Segurança alimentar: da cacofonia à sinfonia semântica?

Por Mónica Truninger

O conceito de segurança alimentar tem sido objeto de vários debates e reconfigurações ao longo do tempo, de tal forma que há quem diga que existem mais de 200 definições.

A confusão ainda é maior nas línguas de origem latina! Não é invulgar estarmos num debate em português onde os e as oradoras empregam o termo ‘segurança alimentar’ para se referirem a realidades distintas: seja em relação a questões de risco, higiene, limpeza e desinfeção dos alimentos—food safety na língua inglesa e bem ilustrado pelo Hazard Analysis Critical Control Points—HACCP;  a questões de fome e escassez alimentar—food security; ou a questões de direito à alimentação—food rights.

Esta variedade de significados, mais as suas múltiplas nuances semânticas e combinações, explicam a cacofonia e falta de clareza concetual entre os termos de ‘pobreza’, ‘segurança’ e ‘soberania’ alimentares.

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Clima e energia: política pública de ambiente em Cabo Verde

Por Luzia Oliveira

O resultado da COP 21 em Paris evidenciou a importância que a questão das alterações climáticas ocupa na agenda dos decisores políticos, tanto à escala macro como micro. Os compromissos assumidos pelos grandes e pequenos países emissores, como é o caso de Cabo Verde, mostram que não há outro caminho que não seja a opção por uma política voltada para a descarbonização da economia, a fim de evitar que a temperatura média global ultrapasse os 2ºC acima dos níveis pré-industriais.

Apesar de a primeira reunião pós-Paris COP 22, realizada em Marraquexe, ter terminado num clima de incerteza devido às eleições presidenciais norte-americanas, ficou patente que o paradigma do desenvolvimento atual, baseado essencialmente em combustíveis fósseis, é incompatível com a capacidade de absorção do planeta. Refiro-me à capacidade de sequestro por parte dos grandes sumidouros naturais, como sejam os oceanos e florestas, e mesmo das tecnologias desenvolvidas para potenciar tal capacidade, pelo que todos os esforços devem ser desencadeados para tentar inverter a trajetória de crescimento das emissões de gases com efeito de estufa. Não restam dúvidas de que é indispensável a opção por uma política energética assente na produção por fontes renováveis, conjuntamente com medidas de eficiência energética, que vão desde alternativas para otimizar a produção até às pequenas práticas individuais para racionalizar o consumo. Continuar a ler

Coração, Cabeça e Estômago

Autor: Luísa Schmidt

O título de célebre romance de Camilo Castelo Branco – ‘Coração, Cabeça e Estômago’ – serve bem de mote para o Barómetro da Sustentabilidade[1] cujos resultados foram apresentados no passado mês de Setembro.

Em termos muito sintéticos, destacam-se algumas dimensões presentes na sociedade portuguesa marcada na actualidade pela ressaca de uma crise ainda não resolvida e por fortes clivagens sociais, geográficas, culturais, geracionais… A parábola camiliana refracta-se e diverge mas não é contraditada.

O inquérito que enquadra o Barómetro arranca com um conjunto de questões gerais, pelas quais procuramos saber em que sectores económicos acham os portugueses que o país deveria investir no futuro próximo. É acima de tudo na ‘educação/formação’ e logo a seguir no ‘turismo’. A ‘educação/formação’ tornou-se entre nós um passaporte de esperança, não só como capacitação para o emprego e a dignificação social numa sociedade que ainda recorda a humilhação do analfabetismo, mas também como necessidade de decifrar uma realidade cada vez mais complexa, para a interpretação da qual as pessoas sentem faltar-lhes ferramentas. O ‘turismo’, que tem comunicado bem o seu sucesso, tornou-se importante para a auto-estima do país no seu conjunto, além de ter assumido um papel de ‘bóia de salvação’ da crise, mostrando capacidade de estender raízes profundas na sociedade civil e na sua diversidade (gráfico 1).


Gráfico 1 Sectores em que o país deve investir

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Fonte: Barómetro da Sustentabilidade

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Do Planeamento Colaborativo: artefacto ou artifício?

Autor: Sebastião M.F. Bhatt

A perceção quotidiana de uma crescente proximidade interpessoal permitida ao longo das últimas décadas pelas novas tecnologias de informação e comunicação tem contrastado com a persistente e generalizada ideia de afastamento dos cidadãos face às suas instituições e políticas, não obstante os processos de democratização e modernização empreendidos. Neste cenário, o gradual acentuar da crise económica dos estados e os seus efeitos têm interpelado o sector das políticas públicas e respetivos instrumentos para a construção e afirmação de um novo paradigma de políticas e de planeamento visando a abertura, o empoderamento e a participação cidadã.

Com efeito, a evolução da crise da dívida soberana e o acentuar das desigualdades socioeconómicas evidenciados em relatórios internacionais revelaram, por um lado, a indisponibilidade do Estado e do seu planeamento em continuar a responder aos desafios territoriais isoladamente e, por outro, a necessidade de recorrer a parcerias e a redes de cooperação como modelo administrativo eficiente de organização processual e de suprimento das suas limitações. Assim, as décadas de 80 e 90 do século XX apontaram de forma progressiva – numa evolução diferenciada ao nível territorial e cultural – para uma alteração do modo tradicionalista e formalista do exercício de governo e do planeamento, com o assumir de uma nova agenda participativa visando a mobilização e implicação de agentes privados e das comunidades locais num trabalho conjunto.

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© 2012 Scott Adams, Inc. Fonte: dilbert.com

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Estágio Ciência Viva no Laboratório 2016 –“Alterações climáticas e sociedade”- resumo da semana.

Texto escrito pelos participantes do estágio “Alterações climáticas e sociedade”, dinamizado no ICS-ULisboa no âmbito do programa Ciência Viva no Laboratório. 

Autores: David Silva, Rita Bernardo, Manuel Madeira, Sara Martins, Sofia Barata.

Na semana de 18 a 22 de Julho de 2016 decorreu, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, um estágio no âmbito do programa Ciência Viva no Laboratório designado de “Alterações climáticas e a sociedade”. Este estágio teve como objetivo a análise da temática das alterações climáticas e a sua vertente sociológica.

No primeiro dia do estágio foi apresentado o programa das atividades que iriam decorrer, assim como outras informações relevantes. Esta manhã contou com a presença da organizadora do estágio, Ana Delicado, e uma das monitoras que iria estar connosco, Mónica Truninger. Na parte da tarde, fomos orientados pela Mónica na realização de um Focus Group. Selecionámos algumas perguntas às quais achámos importante encontrar respostas ao longo da semana: “Como podemos diminuir as emissões de CO2?”; “ Como será o planeta em 2100?”; “Serão os veículos eléctricos uma alternativa sustentável?”; “Com as mudanças no quotidiano podemos inverter o ciclo?”; “ O que é que os governos estão a fazer em relação às alterações climáticas?”.

No segundo dia, pela parte da manhã, contámos com a presença do investigador João Mourato, que nos propôs a realização de um powerpoint em que incluíssemos algumas fotos da costa portuguesa que demonstrassem o efeito negativo das alterações climáticas nas praias e também o papel das imagens na transmissão de mensagens e informação. Durante a tarde, com a companhia da investigadora Ana Horta, procuramos perceber se as notícias sobre as alterações climáticas eram sensacionalistas ou objectivas. Chegámos à conclusão que, em relação a este tema, os dois jornais analisados (Correio da Manhã e Jornal de Notícias) não são sensacionalistas. Continuar a ler

Blogue ATS – balanço dos primeiros seis meses de um blogue académico

Autores: Jussara Rowland, Ana Delicado, João Ferrão e Simone Tulumello

No final de 2015, o grupo de investigação Ambiente Território e Sociedade decidiu criar um blogue para contribuir para uma maior divulgação do grupo fora do ICS-ULisboa e ser utilizado como instrumento de diálogo ciência-sociedade e teste de ideias inovadoras.

A sua finalidade não é reproduzir informação sobre a investigação dos membros do grupo, que pode ser acedida noutras plataformas, mas funcionar como um blogue “quase-académico”, um espaço para discutir questões na fronteira entre o mundo académico e a sociedade e debater novas ideias em termos amplos.

Todos os membros do grupo integraram o projeto, incluindo os doutorandos, sendo que um dos principais objetivos da iniciativa é refletir a pluralidade de perspetivas do grupo, em termos quer de temáticas de estudo quer de percursos de investigação, de forma a incentivar uma maior experiência de todos os envolvidos na redação de textos para o público em geral.

Os posts, relativamente curtos, escritos em português e/ou inglês, devem ser apelativos, integrar preferencialmente imagens e ser redigidos numa linguagem acessível a um público generalista. Entre os temas inicialmente identificados para publicação contam-se: posts de disseminação sintética de resultados de investigação; repositórios de ideias (reflexões sobre temas inovadores que precisam de aprofundamento); temas provocatórios que podem não ter lugar na escrita académica tradicional; reflexões metodológicas e éticas; ligações entre a academia e a sociedade; difusão do conhecimento (acesso aberto e open source; sistemas de avaliação e de impacto) e recensões de livros e eventos. Apesar destas indicações iniciais, o blogue optou por não ter uma linha editorial demasiado rígida, estando aberta a contribuições com diferentes enfoques, estilos e perspetivas.

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Sustentabilidade demográfica: um tabú cultural?

Autor: Luís Balula

Entre 1346 e 1353, a Peste Negra dizimou cerca de metade da população da Europa. Desde aí, e apesar das diversas guerras, epidemias e fomes que ocorreram ao longo dos seis séculos seguintes, a população humana continuou sempre a crescer. Durante as três últimas gerações, no entanto, esse crescimento tornou-se exponencial. Sobretudo devido aos avanços da medicina e ao aumento da produtividade agrícola, entre outros factores, a partir de 1950 verificou-se uma aceleração massiva do crescimento populacional. Cerca de metade de todas as nações do mundo quadruplicaram a sua população desde 1950. E este enorme ritmo de crescimento traduziu-se também, inevitavelmente, numa aceleração da actividade humana e na transformação, em larga escala, do sistema Terra.

Recentemente, o Programa Internacional Biosfera-Geosfera calculou como esta “Grande Aceleração” se reflectiu em 24 tendências globais de crescimento, entre 1750 e 2000. Como se pode ver nos vários gráficos que exprimem essas tendências, 1950 marca o início do crescimento exponencial de variáveis tão diversas como o número de automóveis, o número de McDonalds, o número de barragens hidroelétricas, o turismo internacional, o consumo de água, de fertilizantes e de papel, entre outras. Subjacente a todas estas acelerações exponenciais, o crescimento populacional surge como a óbvia — e a única — variável independente.

O ESTRANHO FENÓMENO DO CRESCIMENTO EXPONENCIAL

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Fonte: International Geosphere-Biosphere Program (slide de Alan Atkisson)

Somos hoje cerca de 7,5 mil milhões, e segundo as últimas projecções das Nações Unidas, admitindo uma taxa de fertilidade média, a população mundial chegará aos 10 mil milhões em 2056, seis anos mais cedo do que o anteriormente projectado nas estimativas de 2013. E mantendo-se o actual ritmo de crescimento populacional, em 2100 seremos 16 mil milhões—valor que as estimativas científicas mais generosas indicam ser o limite máximo antes de esgotarmos a capacidade de carga do planeta (as estimativas menos generosas indicam 4 mil milhões).

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