A “possibilidade” de umas ciências sociais “úteis”

Este é o segundo post da série “A utilidade das Ciência Sociais

Por Simone Tulumello

Este texto é uma resposta ao estimulante post de Andy Inch, no qual ele questiona a “utilidade” das ciências sociais. A minha intenção é sugerir uma possível pista para essa utilidade – uma utilidade, diga-se desde já, radicalmente oposta às dinâmicas da academia criticadas por Andy. Para tal, vou partilhar algumas reflexões sobre os conceitos de “probabilidade” e de “possibilidade”, e sobre o seu significado em relação à construção do futuro – reflexões que provêm, embora de forma bastante livre, do meu interesse sobre o desenvolvimento (e “subdesenvolvimento”) do Mezzogiorno de Itália.

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“Por aí é o caminho”. Autor: Simone Tulumello (2012).

Política científica e futuro

Partilho muitas das preocupações do Andy sobre as tendências atuais da investigação social, decorrentes da rápida transformação da academia no sentido da mercantilização do saber, da rejeição dos “tempos lentos” (na procura de resultados imediatos e “sensacionais”) e da promoção da competitividade em detrimento da cooperação: o modelo que Andy chama, através de uma astuta metáfora, “extrativo”. Preocupa-me o modelo extrativo enquanto membro da comunidade científica, “objeto” (e, ao mesmo tempo, sujeito) da extração, inclusive pelos efeitos dessa extração sobre a nossa saúde!

Mas preocupa-me ainda mais o significado que a precarização, a mercantilização e a competitividade estão a ter, e irão ter, para a qualidade do que fazemos como comunidade académica – ao ser-nos pedido sempre mais chegamos a ter de produzir pior, sendo o dia não extensível além das 24 horas. Numa academia obcecada com o presente (por exemplo, com a constante medição do que produzimos agora), preocupa-me a crescente incapacidade que temos de olhar para o futuro – e de contribuir para um futuro melhor.

Sem dúvida, precisamos hoje de nos mobilizar para contrariar a mercantilização do saber e da academia – e é por isso que lançámos, com a Rede de Investigadores Contra a Precariedade Cientifica, o Manifesto para uma Ciência com Futuro e Direitos para Todos.

Ciências sociais e possibilidade

Para além da política científica (embora em estreita conexão com ela), há a questão da forma como as ciências sociais e os cientistas sociais pensam o futuro.

Recentemente, a Fundação Francisco Manuel dos Santos convidou Philip Tetlock, um dos maiores peritos mundiais na ciência das previsões. Prever não significa, obviamente, definir exatamente o que vai acontecer (essa é a “ciência” de videntes), mas sim medir a probabilidade que cenários diferentes têm de se concretizar. Porém, o esforço para “melhorar” a ciência das previsões vai no sentido de canalizar a atenção para os cenários mais prováveis – isto é, sem definir o que vai acontecer, aproximar-se o mais possível dessa definição. Prever significa procurar regularidades e padrões que permitam ler melhor no presente as tendências futuras.

Este é um desafio de importância fundamental para as ciências, que domina as políticas científicas e as agendas de investimento – o próprio Tetlock tem beneficiado de grandes financiamentos pelo governo americano, que vê na ciência das previsões um recurso geopolítico fundamental.

Mas ao afinarmos a ciência das previsões arriscamo-nos a marginalizar o que, sendo menos provável, é, apesar de tudo, possível. E o possível é, muitas vezes, também o expectável. Aqui ajuda-nos o economista Albert Hirschman e a sua “propensão para a esperança”.

O percurso de Hirschman, economista atípico com uma paixão pela multidisciplinaridade e pouco amante de ortodoxias, desenvolveu-se na fronteira entre a academia e a prática, tendo, durante muitos anos, sido consultor económico na América Latina. Embora sendo um “ocidental” que achava apropriado transportar o modelo capitalista e a democracia liberal do norte para o sul do mundo, Hirschman acreditava na necessidade de olhar para as dimensões locais nos percursos para o desenvolvimento.

Hirschman reconhecia que a “mudança” é sempre improvável – sendo as forças de conservação quase sempre mais poderosas que as forças de transformação – sugerindo, então, o “possibilismo” como instrumento concetual e prático. O risco da ênfase no provável é o de marginalizar as forças de mudança que existem; pelo contrário, a ênfase no possível permite dar força às dinâmicas transformativas em ação.

A ênfase no possível, no caso do desenvolvimento local, implica uma mudança radical de atitude por parte das ciências sociais. As ciências do desenvolvimento tradicionais olham para as dinâmicas (económicas, políticas e sociais) locais com o objetivo de enfatizar as razões do “subdesenvolvimento” e acabam por concluir que o desenvolvimento é “impossível” se não acontecerem transformações culturais radicais, que são, porém, muito improváveis – é o caso das conclusões que Edward Banfield e Robert Putnam retiram do seu estudo sobre o Sul da Itália.

Uma ciência do possibilismo, porém, procura os momentos nos quais a mudança, por improvável que fosse, aconteceu e tenta perceber as suas causas, e também os seus limites, para construir os instrumentos para relançá-la e reforçá-la – é o caso do trabalho de Alberto Tulumello sobre a convergência económica no Sul da Itália nos anos 1990.

“The future is radically open”

Do meu ponto de vista, esboçar futuros múltiplos é uma tentativa de deixar a porta aberta para o político e o contingente. A minha intenção não é assegurar que um futuro aparecerá automática e magicamente a partir de fatores tecnológicos e ecológicos exteriores. Pelo contrário, é insistir que a situação a que chegarmos será o resultado da luta política (Simon Frase, Four Futures, tradução minha).

Olhar o futuro através da lente da possibilidade é, para mim, um projeto político, sobretudo numa época em que extrapolar o futuro provável a partir das tendências presentes significa render-nos ao desconforto e ao pessimismo – o que nos pode, provavelmente, conduzir ao percurso que passa pela explosão das desigualdades e dos racismos, pela tomada de posse de Donald Trump, pelo buraco negro de austeridade e pelo nacionalismo em que a Europa parece precipitar-se.

Mas é, ao mesmo tempo, um projeto académico – eis a razão de ter escolhido como imagem deste texto a fotografia que há uns anos propus para representar o trabalho do grupo de investigação que dá vida a este blogue. Este projeto é uma forma de viver a dificuldade presente da vida académica numa perspetiva de utilidade, uma utilidade ao mesmo tempo individual—trabalhar para melhores condições de vida na academia—e coletiva—trabalhar para uma academia capaz de contribuir para a mudança social. É um percurso entre muitos, obviamente, pois só através de visões diferentes a academia pode tornar-se um lugar de “progresso” – e espero ouvir, neste blogue e fora dele, críticas ao conceito de possibilidade aqui defendido.

É um percurso, enfim, de abertura, que se contrapõe ao fechamento, seja ele da academia para com a sociedade, ou das tendências dominantes do pensamento às ideias radicais. Neil Smith, extraordinário pensador radical que nos deixou prematuramente em 2012, quis dedicar a sua última palestra à abertura e ao futuro, intitulada “the future is radically open”, ou o futuro está radicalmente em aberto. O que vem a seguir é uma questão de luta política. E a academia tem o dever de ser útil, por exemplo, olhando para o possível.



Simone Tulumello é investigador de pós-doutoramento no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

Este artigo faz parte da Série “A utilidade das ciências sociais”

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