A ameaça escondida da pobreza energética em Portugal

Por Ana Horta

Num dos dias mais frios deste inverno contei quantas pessoas via na rua com luvas ou gorro. Durante bem mais de meia hora pelas ruas de Lisboa só vi duas ou três. Nenhuma delas tinha simultaneamente luvas e gorro. Não era a estética dos agasalhos que me interessava. O que queria era perceber como é que os portugueses se comportam em relação ao frio. Agora que o tempo quente voltou, esta questão pode parecer descabida e sem qualquer atualidade. No entanto, se tivermos em conta que Portugal é um dos países europeus em que o excesso de mortalidade no inverno é mais alto, já será evidente que devíamos dar mais atenção a esta questão (Figura 1).

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Figura 1. Excesso de mortalidade no inverno, 2014 (percentagem da população). O verde escuro representa 0 a 6,67% da população; cada tom mais claro representa mais cerca de 7%; o tom laranja representa 26,67 a 33,33% da população. Legenda completa aqui. Fonte: EU Energy Poverty Observatory

É paradoxal que num país com clima tão ameno a população seja mais vulnerável ao frio do que nos países da Escandinávia ou noutros do norte da Europa. No entanto, diversos fatores contribuem para explicar este aparente paradoxo, como a capacidade das populações para se protegerem do frio, que está fortemente relacionada com a pobreza energética e a reduzida eficiência térmica das habitações, os rendimentos das famílias, as desigualdades sociais ou o baixo nível de despesa pública com cuidados de saúde (Healy, 2003).

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Combate ao plástico nos oceanos: estará Portugal a preparar as suas tropas?

Por Sónia Cardoso

Olhe à sua volta e conte o número de objectos feitos inteira ou parcialmente em plástico. Para facilitar a tarefa, peço que o faça apenas no perímetro de 1 metro. Surpreendido?

A presença omnipresente do plástico no nosso dia-a-dia faz com que passe despercebido muito facilmente, contudo, um olhar mais atento torna-o impossível de se camuflar: está nos nossos computadores, telemóveis, em recipientes, brinquedos, carros e até cosméticos. O plástico foi concebido para ser durável e resistente. Estas características, aliadas à sua fácil utilização e baixo preço, democratizaram uma produção com crescimento exponencial (sobretudo desde a Segunda Guerra Mundial). De acordo com Geyer e colegas (2017), os mesmos motivos que levaram à “libertinagem” da utilização deste material, nomeadamente a sua resistência e durabilidade, dificultam a sua assimilação na natureza no seu fim de vida útil. Os mesmos autores alertam: “without a well-designed and tailor-made management strategy for end-of-life plastics, humans are conducting a singular uncontrolled experiment on a global scale, in which billions of metric tons of material will accumulate across all major terrestrial and aquatic ecosystems on the planet” (p.3). De facto, dados das Nações Unidas relevam que todos os anos treze milhões de toneladas de plástico vão parar aos oceanos.

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As if U and sustainability mattered: U-you, U-niversity, U-theory, U-topia

By Olivia Bina

U for you

When was the last time you sat with two strangers and told them the story of your life, in three minutes?

Mine was eight weeks ago. It is harder than you think. And not just because of the embarrassment factor, but because one too rarely thinks of one’s whole life, let alone presenting it in three minutes. But it does achieve something precious: it tears down silos. Silos of me and you, of all those ideas of what makes us different, of what divides us, of the ‘what I do’ identities. It leaves you with something simpler, something about a shared humanity and a sense of what probably does matter and what probably does not (at least not that much).

U for University

It is from within this space that thirty-two people from fifteen countries began a journey to explore ‘The Future Of Universities, as if Sustainability Mattered’: a training programme centred around the question of how universities can be a positive force for transformation and change towards a more sustainable future.

The key words here being ‘future’ and ‘sustainability’, since both inevitably require a normative exploration engaging with ‘evaluative claims about what is good’. And to add to the discomfort that at least some of us are already feeling with ‘being normative’, let me introduce the killer application: during a whole week, we were asked to use bodies (the ones in the room), emotions and, yes, minds. That was meant to take care of the centuries-long arguments around separation between thought and feeling.

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Pobreza alimentar nas famílias portuguesas

Por Mónica Truninger e Sónia Cardoso

A crise económica iniciada em 2008/2009 e as políticas públicas de contenção apertada do orçamento de estado português tiveram como reflexo o decréscimo dos rendimentos disponíveis das famílias entre 2009 e 2014. Alguns estudos apontaram que foram as pessoas com rendimentos menos elevados que mais foram afetadas pela crise, tendo visto o seu rendimento diminuir cerca de 25%. Aliás, Portugal manteve-se como um dos países socialmente mais desiguais da Europa. Os indicadores de privação material também aumentaram neste período, bem como a taxa de pobreza, sobretudo a das crianças e jovens (Farinha Rodrigues et al., 2016).

Os constrangimentos económicos aliados ao recuo das políticas sociais conduziram à degradação das condições de vida de muitas famílias portuguesas. Contudo, as repercussões na alimentação permaneceram praticamente inexploradas. Passados 10 anos sobre o espoletar da crise económica em Portugal, quisemos saber como é gerida a alimentação das famílias carenciadas com crianças.

No próximo dia 7 de junho vamos discutir estas questões no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa) no âmbito do Colóquio “Famílias e Alimentação em Tempos Difíceis”, onde serão apresentados os resultados preliminares do projeto com o mesmo nome pela equipa do ICS-ULisboa (Mónica Truninger, Karin Wall, Vasco Ramos, Fábio Augusto e Sónia Cardoso). Segue-se uma mesa redonda com alguns profissionais e especialistas nesta área, nomeadamente Pedro Graça (professor associado, FCNAUP/DGS-PNPAS), Rita Barbosa (serviços sociais da Junta de Freguesia de São Domingos de Benfica), Rui Matias Lima (DGE-Ministério da Educação) e Catarina Cruz (Observatório da Luta Contra a Pobreza na Cidade de Lisboa). O professor José A. Pereirinha do ISEG fará o comentário final.

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Urban Food Gardens and the Sustainable Development Goals: blooming opportunities for local governance?

By Tainan Messina

One of the first things that called my attention in Lisbon, when I first arrived from Brazil, was the amount of used and unused green areas available within city limits. As I disembarked straight from Rio de Janeiro, a city that struggles with land scarcity, real estate development and gentrification, Lisbon’s land availability confused and amused me at the same time. On my everyday commute, I would think about all the possibilities these areas had to offer to local communities` improvement, for food production enhancement and for the overall promotion of the United Nations Sustainable Development Goals (SDGs). Worldwide, cities have the challenging task of how to pursue multiple SDGs, and Urban Food Gardens (UFGs) may present an interesting window of opportunity, with numerous options. These gardens, where ‘open spaces are managed and operated by members of the local community in which food or flowers are cultivated’ within urban or peri-urban limits, have the potential to address both municipal specific issues or wider regional goals if properly integrated in local/regional policy frameworks, boosting Lisbon’s food security, food systems’ design and overall social well-being.

When we look at urban planning strategies and policies, food systems are less visible and seem to be less of a priority than other systems, like housing, transportation and employment generation, and Lisbon is, in this sense, no different. However, as urban populations grow and climate change impacts become more frequent, food systems need to be looked at more comprehensively, and different institutional arrangements must be considered in order to tackle key food security and urban challenges.

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Figure 1.Soil improvement and planting activities (Source: Circular Schools Project)

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El Cambio Climático en los hombros de las Ciencias Sociales

Por Mercedes Pardo-Buendía

Las evidencias del Cambio Climático no dan lugar a duda: 1) el aumento de la temperatura media de la superficie del planeta desde la industrialización en alrededor de 0,85ºC; 2) la disminución del hielo en el Ártico (3,5-4,1% por década en el periodo 1979 a 2012 e importantes cambios en la Antártida): 3) la subida del nivel del mar (0,11°C por década hasta los 70 metros de profundidad, en el periodo 1971-2010).

Las consecuencias de esas evidencias abarcan asuntos tan graves como el aumento de fenómenos climáticos extremos, como son las olas de calor que, con muy alta probabilidad, serán más frecuentes y durarán más tiempo, tormentas y huracanes, entre otros. Dentro de estos fenómenos no lineales – lo cual añade mayor riesgo – tenemos la reaparición del fenómeno de El Niño.

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Habitação para todos?

Por Dulce Freire e Pedro Namorado Borges

Nos últimos meses, os problemas de acesso à habitação têm animado os debates no espaço público. Se na Assembleia da República o assunto tem sido discutido, o governo apresentou decisões que considera pertinentes para aplacar esses problemas. Estas iniciativas do Estado enquadram-se numa orientação que remonta a Abril de 1918, quando foram promulgadas as medidas que conferiram consistência à intervenção pública no âmbito da habitação. Verifica-se que, passados cem anos sobre essa legislação inaugural, o assunto não perdeu actualidade.

Invisibilidade do problema rural

Uma análise histórica destas iniciativas mostra que o Estado privilegiou o apoio à habitação urbana, mesmo quando a população rural ainda era a larga maioria em Portugal e vivia em condições deploráveis. Esta foi uma das conclusões do projecto, intitulado O problema da habitação rural: debates e políticas públicas durante o Estado Novo (1933-1974), desenvolvido no ICS-ULisboa com financiamento do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana. Como até à década de 1960 a maioria dos portugueses trabalhava na agricultura e vivia nas áreas rurais, parece que as políticas públicas visaram sobretudo uma minoria que residia em cidades e algumas vilas. Então, uma questão se impõe: o Estado não viu os problemas da habitação rural?

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The Alternative University of Romania: a life-changing experience?

By Lavínia Pereira

Imagine a University that prioritises self-development, awareness and civic engagement!

Within the scope of this research on the ‘Future of University’, and its contribution to more just and sustainable futures, last February I went to Bucharest for a ‘short-term scientific mission’ (STSM) funded by INTREPID Cost Action, aiming to explore the educational and organizational model of Alternative University (AU) of Romania. My expectations were high. I had met Traian Bruma – one of the founders of AU – a couple of months earlier, and his enthusiastic presentation at a gathering at ISCSP in Lisbon caught my attention. Founded in 2008 by a group of students from Politehnica University of Bucharest, integrated in the student associative movements of Romania, AU is a non-conventional project for higher education. Proposing itself as an alternative to the Romanian higher education conventional system, considered by the founders to be out-dated, disconnected from the world and indifferent to the real needs of the students, the Alternative University strived to be a freedom-centred organization with an educational model mainly focused in human development in its various dimensions, with a strong emphasis in self-directed learning.

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‘Schools around the World’ Hackathon @ the Alternative University, 4th February 2018. Photo by Lavínia Pereira.

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Navigating climate change communication between advocacy and denialism

By Jieling Liu

When I came back from Asia after a 4-month trip to Lisbon at the beginning of March this year, a friend came to pick me up. Driving into the city, I noticed how green every corner had turned and the sun was gently shining golden light into the car – “How nice! I came back to the peaceful, green and sunny Lisbon!” As I spoke out loud my happiness, my friend kindly informed me that it had been raining for three weeks in a row, and that the sun “only came out to greet my return”. I was surprised, as much of my memories of Lisbon have been associated with sunny summer on the beach. “Yes, my mother said it was not at all common fifty years ago to have so much rain at this time of the year,” with a look in my eyes, my friend added: “it’s climate change, yeah?”

If I was to respond instinctively based on my scientific knowledge of climate change, I would say: “it probably is a result of climate change”, which was what I responded. We know that climate change is not merely about the excessive amount of CO2 in the atmosphere resulting in warmer temperature and “the warmest year on record…in a row”, nor just about penguins and polar bears, it is also about warmer oceans, more vibrant storms and more destructive wind speed – Harvey, Irma, Patricia… record damaging storms and superstorms on earth, sea level rise, increasing heatwave mortality, and a range of uncertainty related to extreme events, causing great costs of life and the economy. But it was obvious that the word “probably” did the opposite of facilitating the communication and clarifying the issue of climate change, on the contrary, it turned off the conversation which had an excellent context “three weeks of unusual rain”, in delicate awkwardness. The next thing we knew was that the rainy season continued for another few weeks.

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“Campo de refugiados sem refugiados”[1]

Por Pedro Figueiredo Neto

A observação de um campo de refugiados ao longo do tempo – de resto, como acontecerá com tantos outros lugares – informa acerca da história e política(s), sobre dinâmicas socioeconómicas e ambientais, sobre o evoluir das relações entre a esfera humanitária e do desenvolvimento, tanto ao nível regional como global. Desde 2012 que acompanho a situação no campo de refugiados de Meheba (Northwestern Province, Zâmbia), com incursões regulares no terreno (2012, 2014 e 2018) observando as várias transformações aí experienciadas, e reflectindo, entre outras coisas, acerca de qual o fim desse lugar muito além da emergência que lhe deu origem, bem como dos respectivos habitantes.

Criado em 1971 com vista a acolher populações que escapavam do conflito angolano, o campo de refugiados de Meheba iria crescer ao longo do tempo. Ecoando os picos de violência regional, o campo viria a receber também indivíduos oriundos da República Democrática do Congo (RDC), Ruanda, Burundi, Somália, entre outros países menos representativos. As sucessivas vagas de refugiados, a par do carácter agrícola (a cada núcleo familiar eram atribuídos cerca de 5ha de terra arável com vista à auto-suficiência), explicam os mais de 720km2 de área deste lugar. Da estrada alcatroada que liga as cidades de Solwezi e Mwinilunga parte a via principal do campo que, ao longo de mais de 35km, articula, em forma de espinha de peixe, os seus oito blocos. Até recentemente, uma leitura sócio-espacial informava, de modo mais ou menos linear, acerca de quarenta anos de conflitos na região. Hoje em dia, Meheba apresenta um panorama sócio-espacial e demográfico bastante mais complexo e heterogéneo, explicitando uma série de transformações políticas, socioeconómicas e humanitárias.

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