Um comentário ao livro Portugal: ambientes de mudança

Autora: Ana Delicado

Acaba de ser publicado o livro Portugal: ambientes de mudança – erros, mentiras e conquistas, da autoria de Luísa Schmidt, coordenadora do Observa e investigadora do Grupo de Investigação ´Ambiente, Território e Sociedade`. Lançado a 2 de novembro no Centro Cultural de Belém, contou com uma ampla divulgação mediática nos jornais e televisões e com a presença de variadas figuras da academia, dos media e da política de ambiente.

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Este livro vem juntar-se a um já extenso rol de obras da mesma autora sobre a temática do ambiente (País (In)Sustentável – Ambiente e Qualidade de Vida em Portugal, de 2007, Portugal Ambiental – Casos & causas, de 1999, ou O Verde – Preto no Branco, de 1993), mas também a obras recentes de outros autores, como Ambiente em Portugal, de Sofia Guedes Vaz, ou Verdes anos, de Luís Humberto Teixeira. Em comum estes livros têm o facto de não serem publicações académicas ou dirigidas ao público universitário, mas antes obras de divulgação, que procuram trazer para o debate público as questões e os problemas ambientais.

Portugal: ambientes em mudança recolhe algumas dezenas de crónicas escritas por Luísa Schmidt ao logo de 25 anos de colaboração com o semanário Expresso, organizadas em torno de nove temas: água, esgotos e tratamento; resíduos urbanos, industriais e hospitalares; ares, poluição e saúde pública; alterações climáticas; energias; ordenamento do território e paisagem; conservação da natureza, floresta e biodiversidade; litoral e? mar; cidadania, participação e informação. Está, portanto, praticamente coberto todo o leque de dimensões que se incluem no conceito de ambiente.

Cada secção temática inicia-se com uma introdução em que a autora sumariza a evolução dos problemas ao longo deste período de duas décadas e meia, as políticas que lhe procuraram dar resposta, os avanços e recuos, as conquistas e os problemas que persistem. Cada um dos artigos (apresentados por ordem cronológica) é precedido de uma breve ficha que explicita o contexto em que foi publicado. E no final é feito um balanço do que melhorou, do que se manteve e do que piorou.

Este livro permite, pois, traçar uma história não só dos problemas ambientais em Portugal, mas também da emergência deste tema como motivo de ação política, de abordagem mediática e de análise sociológica. Possibilita apreciar como foram feitos enormes progressos em setores como o saneamento básico ou as energias renováveis, mas também como o ambiente se consolidou como uma área merecedora de ter uma secção autónoma na imprensa escrita ou programação própria nos canais de televisão (ainda que a dimensão decrescente dos artigos ao longo do tempo também mostre a compressão do espaço dedicado a esta temática no jornal Expresso). Permite constatar a persistência de problemas graves como o desordenamento do litoral e dos subúrbios ou o flagelo recorrente dos incêndios florestais, mas também a evolução legislativa e política proporcionada pela influência da União Europeia (sendo o ambiente um dos pilares da política europeia consagrado no Tratado de Maastricht de 1992). Permite ainda avaliar a mudança nas práticas de participação cívica em matérias ambientais, um resultado direto do acréscimo dos níveis de instrução da população, mas também o papel crescente que a ciência, incluindo as ciências sociais, tem tido no diagnóstico e mitigação dos problemas.

A linguagem de um livro (e das crónicas de jornais que lhe deram origem) dirigido ao grande público não é necessariamente a mesma de uma publicação científica. O nível de sustentação teórica e empírica exigido não é idêntico ao de um trabalho de investigação científica. As posições valorativas e até combativas de uma obra deste género, dada a importância e urgência de alguns dos problemas ambientais, não se adequam à fria “neutralidade” científica do ideal positivista.

No entanto, já Pierre Bourdieu afirmava que a sociologia é um desporto de combate e Michael Burawoy sistematicamente apela à necessidade de desenvolver uma sociologia pública. Não basta aos sociólogos ficarem nas margens a desenvolver brilhantes teorizações sobre os fenómenos sociais ou a publicar em revistas científicas internacionais de elevado fator de impacto. O conhecimento sobre a sociedade tem de ser devolvido ao público em formatos acessíveis e procurando ter impacto sobre as decisões políticas que vão sendo tomadas. Num momento em que vivemos sob a ameaça das consequências impremeditadas e possivelmente irreversíveis da ação humana sobre o ambiente, importa como nunca sensibilizar e mobilizar os cidadãos (e os decisores políticos) para a necessidade imperiosa de o preservar e proteger.


Ana Delicado é investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e vice-coordenadora do Observa.

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