A produção do mundo: estudos críticos da logística em Portugal

Por: Simone Tulumello

A palavra “logística” remete para um imaginário feito de contentores, autocarros, navios, aeroportos, armazéns, códigos de barras; de grandes empresas multinacionais; para a  ideia de fluxos; para a circulação de produtos, coisas, pessoas e capitais numa escala que vai do planetário ao local: um clique na Amazon e, 24 horas depois, um produto está à porta de casa; um clique na Uber e, 5 minutos depois, um carro está à nossa espera. Simples, rápido, fácil – smooth.

Primeiros resultados na busca do termo “logistics” no Google Image. Busca com filtro licença Creative Commons.

É precisamente este imaginário de smoothness que os estudos críticos da logística pretendem desconstruir, problematizar e contestar. A Produção do Mundo: Problemas Logísticos e Sítios Críticos, organizado por Andrea Pavoni e Franco Tomassoni e publicado pela editora Outro Modo, é o primeiro livro dedicado inteiramente aos estudos críticos da logística em Portugal. Sandro Mezzadra assim localiza, no prefácio, o campo onde se inscreve a perspetiva do livro:

     a logística, hoje em dia, pretende esconder a sua profunda implicação em processos de reorganização lacerante de vidas e espaços à escala global – processos que, longe de serem leves (smooth: outro termo fundamental no léxico da logística), são marcados pela violência. Por esta razão, o título deste livro […] contém a enunciação de um princípio fundamental do método da análise crítica da logística: a ênfase na produção permite a formação de uma visão radicalmente diferente daquela que a logística produz de si própria, uma visão particularmente centrada no conjunto de conflitos que constituem o contraponto essencial para a expansão das fronteiras da logística

(p. 11).

Se o imaginário que a logística oferece de si mesma é centrado na simplicidade, rapidez e facilidade (pelo “consumidor”), os estudos críticos da logística têm indagado as reorganizações, a violência e os conflitos que estão detrás dos mecanismos concretos de expansão dos fluxos da logística. Ou, nas palavras dos organizadores do livro, exploram a logística enquanto “projeto geopolítico-económico” e na “sua emergência material enquanto processo de (re)organização da composição socionatural do planeta” (p. 26 – estas e as seguintes são citações da introdução assinada por Pavoni e Tomassoni).

Capa do livro. Porto de Ancona, fotografia de Juri Boni (2021). Direitos sobre a imagem: Outro Modo. Publicado com autorização da editora.

À concetualização destas duas dimensões (economia política e materialidade) é dedicada a primeira parte do livro, Problemas, composta por 8 capítulos que se debruçam sobre temas como governança algorítmica, relações de género, conflito e estética logística, “traduzindo” – literal (a maioria dos capítulos são traduções de textos publicados recentemente em Inglês ou Francês) e metaforicamente – o campo dos estudos críticos sobre logística para o debate português.

No contexto deste post, parece-me mais relevante centrar esta discussão sobre a segunda parte do livro, Sítios, composta por 7 capítulos, que se constitui como um primeiro mapeamento, ainda parcial mas bastante multifacetado, das questões e dos sítios críticos da logística em “Portugal”. A razão de ser destas aspas tem a ver precisamente com o resultado do mapeamento que estes capítulos fazem do Portugal logístico: este aparece como um território atravessado e moldado por geografias, escalas e trajetórias históricas múltiplas e dinâmicas – isto é, Portugal além do território português. Os capítulos de Margarida Mendes e Jörg Novak descrevem Portugal “como um nó atravessado pelos fluxos materiais deste paradigma logístico” (p. 50) e, concretamente, por geografias regionais atlânticas e mediterrâneas: por um lado, as conexões entre a plataforma logística do Tejo e as ambições de expansão territorial através da plataforma continental oceânica; e, por outro, as implicações que drones produzidos em Portugal e geridos em agências baseadas em Lisboa têm na violência da fronteira meridional europeia.

A seguir, os capítulos de Franco Tomassoni com Giorgio Pirina, Nuno Rodrigues e Rita Silva focam-se nas “dinâmicas de extração, exploração e governação do território e os fluxos das empresas de plataformas em Lisboa” (p. 54). Por outras palavras, exploram a articulação das dinâmicas globais da platform economy com processos “locais” de gestão e governação de bens e direitos, e respetivamente: o papel de Lisboa enquanto lugar de experimentação para as inovações europeias da Uber; as novas relações laborais que emergem da experiência das estafetas da Glovo; e o papel das plataformas digitais nas dinâmicas de financeirização da habitação.

Finalmente, os capítulos de Maria Gago e Bernardo Pinto da Cruz com Teresa Furtado abrem para o problema do passado imperial, debruçando-se sobre as formas em que “a logística emerge como uma área de constante desafio à soberania reivindicada pela autoridade política metropolitana” (p. 57). Estes dois capítulos levam-nos às últimas décadas do império colonial, mostrando-nos as dinâmicas contraditórias que resultam da interação entre globalização dos mercados e lógicas coloniais: as reformatações nas relações entre metrópole e colónia angolana empurrada pela hegemonia americana nos mercados do café e a interseção entre a lógica de state-building e infraestruturação nos territórios nas hodiernas fronteiras entre Angola, Namíbia e a África do Sul.

Se o objetivo dos estudos críticos da logística é problematizar a visão que a logística oferece de si própria, A Produção do Mundo demonstra como, através da logística, é possível problematizar a visão que um “lugar” como Portugal oferece de si próprio. Por outras palavras, se o objetivo central deste livro era “traduzir” e assentar os estudos logísticos em Portugal, talvez o seu contributo principal tenha a ver sobretudo com o Portugal que emerge através da lente logística: um território multiescalar e relacional, onde as antigas relações coloniais e as formas que emergem no fim do império e no processo de descolonização têm contraponto num presente de contradição entre ambições de expansão territorial e um modelo de desenvolvimento centrado na necessidade de atrair fluxos e investimentos estrangeiros – um país, isto é, que continua a sonhar em termos imperiais ao mesmo tempo que se torna sempre mais dependente.

Para total transparência, participei na “produção” do livro, na qualidade de tradutor do ensaio de Irene Peano sobre dimensões de gênero no domínio da logística.


Simone Tulumello é investigador auxiliar no ICS-ULisboa. Ao longo do seu caminho, apercebeu-se de ser alérgico às fronteiras disciplinares – pelo menos às que separam a geografia humana, os estudos urbanos, a economia política, a sociologia do território, o ordenamento e planeamento.

simone.tulumello@ics.ulisboa.pt

Este post insere-se na série temática do Blogue SHIFT ‘O Futuro das Cidades

Comentar / Leave a Reply

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s