A doença do vírus Zika: É mesmo um mosquito que causa tudo isso?

Autora: Mônica Prado

Quero compartilhar com os leitores do Blogue ATS minhas reflexões sobre a doença do vírus Zika, as quais resultam de minha aproximação com a investigação social no marco da resposta à emergência internacional decretada no dia 1º de fevereiro deste ano pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Nos últimos seis meses – maio a outubro de 2016 – tive a oportunidade de trabalhar na condução e análise de investigação social e operativa em saúde pública em países da América Latina e do Caribe como consultora da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). As leituras e o contato com cidadãos de diversos espaços geográficos e culturais produziram em mim um quadro reflexivo pessoal que imbrica ambiente, sociedade e território.

Antes de discorrer sobre minhas reflexões, gostaria de salientar que os dados divulgados pela OMS em seu último informe (10 de novembro de 2016) apontam que 69 países reportaram transmissão e que 58 reportaram epidemias da doença do vírus Zika de 2015 em diante. Além dos países que reportam transmissão por mosquito, como se vê no mapa a seguir, há 12 que reportam transmissão pessoa-pessoa: Argentina, Canada, Chile, Peru, Estados Unidos, Portugal, França, Alemanha, Itália, Noruega, Espanha e Nova Zelândia. Microcefalia e outras malformações associadas ao vírus Zika foram reportadas por 26 países e 19 reportam um aumento na incidência de Síndrome de Guillain-Barré (SGB).

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Fonte: Centers for Disease Control and Prevention

Para facilitar a narrativa sobre minhas reflexões, escolhi a imagem de um tripé e suas três pernas a sustentar um ponto de convergência. A primeira perna do tripé diz respeito à interação e a convivência entre humanos e mosquito, a segunda traz à tona a preocupação e o cuidado com as futuras gerações e a terceira perna toca nas dificuldades da governança territorial e os desafios para a gestão da água e de resíduos.

A primeira perna desse tripé reflexivo se molda do distanciamento entre humanos e natureza, como se os humanos não fossem uma espécie dentre outras tantas espécies que habitam um mesmo ambiente. De um lado, está a incredulidade em geral das pessoas comuns de que um ser tão minúsculo como um mosquito possa causar tantos danos. De outro, está o engenho humano a criar artifícios para modificar ou alterar outra espécie de maneira a fazê-la sucumbir, reforçando a posição de supremacia da espécie humana.

É mesmo um mosquito que causa tudo isso? foi uma colocação comum por parte da população em geral no transcurso das investigações operativas. Associada a ela, o relato de esforços de prevenção contra mosquitos em geral, sem a diferenciação de que um mosquito em especial, entre os outros com quem se convive em casa, é o que transmite o vírus Zika – o Aedes aegypti. Assim, além de desconsiderar o risco também há dispersão para com as medidas preventivas. Se atitude e comportamento têm seus desafios, a tecnologia vem ganhando espaço. Experimentos de controle biológico para reduzir ou eliminar os males provocados pelo Aedes já estão em curso, seja com a liberação de mosquitos inoculados com bactéria seja com a fabricação de mosquitos geneticamente modificados.

A segunda perna do tripé está construída na visibilidade de que o valor intergeracional vem se firmando no século XXI como um valor ético e universal que conforta e direciona a tomada de decisão por parte dos humanos. O valor do cuidado para com as novas gerações leva a refletir sobre ter ou não ter filhos e sobre o novo significado cultural para o uso de preservativos durante as relações sexuais dentro ou fora de relacionamentos estáveis.

Ainda que sob a ênfase do direito individual sobre decidir quando e como ter filhos, a OMS enfatiza o uso de preservativos e/ou a abstinência sexual para adultos homens e mulheres com vida sexual ativa em seu relatório de progresso (pp. 7 e 8) divulgado no dia 26 de outubro de 2016. Como exemplo, a campanha pública da Fundação CDC/Porto Rico (Centers for Disease Control and Prevention) enfatiza a transmissão sexual, o uso de preservativo e a participação masculina na prevenção de complicações na gravidez e para os bebês. No vídeo da campanha, o cuidado para com a nova geração é um gancho com o uso do slogan – hazlo por ellos!

A terceira perna do tripé de minha reflexão se conforma ao tomar como base o território e as dificuldades crescentes para uma governança territorial estratégica que se conduz por um fio invisível e abstrato, e que agrega o indivíduo, o vizinho, a comunidade, as instancias locais privadas, os serviços públicos do Estado e os entes governativos federais. Nessa engrenagem, o bem comum resulta da ação de todos. Caso algum elemento da engrenagem não esteja presente ou esteja enferrujado, a doença, nesse caso Zika, continua a transitar livremente por territórios sem fronteiras.

Em geral, as pessoas ouvidas e entrevistadas ressaltaram que o sentimento a prevalecer deveria ser o de que todos estão afetados e não especificamente uma comunidade ou um país, apontando para a inserção global. Outras muitas vozes trouxeram à tona o papel do vizinho e a responsabilidade na prevenção, sem, no entanto, indicarem que cada um é um vizinho de outro vizinho, apontando a presença do local. Também houve muitas falas sobre a frouxidão na gestão de resíduos sólidos, que é um serviço dos entes governamentais, sendo executado com recursos próprios ou por contratação de entes privados. Mais especificamente, a percepção da ausência governamental na gestão de resíduos de grandes volumes, incluindo pneus usados, e na gestão de terrenos baldios e casas fechadas. Tudo isso porque a fêmea do Aedes aegypti pousa seus ovos em paredes de qualquer recipiente com um mínimo de água parada e limpa. Se, de um lado, os recipientes a esmo relacionados com lixo ou espaços abandonados servem para abordar a prestação de serviços governamentais, de outro a governança sobre a questão da água e seu armazenamento deixa de fora aqueles que necessitam de barris, toneis e tanques. A presença desses recipientes utilizados para guardar, dentro de casa, água limpa e/ou da chuva para cozinhar e lavar traz à tona a vulnerabilidade resultante da convivência com o Aedes. Essa convivência necessita de vigilância semanal para manter limpo os recipientes e esfregadas as suas paredes, além de assegurar que estejam cobertos e tapados adequadamente, de maneira a evitar a geração de um Aedes aegypti adulto que poderá infectar os humanos que lá residem. Na busca por apresentar esse enfoque mais holístico, no final de 2015 o Ministério da Saúde do Brasil lançou a campanha pública Sábado da Faxina que lista medidas e cuidados a serem verificados ao menos uma vez por semana. Ressalta-se que Aedes é vetor para Dengue, Chikungunya e Zika.

Essas três pernas que põem de pé meu quadro reflexivo têm como ponto de convergência a adaptação e a percepção de que ela é um caminho longo e feito da costura de intervenções pontuais e acumulativas a fim de criar saltos incrementais sucessivos. Parte dessa adaptação, de meu ponto de vista, será possível com literacia científica sobre os serviços da natureza. A outra parte, dentre tantas possíveis, é olhar para o local e vivenciá-lo, somado ao ambiente, em sentido alargado. Zika veio para ficar, dizem muitos dos médicos que ouvi nessa minha caminhada. Os efeitos sociais e econômicos das complicações da doença do vírus Zika, como a microcefalia e a Síndrome de Guillain-Barré são pesados e muito ainda está por ser revelado sobre a doença.

Nota: material do Ministério da Saúde do Brasil está publicado sob a licença Creative Commons CC BY ND 3.0 Brasil.


Mônica Prado é doutoranda do Programa Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável/Instituto de Ciências Sociais – Universidade de Lisboa (ICS-UL).

 

 

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