A crise na Área Metropolitana de Lisboa: entre austeridade nacional e respostas locais

Autor: Simone Tulumello

Passaram mais de oito anos desde que, em outono de 2007, o colapso do mercado de crédito à habitação iniciou uma reação em cadeia que iria provocar a falência do banco Lehman Brothers, a crise financeira e, finalmente, a grande recessão global. Na Europa, a recessão produziu, por sua vez, uma série de crises das dividas soberanas, que desde 2010 afetaram de maneira particularmente evidente os países do sul da Europa, incluindo Portugal, o qual teve que recorrer, em 2011, a um “programa de resgate” e a um financiamento extraordinário da “troika” composta pelo Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional.

Durante esses anos, muito foi estudado e escrito sobre as causas e os efeitos da crise nos vários países europeus, sobre as políticas anticrise adotadas – nomeadamente, políticas de austeridade a nível europeu e nacional – e sobre as dimensões políticas da crise e da austeridade. Porém, e em termos comparativos, o debate sobre a dimensão local e urbana da crise foi pouco rico. Quais as consequências da crise e das políticas de austeridade nas sociedades urbanas? Quais as respostas implementadas pelas autarquias? E quais as reações cívicas e políticas desenvolvidas à escala local?

No artigo Dinâmicas sociogeográficas e políticas na Área Metropolitana de Lisboa em tempos de crise e de austeridade (em acesso aberto), publicado por mim, João Seixas, Ana Drago e Susana Corvelo na revista Cadernos Metrópole, tentou-se responder a estas perguntas com base no estudo da Área Metropolitana de Lisboa.

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Green Growth Knowledge Platform. O que é, para que serve?

Autor: António Sobrinho

Com o propósito de divulgar e contribuir para a transição rumo a uma economia verde (equitativa, de baixo carbono, eficiente em recursos e socialmente inclusiva), quatro organismos – o Global Green Growth Institute (GGGI), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) e o Banco Mundial – decidiram criar em Janeiro de 2012 a Green Growth Knowledge Platform (GGKP).

Das quatro organizações internacionais atrás referidas, a mais recente e, eventualmente, a menos conhecida – GGGI – foi fundada em 2012 durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio+20. Tem como missão apoiar e promover o crescimento económico robusto, sustentável sob o ponto de vista ambiental e socialmente inclusivo nos países em desenvolvimento e nas economias emergentes. Está sedeada em Seoul, na Coreia do Sul.

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Palmas – Documentário sobre a comunidade cearence que criou a sua própria moeda

Foi apresentado, no passado dia 24 de fevereiro, no ICS-ULisboa, o filme Palmas, da realizadora Edlisa B. Peixoto.

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O filme conta a incrível história de uma comunidade cearense que transformou a situação inicial de “moradores de favela” na década de 70 e criou uma série de soluções inusitadas para resolver os seus problemas socioeconómicos, o que resultou na criação da sua própria moeda – O PALMAS – e do Primeiro Banco Comunitário do Brasil – o Banco Palmas.

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Nem no meu quintal, nem no de ninguém: a luta contra a exploração de petróleo e gás no Algarve

Autora: Ana Delicado

É comum afirmar-se que a participação cívica em Portugal é baixa. E, de facto, olhando para a subida contínua da abstenção eleitoral ou para os resultados dos inquéritos internacionais que demonstram que Portugal tem das taxas mais baixas na Europa de participação em manifestações (7%), assinatura de petições (8%) ou contacto direto com um representante político (6%) (European Social Survey, 2012), esta afirmação parece confirmar-se.

No entanto, o que uma leitura mais atenta da realidade demonstra é que, quando os problemas ambientais (ou de outra natureza) as afetam diretamente, as pessoas mobilizam-se, procuram informação e aliados, exercem pressão para ver os seus interesses e necessidades satisfeitos. Foi disso exemplo o prolongado caso da coincineração de resíduos perigosos e, agora, a mobilização contra a exploração de petróleo e gás natural no Algarve.

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Mudanças nas práticas dos consumidores: como as baterias dos telemóveis podem contribuir para a eficiência energética

Autora: Ana Horta

Se tem um smartphone já deve ter reparado na rapidez com que o pequeno aparelho fica sem bateria. Por isso há quem ande sempre com o carregador ou tenha comprado uma bateria de reserva ou power bank. Mas também há quem esteja a desenvolver uma nova prática: gerir o telemóvel de modo a evitar gastar energia desnecessariamente e assim prolongar a duração da bateria.

Uma investigação realizada recentemente mostra que gerir a energia do telemóvel é uma nova prática de muitos adolescentes. Sendo o grupo etário que mais utiliza o telemóvel e tendo geralmente grande facilidade em utilizar tecnologias eletrónicas, parte dos adolescentes está a adquirir um hábito que consiste em usar energia com mais eficiência. Este know-how poderá ser aplicado noutros domínios da sua vida quotidiana, com benefícios tanto a nível económico como ambiental. Dada a necessidade urgente de tornar sustentáveis as sociedades contemporâneas, o desenvolvimento desta prática é muito interessante do ponto de vista da mudança de comportamentos no sentido de um consumo de energia mais sustentável. Esta investigação mostra o processo de adoção desta prática, contribuindo para compreender como se processam algumas mudanças nos comportamentos relacionados com o consumo de energia.

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Sulcando e atravessando territórios de pesquisa

José Luís Cardoso

Comentário sobre o livro:

João Ferrão e Ana Horta (orgs.), Ambiente, Território e Sociedade: novas agendas de investigação. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2015.

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Que existe de comum entre as preocupações com o consumo alimentar sustentável e com a energia que se consome ou desperdiça? Que pontes e caminhos cognitivos cruzam águas poluídas e lixeiras produzidas pelo homo urbanus?  Quais os efeitos que adultos e crianças sentem e sofrem por viverem em ambiente debilitado que lhes afecta a saúde? Que formas de participação cívica e política estão ao alcance dos cidadãos interessados em intervir na construção das condições de melhoria do seu bem-estar? Qual o envolvimento e que tipo de empenho se espera dos decisores públicos na condução de políticas que dignifiquem e valorizem a nossa existência individual e colectiva?

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Investigação comparada internacional de políticas públicas: e quando não há informação?

Autora: Sónia Alves

Os estudos de análise comparada internacional procuram explicar, e não apenas descrever, as similaridades e diferenças entre dois ou mais casos que se situam em diferentes países, podendo focar os sistemas nacionais, as cidades ou outros objetos de investigação. Alguns estudam questões estruturais relacionadas com o modo como os diferentes sistemas nacionais são financiados e se encontram organizados, outros comparam questões de natureza mais ideológica ou institucional, tais como as que se relacionam com as finalidades e os agentes da intervenção nos diferentes países.

Ao longo das últimas décadas, no contexto de instituições europeias e nacionais, o interesse pela investigação comparada internacional tem aumentado, sendo diversas as razões que o justificam. Por um lado, a existência de problemas idênticos em diferentes contextos territoriais, justifica a relevância da discussão do que é similar e diferente nas respostas políticas dirigidas a esses mesmos problemas. Por outro lado, reconhece-se que a discussão das teorias e das racionalidades subjacentes à formulação e implementação dessas respostas, bem como à avaliação dos seus resultados, poderá aprofundar o conhecimento sobre o que funciona, porquê e para quem em função das diferentes circunstâncias da sua aplicação.

É neste contexto que a questão da transferibilidade dos instrumentos e das ‘boas’ práticas entre diferentes contextos territoriais é avaliada e debatida, sendo de forma unânime aceite que mais importante do que ‘copiar’ ou replicar é aprender com as experiências de outros, entendendo como foram geradas e construídas, como funcionam e que resultados produzem. No contexto deste processo de aprendizagem, o acesso à informação assume um papel decisivo. Continuar a ler

Recursos de ciências sociais na web: Redes Sociais

Autor: Luís Junqueira

Ao longo dos últimos anos, aplicações como o facebook ou linkedin contribuíram para popularizar o conceito de rede social. No entanto, no contexto das ciências sociais a ideia de rede social tem um significado mais abrangente. As redes sociais são um método de representar e organizar dados que pode ser utilizado para estudar uma grande diversidade de fenómenos sociais. Este texto tem o objetivo de servir como uma muito breve introdução ao uso de métodos baseados em redes nas ciências sociais e de apresentação de alguns recursos online para recolher e trabalhar em redes sociais.

O uso de redes como suporte de dados não é obviamente apropriado a todas as situações em ciências sociais. Mas nas situações em que é possível e desejável obter informação sobre as ligações entre os atores sociais envolvidos, o uso de redes apresenta alguns benefícios:

  • Simplifica a visualização de dados complexos. A disponibilidade de ferramentas que permitem manipular a representação de redes através de ajustamentos da posição, cor ou forma dos vértices e arestas facilitam a visibilidade dos elementos considerados relevantes, mesmo em redes densas ou de grande dimensão.
  • Permite que se alterne facilmente entre várias escalas. É possível passar de uma análise dos aspetos estruturais da totalidade da rede para uma análise de partes da mesma (em última instância até aos elementos individuais) mantendo uma ligação entre várias escalas.
  • Para todos os efeitos, uma rede é uma estrutura de dados. Os vértices e as ligações podem conter variáveis semelhantes às usadas habitualmente em trabalhos quantitativos em ciências sociais (género, idade, escolaridade, etc.) e que podem ser integradas na análise.
  • Graças à popularidade das plataformas associadas ao que é frequentemente denominado Web 2.0, assentes em práticas de maior interação e de participação dos utilizadores na produção de conteúdos, estão disponíveis novas fontes de dados que podem ser facilmente estruturados como redes. Análises baseadas em dados do twitter, facebook, wikipedia, etc. tornaram-se populares em algumas áreas das ciências sociais.

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Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – Novos Horizontes, Novas Esperanças

Autora: Luísa Schmidt

Aquilo a que generalizadamente usamos chamar “crise”, como hoje bem se sabe, são várias crises e – embora global – ela está longe de ser uniforme conforme os países e as regiões do mundo. É certo que a sua sinistra notoriedade advém dos acontecimentos financeiros iniciados nos EUA em 2007/8. Foi lá que o crédito imobiliário mal parado desencadeou em cascata a derrocada do edifício de fantasias bancárias em que vivia o sistema financeiro – não só norte-americano mas global. É história sabida.

Contudo, a doença do sistema revelou raízes bem mais antigas e mais fundas. Um sistema económico que assenta historicamente na exploração ilimitada de recursos finitos e na perpetuação das mais desumanas desigualdades sociais é o rosto daquilo a que se chama “insustentabilidade”.

Não podemos sequer dizer que é novidade. De há muitas dezenas de anos para cá que cientistas de vários quadrantes alertaram para a insustentabilidade ambiental e social do sistema que estava a ser construído. Mas a vertigem eufórica dos ganhos levava sempre a considerar esses avisos como agoiros de desmancha-prazeres.

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COP21: Paris entre a esperança e a desconfiança

Autor: João Guerra

No mundo atual, mais de novecentas toneladas de CO2 são emitidas a cada segundo, um ritmo que torna cada vez mais plausível a irreversibilidade das alterações climáticas (AC) e a grandeza dos seus efeitos. As emissões de gases resultantes do uso de combustíveis fósseis têm vindo a mudar drasticamente a estrutura da atmosfera terrestre, ativando um fenómeno de aquecimento global, cuja existência merece cada vez menos contestação. Este fenómeno corrói o próprio equilíbrio do planeta e as condições de existência da humanidade, mas muito particularmente, e em primeira linha, põe em risco os ganhos alcançados nos últimos anos nas condições de vida dos países e dos grupos sociais mais vulneráveis, seja porque se situam em áreas atreitas a eventos extremos e outros fenómenos climáticos geograficamente determinados, seja porque o lugar que ocupam na economia não lhes oferece espaço de manobra suficiente para enfrentar os desafios com que se deparam.
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