Um comentário ao livro Portugal: ambientes de mudança

Autora: Ana Delicado

Acaba de ser publicado o livro Portugal: ambientes de mudança – erros, mentiras e conquistas, da autoria de Luísa Schmidt, coordenadora do Observa e investigadora do Grupo de Investigação ´Ambiente, Território e Sociedade`. Lançado a 2 de novembro no Centro Cultural de Belém, contou com uma ampla divulgação mediática nos jornais e televisões e com a presença de variadas figuras da academia, dos media e da política de ambiente.

livro.jpg

Continuar a ler

Capitalismo Puro

Autor: Ana Horta

“Há uns vinte anos fomos forçados a aderir ao capitalismo; agora compreendemo-lo.” É assim que o investimento em energias renováveis é sentido numa pequena comunidade da antiga República Democrática Alemã. Esta comunidade, considerada exemplar no envolvimento comunitário na produção de energia renovável, assegurou 35% do total da eletricidade consumida pela povoação em 2014 e, em 2050, pretende tornar-se autossuficiente em termos de produção de eletricidade através de fontes renováveis.

Figura 1 – A escola, o pavilhão desportivo e outros edifícios são aquecidos por um sistema comunitário que não emite CO2.
Horta1.png
Fotografia da autora

Zschadraß (em Colditz, no estado da Saxónia) tem sido referida como uma comunidade modelo em que a população é coproprietária dos investimentos feitos em energias renováveis. Através de uma fundação e de uma associação formadas por habitantes locais, a comunidade tem investido em projetos de energia renovável que incluem aerogeradores de energia eólica (em que 20% é propriedade da comunidade, pertencendo o restante a um investidor privado local), painéis fotovoltaicos nos edifícios públicos e um sistema de biomassa instalado numa quinta, entre outros. Com o lucro obtido através da venda da eletricidade à rede são financiados programas comunitários de apoio às crianças que têm proporcionado, por exemplo, refeições escolares gratuitas para crianças de famílias com baixos rendimentos, campos de férias e serviços de transporte. O jardim infantil também é apoiado e quando o empréstimo bancário realizado para financiar os aerogeradores estiver pago pretende-se que o lucro seja usado para permitir que o jardim infantil seja gratuito para todas as crianças da povoação.
Continuar a ler

Novas Agendas Urbanas

Autor: João Ferrão

Um estudo recente estimou que cerca de 60% da população europeia e 80% dos residentes dos EUA não conseguem ver a via láctea durante a noite devido ao brilho das luzes das cidades. Este é apenas um indicador de como a crescente urbanização do planeta Terra afeta a nossa relação com a natureza. É certo que esta se encarrega, por vezes, de nos recordar que continuamos dependentes dela: foi o caso da erupção de 2010 do vulcão Eyjafjallajökull, ocorrida na Islândia mas cujas cinzas levadas para leste pelos ventos impediram o tráfego aéreo em diversos países da Europa e atingiram regiões tão longínquas como a Rússia asiática e o Próximo Oriente. Mas estes fenómenos, como os tremores de terra, são pontuais e não raro relativamente previsíveis. É o homem, e não a natureza, quem está a desequilibrar a relação entre ambos. Os vários alertas vermelhos emitidos nos últimos anos em Pequim por excesso de poluição, por vezes acompanhados por ordens de suspensão parcial da circulação automóvel e do funcionamento de empresas e de escolas, são um exemplo desse desequilíbrio que tem vindo a acentuar-se perigosamente.

Área afetada pelas cinzas da erupção de 2010 do vulcão Eyjafjallajökull (Islândia)

ferrao1.pngFonte: https://commons.wikimedia.org/ (CC BY-SA 3.0)

Continuar a ler

Blogue ATS – balanço dos primeiros seis meses de um blogue académico

Autores: Jussara Rowland, Ana Delicado, João Ferrão e Simone Tulumello

No final de 2015, o grupo de investigação Ambiente Território e Sociedade decidiu criar um blogue para contribuir para uma maior divulgação do grupo fora do ICS-ULisboa e ser utilizado como instrumento de diálogo ciência-sociedade e teste de ideias inovadoras.

A sua finalidade não é reproduzir informação sobre a investigação dos membros do grupo, que pode ser acedida noutras plataformas, mas funcionar como um blogue “quase-académico”, um espaço para discutir questões na fronteira entre o mundo académico e a sociedade e debater novas ideias em termos amplos.

Todos os membros do grupo integraram o projeto, incluindo os doutorandos, sendo que um dos principais objetivos da iniciativa é refletir a pluralidade de perspetivas do grupo, em termos quer de temáticas de estudo quer de percursos de investigação, de forma a incentivar uma maior experiência de todos os envolvidos na redação de textos para o público em geral.

Os posts, relativamente curtos, escritos em português e/ou inglês, devem ser apelativos, integrar preferencialmente imagens e ser redigidos numa linguagem acessível a um público generalista. Entre os temas inicialmente identificados para publicação contam-se: posts de disseminação sintética de resultados de investigação; repositórios de ideias (reflexões sobre temas inovadores que precisam de aprofundamento); temas provocatórios que podem não ter lugar na escrita académica tradicional; reflexões metodológicas e éticas; ligações entre a academia e a sociedade; difusão do conhecimento (acesso aberto e open source; sistemas de avaliação e de impacto) e recensões de livros e eventos. Apesar destas indicações iniciais, o blogue optou por não ter uma linha editorial demasiado rígida, estando aberta a contribuições com diferentes enfoques, estilos e perspetivas.

Continuar a ler

Um desafio científico: o papel das redes sociais no ativismo ambiental

Autor: Sónia Cardoso

No Verão de 2006, frases como A global warning, By far the most terrifying film you will ever see e The scariest film this Summer criaram o burburinho necessário para encher milhares de salas de cinemas em todo o mundo. O sucesso do documentário de Al Gore “Uma Verdade Inconveniente” não pode ser desassociado do marketing feroz que as frases acima ilustram. Contudo, o próprio filme fez uso de conceitos e teorias bem difundidos na área das ciências sociais para tornar eficaz a sua mensagem. Inegavelmente, o documentário determinou um ponto de viragem na opinião pública acerca das questões ambientais: apenas 2 meses após o lançamento do documentário as contribuições dos americanos para as compensações de carbono aumentaram 50% e em 2007 Al Gore recebeu o Prémio Nobel da Paz. Para além disso, nesse mesmo ano um inquérito conjunto da Nielsen Company e da Universidade de Oxford revelou que 3 em cada 4 pessoas que tinham assistido ao filme mudaram os seus hábitos e 95% admitiram ter ficado mais conscientes acerca da problemática das alterações climáticas.

Continuar a ler

O princípio da suficiência

Autora: Susana Fonseca

There are two ways to have enough. One is to accumulate more and more. The other is to desire less.”

O uso de citações para ilustrar o nosso posicionamento em termos de valores tende a ser relativamente comum, desde as assinaturas nos emails até teses, relatórios, redes sociais ou outros meios que possamos usar para nos expressarmos.

Nunca tendo sido fã desta abordagem, alterei um pouco a minha perspetiva ao encontrar a citação de G. K. Chesterton com que dei início a este post, datada do início do século XX, que resume, em poucas palavras, aquele que me parece ser o dilema central do momento presente da história da humanidade.

Neste blogue, foram  vários os posts que chamaram a atenção para os desafios que a humanidade enfrenta e como as respostas que forem dadas podem conduzir, ou evitar, a extinção da própria espécie humana. O planeta, enquanto estrutura geológica, não está em perigo, mas as condições para suster a vida sim.
Continuar a ler

O papel da sociedade civil no combate à insegurança alimentar: deambulações futurísticas

Autor: Fábio Augusto

Pensar o problema da insegurança alimentar conduz, geralmente, a uma discussão que visa responder à questão: que caminho é necessário seguir para combater de forma eficaz o fenómeno? Tratando-se de um fenómeno complexo e multifacetado, a resposta acarreta uma multidimensionalidade que apenas permite traçar algumas linhas orientadoras.

Uma dessas linhas prende-se com a necessidade de concertar esforços entre o Estado e a sociedade civil, sendo que a “gestão” desta relação poderá implicar diferentes estratégias consoante o contexto sociocultural. Continuar a ler

“Not in planning’s name”? Lessons from Israel/Palestine

Autor: Marco Allegra

Last year an International Advisory Board (IAB) chaired by Cliff Hague (former president of the Royal Town Planning Institute, RTPI) and working under the auspices of the UN-Habitat, produced a report on planning conditions for Palestinian communities in the so-called “Area C” of the West Bank. The report detailed the asymmetries of planning policies in Israel/Palestine, and highlighted how planning arguments are often used by Israeli authorities to curtail Palestinian development. The publication of the report has stimulated a debate in the planning community: the findings of the report were endorsed by eighteen former presidents of the RTPI in a letter to the Institute’s official magazine, The Planner. Hague himself recently published a commentary in the journal Planning Theory and Practice. Reflecting on his experience, he noted how in the West Bank “‘good planning’ is the rationale for oppressing poor people”, and asked professional bodies to take a stand against oppressive practices in Area C by declaring “not in planning’s name”. Continuar a ler

Antropoceno: o derradeiro axioma escatológico?

Autor: João Mourato

Fig 1 Mourato.png
Fonte: Image: ‘Habitus’ (2013) Edge Hill University, Ormskirk, Lancashire, by Robyn Woolston.

No século I A.D., num lugar remoto que recentemente visitei, um meu homónimo relatou detalhadamente a visão profética e apocalíptica sobre o fim de tudo que o filho do seu Deus lhe tinha transmitido. O resultado é o que conhecemos hoje como o Livro da Revelação do Novo Testamento, pilar incontornável da escatologia cristã. A escatologia consiste na linha de pensamento filosófico / teológico que aborda os últimos eventos da história do mundo e o destino final da humanidade. Sublinhe-se, porém, que existe também um campo de reflexão escatológica de natureza secular. Em comum, ambas exploram a discussão do fim das eras, do tempo e da vida tal como os concebemos, e dos processos que os sucedem, se de facto estes existirem. Daqui emerge um profícuo universo filosófico, literário e cinematográfico que plasma um binómio narrativo entre retratos utópicos e distópicos do fim do mundo, perfeito enquadramento para o conceito que aqui iremos explorar. Continuar a ler

Nem no meu quintal, nem no de ninguém: a luta contra a exploração de petróleo e gás no Algarve

Autora: Ana Delicado

É comum afirmar-se que a participação cívica em Portugal é baixa. E, de facto, olhando para a subida contínua da abstenção eleitoral ou para os resultados dos inquéritos internacionais que demonstram que Portugal tem das taxas mais baixas na Europa de participação em manifestações (7%), assinatura de petições (8%) ou contacto direto com um representante político (6%) (European Social Survey, 2012), esta afirmação parece confirmar-se.

No entanto, o que uma leitura mais atenta da realidade demonstra é que, quando os problemas ambientais (ou de outra natureza) as afetam diretamente, as pessoas mobilizam-se, procuram informação e aliados, exercem pressão para ver os seus interesses e necessidades satisfeitos. Foi disso exemplo o prolongado caso da coincineração de resíduos perigosos e, agora, a mobilização contra a exploração de petróleo e gás natural no Algarve.

Continuar a ler