Coração, Cabeça e Estômago

Autor: Luísa Schmidt

O título de célebre romance de Camilo Castelo Branco – ‘Coração, Cabeça e Estômago’ – serve bem de mote para o Barómetro da Sustentabilidade[1] cujos resultados foram apresentados no passado mês de Setembro.

Em termos muito sintéticos, destacam-se algumas dimensões presentes na sociedade portuguesa marcada na actualidade pela ressaca de uma crise ainda não resolvida e por fortes clivagens sociais, geográficas, culturais, geracionais… A parábola camiliana refracta-se e diverge mas não é contraditada.

O inquérito que enquadra o Barómetro arranca com um conjunto de questões gerais, pelas quais procuramos saber em que sectores económicos acham os portugueses que o país deveria investir no futuro próximo. É acima de tudo na ‘educação/formação’ e logo a seguir no ‘turismo’. A ‘educação/formação’ tornou-se entre nós um passaporte de esperança, não só como capacitação para o emprego e a dignificação social numa sociedade que ainda recorda a humilhação do analfabetismo, mas também como necessidade de decifrar uma realidade cada vez mais complexa, para a interpretação da qual as pessoas sentem faltar-lhes ferramentas. O ‘turismo’, que tem comunicado bem o seu sucesso, tornou-se importante para a auto-estima do país no seu conjunto, além de ter assumido um papel de ‘bóia de salvação’ da crise, mostrando capacidade de estender raízes profundas na sociedade civil e na sua diversidade (gráfico 1).


Gráfico 1 Sectores em que o país deve investir

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Fonte: Barómetro da Sustentabilidade

Mas os resultados também apontam para a existência de duas visões geracionais distintas, que se polarizam neste e noutros pontos do inquérito: para os mais velhos (e menos instruídos) continuam a ser importantes os sectores da ‘agricultura/pecuária’ e do ‘comércio’. Já a geração mais nova e mais escolarizada é explícita na valorização das ‘energias renováveis’, das ‘novas tecnologias/investigação’ e do ‘ambiente’. Esta é, afinal, também a geração mais marcada pela adesão aos valores ecológicos, que mais ouviu falar na palavra sustentabilidade e que apresenta níveis de preocupação mais elevados com o problema das alterações climáticas.

Como apontamento, importa ainda chamar a atenção para os sectores ‘Mar’ e ‘Florestas’: apesar de cruciais num país mais marinho do que terrestre e mais florestal do que agrícola, foram pouco referidos, o que indica eventual falha na eficácia da comunicação. E isto é surpreendente. Uma vez que a poluição do mar e acima de tudo os incêndios florestais (o inquérito foi aplicado ainda antes deste verão!) foram os problemas ambientais mais referidos e a requerer medidas eficazes (Gráfico2).


Gráfico 2 Preocupações ambientais prioritárias

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Fonte: Barómetro da Sustentabilidade

No que concerne ao tema das Políticas Públicas, não deixa sombra de dúvida a prioridade que toda a população portuguesa atribui às áreas sociais, nomeadamente a aposta na boa prestação de serviços (educação, saúde) e também na segurança pública (sobretudo mulheres, idosos e suburbanos). Podemos afirmar que o Estado social, que chegou tarde ao país, tornou-se e mantém-se um valor muito prezado. Este sublinhado é, aliás, fortemente consistente com o sentido do colectivo que os portugueses mostraram noutras áreas e que passam por valores como a solidariedade e a preocupação com as desigualdades sociais e territoriais ou com os salários justos (Gráfico 3).


Gráfico 3 Prioridades nas políticas públicas

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Fonte: Barómetro da Sustentabilidade

Passando ao tema da Sustentabilidade, a maior parte dos portugueses já ouviu falar sobre ela, sobretudo através dos media. Mas muito mais nas suas dimensões económica (sustentabilidade das contas!) e ambiental (sustentabilidade do planeta!), registando-se menor articulação à dimensão social (desigualdades, coesão) e sobretudo à dimensão de governança – que remete para a participação cívica (Gráfico 4). E, de facto, o associativismo e sobretudo o voluntariado continuam a ser pouco significativos entre nós e, existindo, concentram-se sobretudo nas áreas tradicionais do assistencialismo – ‘saúde e assistência social’ (Gráfico 5).


Gráfico 4 Já ouviu falar do termo sustentabilidade?

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Fonte: Barómetro da Sustentabilidade


Gráfico 5 Participação em organizações não lucrativas

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Fonte: Barómetro da Sustentabilidade 

Dir-se-ia que a participação cívica em Portugal está sobretudo organizada pelas práticas de dádiva e de partilha – o ‘bom coração’ -, e nas relações directas inter-pessoais, de proximidade, ligadas à família e à vizinhança, e que se vejam a produzir efeitos. Trata-se de uma atitude de generosidade muito importante em termos de coesão social, mas que de certo modo fecha os horizontes cívicos num campo limitado, desmobilizando um associativismo de objetivos mais exigentes de escala nacional ou global e um sentido do colectivo mais amplo. Esses limitados horizontes cívicos do sentido da participação são consistentes com o historicamente frágil registo da sociedade civil em Portugal.

Nas ações a favor do ambiente, os portugueses também fazem mais ações individuais e de âmbito doméstico ou caseiro (e.g. reciclagem, poupança de eletricidade), do que participam em ações coletivas a favor do ambiente (e.g. limpeza de florestas e áreas afetadas pelo lixo ou plantação de árvores) (Gráfico 6). Contudo, o marcador geracional mais uma vez conta: pessoas com mais escolaridade e escalões etários mais baixos parecem potenciar a participação, sobretudo em acções coletivas viradas para o bem comum.


Gráfico 6 Frequência de ações a favor do ambiente

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Fonte: Barómetro da Sustentabilidade

Quanto à questão do consumismo, depois dos anos eufóricos de promoção e adesão à sociedade de consumo em Portugal, as pessoas foram obrigadas a inverter esse sentido.

Vimos na dinâmica participativa que os portugueses são mobilizados pelo ‘bom coração’. Ora na questão do consumo são muito movidos pelo bom senso – a ‘cabeça – registando-se actualmente uma sensibilidade e uma atenção grande às questões de consumo. Identificámos uma relação semântica importante entre a palavra ‘sustentabilidade’ e ‘consumo responsável’ (Gráfico 7). De resto, os portugueses acreditam que, para aumentar o consumo responsável, é preciso promover a produção e o comércio de proximidade e apostar em mais informação, tanto através da rotulagem dos produtos como através de campanhas para ajudar à mudança dos padrões de consumo. Esta aposta maior na produção e no comércio de proximidade é reafirmada pela tendência clara para valorizar mais a produção nacional e local. E é consistente com a valorização das relações interpessoais directas de proximidade e com os respectivos vínculos de confiança e reciprocidade.

Gráfico 7 Dimensões cognitivas da sustentabilidade

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Fonte: Barómetro da Sustentabilidade

E com que perfis de consumo mais se identificam os portugueses? Destacaram-se os perfis de ‘consumidor-constrangido’ (dão importância à gestão de poupanças) e o de ‘consumidor livre-escolha’ (desejam ter ao seu dispor um leque variado de produtos para optar) – o que tem a ver com a autonomia da escolha e a importância de não se sentir excluído dos lugares e ocasiões de consumo, o que está ligado à auto-estima e autonomia pessoal. Por outro lado, há novos padrões emergentes nos perfis de consumidor -‘consumidor ético’, ‘consumidor identitário’ e ‘produtor-consumidor’- muito mais sensíveis aos processos de produção (Gráfico 8).


Gráfico 8 Perfil do consumidor português

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Fonte: Barómetro da Sustentabilidade 

Como resultado, verificámos que, com a crise e as restrições ao consumo, alguns grupos sociais mais escolarizados, num acto de bom senso, fizeram da necessidade virtude e passaram a consumir com mais critérios e qualidade. Contudo, para outros grupos sociais mais carenciados a crise produziu o célebre “efeito de túnel” – em que a falta de dinheiro destroçou todos os critérios de consumo – qualidade, rotulagem, etc. Como esse processo foi acompanhado pela fragilização do Estado social que a crise envolveu, retirou-se o patamar de solidez – de chão social – a estes grupos desfavorecidos e vitimados.

E o que mudou efectivamente com a crise? A esmagadora maioria dos portugueses alteraram as suas práticas de consumo e lazer, arrepiando caminho depois de anos de instigação ao consumo (só 30% declararam não o ter feito) (Gráfico 9). Primeiro de tudo, passaram a gastar menos dinheiro e a comprar mais barato. Mas a crise levou também um segmento de consumidores mais atentos a procurar mais informação e a preparar soluções de consumo final mais racionais (levar marmita para o emprego, práticas de autoprodução e de troca).


Gráfico 9 Mudança nas práticas de consumo com a crise

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Fonte: Barómetro da Sustentabilidade 

Já as atividades de lazer diminuíram acentuadamente, em especial as práticas que requerem custos financeiros adicionais (e.g., ida a restaurantes, espetáculos de vária ordem e frequência de ginásios). Em contrapartida, as atividades “sem custos”, de usufruto gratuito, resistiram e até aumentaram, como é o caso de passear em jardins públicos e espaços naturais ou fazer jardinagem/trabalhar numa horta. Os valores do ambiente e da natureza assumem, assim, uma valia suplementar num contexto em que passaram a desempenhar um papel compensatório no quotidiano dos cidadãos (Gráfico 10).


Gráfico 10 Mudança nas atividades de lazer decorrentes da crise

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Fonte: Barómetro da Sustentabilidade

Nesta curta síntese, resta-nos referir 3 perfis diferentes e coexistentes que se destacam. Por um lado, os mais jovens e mais escolarizados – a geração mais capacitada que o país alguma vez já teve, resultante da mudança extraordinária gerada pelo investimento na educação e na ciência iniciado em 1995. São eles que mais prezam o ambiente e a sustentabilidade e mais preparados estão para a mudança enquanto consumidores e cidadãos activos, se assim lhes derem oportunidade – ou seja, arejamento e espaço vital fora dos jogos viciados de manipulação e compadrios que têm contaminado o país.

Por outro lado, as mulheres revelaram em geral mais sensibilidade aos problemas da sustentabilidade e maior dinamismo e predisposição para a mudança no sentido das práticas sustentáveis e saudáveis. São elas que estão mais viradas à entreajuda, mesmo que ainda muito centradas no mundo doméstico e familiar.

Por fim, o que poderíamos designar como grupos sociais desfavorecidos que vivem num total ‘efeito de túnel’ – em situação de enormes dificuldades com a angústia da sobrevivência no quotidiano, em geral fortemente preocupados e pressionados (pelo emprego ou falta dele, pelos filhos menores ou idosos a cargo…); com rendimentos difíceis ou desempregados, sobretudo em meio urbano /grandes cidades e subúrbios que são lugares do território onde a lógica inter-pessoal e de proximidade é menos provável; e cujas vidas dependem de um Estado social (que não os pode deixar entregues à caridade).

Ao cabo deste trabalho, repegue-se no título do velho romance de Camilo – ‘Coração, Cabeça e Estômago’[2] – e no seu polígono de valores, que tanto pode ser desastroso na vida como uma lição para ela. Na verdade, a instigação ao consumismo de que primeiro os portugueses foram alvo (em finais de 80 e 90) e depois a péssima experiência da crise e das medidas de austeridade, deixaram a sociedade civil novamente confrontada com os seus valores mais fundos: no coração, na cabeça e no estômago.

No ‘coração’, nota-se a disposição para dar, da partilha, da entreajuda, do problema do próximo, de ver a ajuda a ajudar e manter nisso a relação ao próximo, mas essa proximidade também limita a sensibilidade a problemas de escala maior (mais nacional e global), onde se perde a inter-pessoalidade no anonimato da distância e dos grandes números.

Na ‘cabeça’, o bom senso profundo continua a dar sinal de vida e de saúde, mas nota-se que o efeito produzido pela escolaridade nas gerações mais novas precisa de ser continuado com uma muito maior exigência na informação e comunicação para a sociedade civil, de modo a minorar a desconfiada distância aos processos participativos.

No ‘estômago’ – dir-se-ia que, depois de terem sido empanturrados quase à força pelo consumismo (relembre-se o marketing agressivo e os créditos baratos), para depois terem sido também à força obrigados à ‘dieta’ austeritária, encontram-se hoje na procura de um equilíbrio regido por melhor informação e prudência, mas evitando excluir-se socialmente das práticas colectivas de consumo. Ao mesmo tempo, as valias ambientais foram de certo modo (re)descobertas como bens colectivos e capazes de restaurar vida em comum.

Eis uma oportunidade para promover novos valores de sustentabilidade, económicos, ambientais e sociais na articulação entre políticas públicas, boa informação e a perspectiva de uma participação cívica mais activa, ou seja, mais confiante, mais livre de decepções e do receio de conduzir aos mesmos jogos viciados e aos seus ganhadores do costume.

[1] O Barómetro da Sustentabilidade tem como objectivo contribuir para a sustentabilidade social, económica e ambiental do país. A sua operacionalização consiste num inquérito por questionário aplicado direta e pessoalmente a uma amostra representativa da população portuguesa – I Grande Inquérito sobre Sustentabilidade em Portugal – que será posteriormente replicado com abordagens semestrais ou anuais mais focadas. Trata-se de um inquérito pioneiro que explora a sensibilidade, os valores, o conhecimento e as representações sociais dos portugueses sobre Sustentabilidade.

[2] Coração, cabeça e estômago é um livro da fase mais “realista” (e menos romântica) de Camilo Castelo Branco baseado nas memórias de um suposto ‘Silvestre’ que terá deixado a Camilo os manuscritos de um romance autobiográfico para ensinar à juventude que, para viver bem e ter a sabedoria, é muito importante atravessar 3 fases na vida. A 1ª fase é a do coração em que se confronta o bem e o mal mostrando como a sociedade constrói estereótipos e julga as pessoas por aspectos económicos, enganando-se as mais das vezes. A 2ª fase é a da cabeça em que se aprende como a ambição desmedida perde o Homem. A 3ª fase é a do estômago em que se deve procurar a paz e, para isso, é preciso ‘regular o estômago’, ou seja, vencer na vida sem demasiada ambição e assentar, eventualmente casando mas de preferência sem ser por amor para não quebrar uma quietude sustentável…


Luísa Schmidt é Investigadora Principal do Instituto de Ciências Sociais da ULisboa e coordenadora do Observa.

 

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