CONCISE: O papel da comunicação nas perceções e crenças dos cidadãos europeus sobre ciência

Por Ana Delicado, Jussara Rowland, João Estevens, Roberto Falanga, Mónica Truninger

As alterações climáticas são um embuste inventado pela China. As vacinas causam autismo. Os alimentos com OGM (Organismos Geneticamente Modificados) fazem mal à saúde. A homeopatia cura o cancro, mas as empresas farmacêuticas não querem que se saiba. O Homem nunca foi à Lua. A Terra é plana.

São muitas as ideias que circulam nas redes sociais que contrariam o consenso científico prevalente. São transmitidas entre amigos, publicadas em websites, partilhadas em fóruns de discussão.  A sua disseminação aumenta o número de crentes. E, se opiniões toda a gente tem a sua, quando formam a base da tomada de decisão podem tornar-se prejudiciais para a sociedade. Pais que não vacinam os filhos não só põem em risco de vida as suas crianças como contribuem para a eclosão de epidemias. Céticos das alterações climáticas opõem-se a medidas de mitigação das emissões poluentes que poderiam impedir a catástrofe iminente. Em determinadas doenças, pacientes que substituem a medicina convencional por terapêuticas alternativas incorrem numa maior probabilidade de agravar o seu estado de saúde e até de morrer. Continuar a ler

Uma etnografia da comunidade piscatória de Setúbal: em defesa de uma antropologia de envolvimento

Por Joana Sá Couto

Para a minha dissertação de mestrado, cujo foco foi a relação entre práticas piscatórias e poluição marítima por plásticos, iniciei a minha primeira aventura enquanto antropóloga na comunidade piscatória de Setúbal, marcadamente masculina. Este post tem como objetivo salientar alguns resultados relevantes, assim como ajudar-me a refletir acerca de questões metodológicas e de produção de conhecimento na defesa de uma antropologia de envolvimento. Continuar a ler

Como planear uma cidade mais verde para todos?

Por Jessica Verheij

No ano de 2020, Lisboa vai ser a Capital Verde Europeia. Este prémio, criado e promovido pela Comissão Europeia, visa incentivar e apoiar cidades que estejam no ‘bom caminho’ para a sustentabilidade urbana e que possam funcionar como exemplos a seguir por outras cidades. Um dos motivos para eleger Lisboa foi, segundo a Comissão Europeia, o investimento feito (e a ser feito) para expandir a estrutura verde na cidade. Desde 2008 a Câmara Municipal de Lisboa (CML) já desenvolveu 200ha de nova estrutura verde, sendo que até 2021 estão previstos mais 400ha. Lisboa está a ficar mais verde. Mas será que é para todos? Quem tira partido destes novos espaços verdes e quem é deixado de fora? Quais são as prioridades da CML neste sentido? Foram estas as questões que me levaram a investigar as estratégias de estutura verde da CML a partir de uma perspetiva de justiça ambiental. Continuar a ler

Dívida pública e dependência

Por Daniel Roedel

Frequentemente os media especializados em economia destacam a necessidade imperiosa de se promover radicais ajustes nos orçamentos públicos como caminho natural e necessário para um desenvolvimento equilibrado dos países. Citam até o honroso (embora preconceituoso) exemplo das “donas de casa”, que cuidam do orçamento cotidiano e que sabem que não se pode gastar mais do que se arrecada. Tal exemplo sensibiliza e encontra respaldo nas camadas médias da população, pois esta costuma ser determinada no cumprimento de seus compromissos financeiros. Continuar a ler

Resiliência social e percepção dos impactos das alterações climáticas em Tacloban, Filipinas

Por Rita Marteleira

A República das Filipinas é um dos territórios mais vulneráveis aos impactos das alterações climáticas, devendo-se isso a factores como a localização geográfica, a intensa fragmentação em milhares de pequenas ilhas e uma distribuição populacional extremamente heterogénea que dificulta a implementação de medidas de adaptação. Este país tem sentido os impactos das alterações climáticas de forma significativa, através do aumento da temperatura média anual de 0,65°C (relativo ao período de referência de 1971-2000), da variabilidade do regime de precipitação – heterogénea no arquipélago, sendo algumas ilhas afectadas por cheias, outras por acentuados períodos de seca – e também do aumento da frequência e intensidade dos ciclones tropicais (PAGASA, 2011). Continuar a ler

Os ‘Urban Centers’ e os sistemas de Governança Participativa: oportunidades e desafios no contexto urbano atual

Por Mafalda Nunes

O modelo da ‘governança participativa’ tem ganho protagonismo em agendas e estratégias urbanas a nível internacional como forma de construir cidades mais democráticas e inclusivas. Os princípios e valores (bem como a respetiva terminologia) dos processos colaborativos, da cocriação com stakeholders e da auscultação e engajamento das comunidades adquirem, neste contexto, um lugar central tanto em documentos e discursos políticos, como em projetos e abordagens de desenvolvimento local. Continuar a ler

Um novo fôlego para o Desenvolvimento Sustentável?

Por João Guerra

Com os primeiros sinais de crise ecológica, nos anos sessenta e setenta do século XX, surgiu a ideia de Desenvolvimento Sustentável (DS). O conceito, no entanto, só décadas depois se consolidou com a publicação, sob o título “O Nosso Futuro Comum” (1987), do Relatório Bruntdland. Foi nesta obra que se delimitou o âmbito do DS e, a partir daí, se disseminou a ideia pelos mais variados cantos do globo: “um desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração presente, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das gerações futuras”. Continuar a ler

O acesso ao terreno: dilemas, desafios, estratégias e compromissos

Por Fábio Rafael Augusto

“Sabemos que o terreno de pesquisa […] é muito mais do que um local onde vai ser realizada a observação. Mas também é um local.” (Amante, 2015)

No âmbito do projeto de doutoramento que me encontro a desenvolver no ICS-ULisboa em Sociologia, onde procuro analisar iniciativas de apoio alimentar (IAA) e as dinâmicas relacionais que se estabelecem entre voluntários e beneficiários, tenho vindo a deparar-me, como seria de esperar, com desafios de diversa ordem.

Um desses desafios prende-se com o acesso ao terreno. De forma a chegar às dinâmicas entre os atores supramencionados considerei pertinente partir para a realização de voluntariado nas IAA selecionadas. Desta forma, seria possível – com recurso ao método de observação participante – cumprir os objetivos do projeto e, simultaneamente, dar algo em troca às iniciativas. Continuar a ler

Portugal, o novo Eldorado dos processos participativos?

Por Roberto Falanga

Processos participativos: de onde vêm e para onde vão?

Os novos processos participativos com a sociedade civil têm vindo a representar um fenómeno de destaque em muitas democracias contemporâneas. Experiências pioneiras de orçamento participativo desempenharam um grande papel na replicação à escala global, como demonstram as mais de 2 mil autarquias no mundo empenhadas neste tipo de processo. No Brasil, onde o primeiro orçamento participativo foi realizado pelo município de Porto Alegre nos finais dos anos 80, a Rede de Brasileira de Orçamento Participativo contabilizou 355 processos em curso até 2012, e dados mais recentes confirmam que cerca de mil orçamentos participativos foram implementados até 2016 na América Latina. Em 2018 contam-se cerca de 3500 orçamentos participativos em Europa, seguidos pela Ásia, com cerca de 800, África, com cerca de 350, e Estados Unidos, com cerca de 75. Continuar a ler

Segurança alimentar e políticas públicas sobre alimentação

Por Virgínia Henriques Calado

A criação de conselhos municipais de alimentação em Portugal é uma proposta em torno da qual se têm vindo a mobilizar diversas entidades, designadamente, a FAO-Portugal, a Rede Rural Nacional, a Rede Portuguesa pela Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (ReAlimentar) — rede da sociedade civil que «tem por objetivo principal influenciar os processos de formulação e tomada de decisão sobre políticas públicas, nacionais e internacionais, que digam respeito à Soberania e Segurança Alimentar» — e universidades portuguesas, como a Universidade Aberta e a Universidade de Lisboa, esta última através do Colégio Food, Farming and Forestry (F3). Seminários organizados, como aquele em que se discutiu o Direito humano a uma alimentação adequada através de compras públicas e cadeias curtas agroalimentares (Universidade de Lisboa, 7 de fevereiro de 2018) ou a oficina Direito humano à alimentação adequada e políticas públicas ao nível local (FAO – Portugal, Lisboa, 19 de junho de 2018), permitiram dar conta do desejo de implementação de políticas públicas nacionais e municipais que possam contribuir para uma realização progressiva do direito a uma alimentação adequada.

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