Justiça Socioambiental: retrato do racismo ambiental no Brasil

Por: Ana Flávia Trevizan

Na busca por um ambiente mais saudável, por um bem viver, esbarra-se na ideia de justiça: Justiça não apenas em seu sentido estrito de acesso aos foros e tribunais, mas justiça na vertente ampliada, pautada pela realidade vivenciada por um dado grupo social, abrangendo questões econômicas, culturais, ambientais e sociais.

Quando analisada em profundidade, a problemática socioambiental, por muitas vezes, expõe a ideia de injustiça. Dentre alguns casos exemplificativos tem-se a pressão sobre os territórios indígenas, exploração da mineração sem que a sociedade participe do processo de licenciamento ambiental, poluição dos recursos hídricos, desmatamento sem ulterior responsabilização, paraísos de poluição em países emergentes, morte de ativistas ambientais, deslocados climáticos.

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Uma análise crítica da inovação na Agricultura 4.0

Por: Lanka Horstink

A inovação tecnológica tem ganho preponderância enquanto solução principal para os problemas da sustentabilidade da agricultura. O conceito “Agricultura 4.0” reúne abordagens como a agricultura de precisão, agricultura inteligente, agricultura digital, agricultura vertical, e bioeconomia sustentadas em tecnologias recentes como a robótica, inteligência artificial, blockchain, internet das coisas, edição genética, proteínas sintéticas e nanotecnologia.

A Agricultura 4.0, enquanto expoente de uma 4ª revolução industrial, pretende uma “fusão de tecnologias que esbate as linhas entre as esferas física, digital e biológica.” São exemplos desta fusão, a biologia sintética que faz crescer carne a partir das células estaminais extraídas dos fetos de vacas e os organismos geneticamente modificados pela tecnologia CRISPR/Cas, que promete rapidez, facilidade e custos reduzidos na eliminação/alteração de genes indesejados. Estas tecnologias só foram possíveis graças aos avanços na computação que permitem, por exemplo, descodificar e digitalizar genomas inteiros numa questão de dias.

Foto de James Baltz no site Unsplash
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Lisboa Inovadora e Inclusiva – notas de trajetória, investigação e outros quereres

Por: João Felipe P. Brito

Há doze anos, no Rio de Janeiro, enquanto eu iniciava uma investigação sobre a criação de um novo bairro nos arredores do maior complexo penitenciário da América Latina, não imaginava que a vontade de compreender os porquês daquele processo me traria, um dia, a Lisboa. Aquela inquietação intelectual diante das desigualdades das cidades brasileiras e da mudança social em ambiente urbano resultou em uma dissertação de mestrado sobre estratégias políticas e econômicas que buscavam ressignificar e revalorizar um tradicional e decadente bairro industrial carioca, Bangu, lugar onde nasci e onde primeiro vi o mundo.

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PilotSTRATEGY Captura e Armazenamento de Carbono em Portugal

Por: Jussara Rowland, Ana Delicado, Luísa Schmidt

As alterações climáticas são um problema “malvado” (wicked, na terminologia inglesa). Complexo, de difícil resolução, não há uma “bala mágica” que o consiga travar. Da mudança de comportamentos individuais à transformação dos sistemas de produção e consumo globais, muitas são as propostas para prevenir um aumento catastrófico da temperatura no planeta, como múltiplas são as respostas tecnológicas que podem contribuir para isso. Segundo o IPCC e a Comissão Europeia, a captura e armazenamento geológico de carbono é uma das respostas possíveis,  particularmente relevante para mitigar as emissões carbónicas de algumas indústrias cujos processos industriais implicam a produção de CO2. O CO2 é capturado nas grandes fontes emissoras industriais ou de produção de energia, comprimido em estado líquido e transportado por gasoduto, navio ou comboio para ser injetado no subsolo, geralmente a profundidades superiores a 1 km. O armazenamento é feito em formações geológicas como aquíferos salinos profundos, reservatórios esgotados de petróleo ou gás, ou em camadas de carvão não-exploráveis.

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O Perigo da História Única das Alterações Climáticas

Por: Fronika de Witt

Quando rejeitamos a história única, quando percebemos que nunca há uma história única sobre qualquer lugar, recuperamos uma espécie de paraíso.

Chimamanda Adichie: O perigo de uma história única. TED Talk 2009.

A escritora e contadora de histórias nigeriana Chimamanda Adichieto tem vindo a alertar para o perigo das histórias únicas. As histórias únicas, segundo ela, são as perceções excessivamente simplistas e, por vezes, falsas que formamos sobre pessoas e lugares. Estas dependem da perspetiva do narrador e criam estereótipos e imagens incompletas. Outro problema das histórias únicas é onde começam; começar antes ou depois do processo de colonização, por exemplo, muda completamente uma história e a sua dinâmica de poder.

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Lisboa verde oriental – entre parques, hortas e corredores verdes

Por: David Travassos

Foto 1 – A zona oriental de Lisboa oferece uma coleção diversificada, e até surpreendente, de lugares e áreas verdes (exemplo do Parque do Vale do Silêncio). Fotografia do autor.

A zona oriental de Lisboa oferece uma colecção diversificada, e até surpreendente, de lugares e áreas verdes propícias ao lazer e contacto com a natureza em espaço urbano. São múltiplos ambientes, alguns ainda pouco conhecidos pela maioria dos lisboetas, incluindo lugares marcados pelas memórias do passado rural que caracterizou este lado da cidade até meados do século XX. Este território tem vindo a beneficiar da abertura de uma série de novos espaços verdes, parques hortícolas, ciclovias e percursos pedonais, incluindo a requalificação ambiental e paisagística de áreas degradadas. Somam-se ainda novos quiosques e esplanadas, parques infantis, equipamentos e circuitos de manutenção, que possibilitam um melhor usufruto destas áreas.

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A produção do mundo: estudos críticos da logística em Portugal

Por: Simone Tulumello

A palavra “logística” remete para um imaginário feito de contentores, autocarros, navios, aeroportos, armazéns, códigos de barras; de grandes empresas multinacionais; para a  ideia de fluxos; para a circulação de produtos, coisas, pessoas e capitais numa escala que vai do planetário ao local: um clique na Amazon e, 24 horas depois, um produto está à porta de casa; um clique na Uber e, 5 minutos depois, um carro está à nossa espera. Simples, rápido, fácil – smooth.

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Cidades inteligentes para quem? Notas de um estudo de caso sobre Lisboa

Por: Tomás Donadio

No enquadramento de um dos temas indicados para o Blogue SHIFT em 2022, este texto discute um tópico particular sobre o futuro das cidades: as cidades inteligentes. Apesar de ser um conceito relativamente recente, certamente a sua utilização está na moda. O termo é atualmente empregue por diversos atores urbanos, como formuladores de políticas, políticos e académicos. No entanto, é encontrado com maior assiduidade em discursos de corporações multinacionais de tecnologia e de instituições governamentais. Mas, afinal, o que são as cidades inteligentes?

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A Cidade das Mulheres: Lisboa no Cinema

Por: Mariana Liz

Num filme produzido para a celebração de Lisboa, Capital Europeia da Cultura, em 1994, Manuel Mozos reuniu imagens da capital portuguesa que até então tinham aparecido no cinema. A excertos de filmes como Os Verdes Anos, Um Adeus Português ou O Bobo, juntou depoimentos dos realizadores Paulo Rocha, João Botelho e José Fonseca e Costa, entre outros. O “outros” é intencional: é apenas uma a realizadora entrevistada, Teresa Villaverde. As estatísticas são conhecidas e têm sido cada vez mais discutidas na esfera pública: em Portugal, são realizados muitos menos filmes por mulheres do que homens, o que, aliás, está em linha com a situação na Europa. De acordo com um estudo de dezembro de 2021 do Observatório Europeu do Audiovisual, apenas 25% dos filmes europeus dos últimos anos foram realizados por mulheres.

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Podcasting climate change between tragedy and comedy

By: Enrique Pinto-Coelho

When I was a kid, probably around the age of my 11-year-old son, I sent a drawing of a flying Superman – copied from a piggy bank – to my school’s magazine. I still remember the excitement of reading my name under the full-page picture the day it was published, a mixture of pride and delight that I only felt again many years after, when I signed my first journalistic article in a (paid) publication.

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