detalha como na sua visão se poderia destronar a meta-narrativa capitalista que, de forma aparentemente irredutível, constringe a emancipação ambiental da humanidade.

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Fonte: Joel Pett “What if its all a HOAX and we create a better world for nothing” cartoon, commissioned for the Planet Under Pressure conference.

De facto, como argumenta, “historically, it is rare for so many emerging threats to have a common solution.” O obstáculo acrescido da era do Antropoceno, mais do tecnológico, é fundamentalmente político e societal. Urge questionar como se cria o que Durkheim designou por consciência coletiva, ou Marx por consciência social, que nos permita evitar a longo prazo a nossa extinção. À escala global, o que testemunhamos assemelha-se porventura a uma espécie de anosognosia social heterogénea. Ou seja, um desequilíbrio de autoconhecimento, em que todos sofremos de uma condição debilitante, mas uns mais do que outros, parecendo alheios à existência da mesma. Promover a consciencialização ambiental global é fundamental se queremos contrariar a dimensão escatológica da era do Antropoceno.

Fim

 

João Mourato é investigador em pós-doutoramento no ICS ULisboa.

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