O valor das ciências sociais: riscos, preconceitos e desafios (Parte I)

Este é o quinto post da série “A utilidade das Ciência Sociais

Por João Morais Mourato

Há algum tempo atrás, o Andy Inch relembrou, neste blogue, uma questão fundamental, infelizmente pouco debatida: qual a utilidade das ciências sociais? Em resposta, o Simone Tullumelo, perante a atual mercantilização do saber e da academia, advogou o desenvolvimento de uma ciência social útil; Roberto Falanga sublinhou o efeito nefasto da atual “projectificação” na atividade científica; e Marco Allegra salientou a necessidade de questionar os próprios fundamentos epistemológicos universalistas que regem as ciências sociais contemporâneas.

Acumulam-se, de facto, denúncias de uma crise nas ciências sociais. Uma crise identitária e de relevância social que parece mobilizar pouco uma comunidade de prática que se encontra refém de uma lógica hegemónica de produtividade científica com questionável valor-acrescentado no impacte das ciências sociais. Em suma, sinto-me, por vezes, parte de uma dinâmica inquestionada de busca do que Mathias Biswanger designou de “excellence by nonsense.

No meu contributo para esta série em discussão neste blogue, defendo que, enquanto cientistas sociais, precisamos de refletir sobre o que investigamos, para quê e para quem. Primeiro, contudo, quero frisar porque é, a meu ver, particularmente urgente este debate.

Como sublinhou o Luís Balula, o ressurgimento massivo do conhecimento alternativo e a consagração eleitoral nos Estados Unidos da política da pós-verdade veio expor a fragilidade com que o conhecimento científico sucumbe ao assalto mediático doutrinador de massas.

“Scientia potentia est”, afirmou Hobbes no seu Leviatã de 1668. “Conhecimento é Poder”. É hoje inegável a consolidação atual de estratégicas concertadas de legitimação, não só ao acesso, mas também ao exercício do Poder com base na constituição de bases de conhecimento alternativo, no que George Monbiot denominou de “indústria profissional da negação.

verdade
Verdade e pós-verdade. Autor: Martin Shovel. Fonte: The Norwich Radical

Será este cenário reversível? A sê-lo, será por via de um rígido quadro regulador e certificador da informação circulada? As implicações de tal tornam este cenário em algo, a meu ver, estruturalmente impossível.

É, assim, atualmente inevitável que factos e factos alternativos, conhecimento e conhecimento alternativo, coexistam no universo de informação circulada globalmente, alimentando o que o prémio Nobel da medicina Peter Doherty designou como as “guerras do conhecimento.

Alguns cientistas travam já abertamente este combate como, por exemplo, face ao ceticismo associado à questão das alterações climáticas. Esta é, contudo, uma batalha extremamente desleal. A lei de Brandolini sumaria, sarcástica e humoristicamente, a principal dificuldade a enfrentar, já que a energia necessária para refutar factos e conhecimento alternativo é de uma magnitude muito superior à energia utilizada na sua criação.

O que podem ou devem os cientistas sociais fazer?

A resposta a esta questão está, a meu ver, fortemente condicionada por dois tipos de preconceito: um exógeno (A)  e outro endógeno (B).

(A) O preconceito exógeno

O ponto de partida é reconfortante: a Academia e os Académicos, aparentemente, retêm uma significativa confiança por parte do público enquanto área e grupo profissional alargado, respetivamente. Contudo, Gudmund Hernes, no primeiro World Social Science Report, explica como, no diagnóstico associado à crise financeira e económica global de 2007-08, “os cientistas sociais tiveram um papel instrumental na construção, ou interpretação errónea, quer dos ‘instrumentos’ tóxicos quer das instituições defeituosas que suportavam o sistema financeiro”. Neste contexto, Hernes salientou o papel dos economistas, que “não só não entenderam as implicações do que conceptualizaram como não monitorizaram a implementação das suas propostas”. Cumulativamente, a atual propagação mediática—quer de informação falsa ou incompleta, apresentada como sendo científica, quer a denúncia errónea e descontextualizada—da inutilidade de certa ciência, induz inevitavelmente, aos olhos do cidadão, uma percepção desvalorizadora do valor da ciência.

Mas não só. Ao nível do poder político existe, e subsiste, um preconceito para com as ciências sociais. Veja-se, como exemplo, o caso recente da maioria Republicana no congresso Americano que procurou, no contexto da reprogramação financeira do orçamento da National Science Foundation (NSF), eliminar o programa de ciência política, advogando até que tal deveria ser extensível a todas as ciências sociais pois “estas disciplinas nunca poderão atingir a objetividade das ciências naturais”.

Mas estão as ciências ditas exatas livres de semelhantes julgamentos arbitrários? Poucos tópicos geram uma guerra do conhecimento como o aquecimento global e as alterações climáticas. Por um lado, tem-se vindo a consolidar na comunidade científica uma posição comum sobre a existência e as características das mesmas. Por outro lado, entre 2008 e 2011, desceu de 47% para 39% a percentagem de norte-americanos que acredita que a  maioria dos cientistas crê nas alterações climáticas”. Mais, com 81% dos Democratas face a 42% dos Republicanos a acreditarem na existência de provas concretas do aquecimento global do nosso planeta, a “correlação do valor atribuído à ciência e identificação política é evidente”.

O surgimento deste ceticismo militante e politizado tem sido analisado em maior detalhe no contexto dos Estados Unidos, não havendo informação disponível equivalente que permita determinar quão representativo será este retrato da situação a nível global. Mas há um aviso implícito incontornável e uma questão que se levanta: poderão as ciências sociais dar-se ao luxo de permanecerem como espectadores privilegiados na guerra pelo domínio da opinião pública face aos principais desafios societais que enfrentamos?

 (B) O preconceito endógeno

Science Wars and True Science. Se, na perspetiva exógena, a afirmação das ciências sociais não deixa antever tarefa fácil, numa leitura endógena, o caso não é muito melhor. Refiro-me, claro, ao preconceito de carácter epistemológico que pauta a relação entre as ciências ditas exatas ou naturais e as sociais e humanidades, plasmado, por exemplo, nos textos de Alan Sokal, Richard Lewotin, ou Gary Cutting. Independentemente da legítima contra-argumentação que textos desta natureza suscitam, e dos limites à crítica que fazem, há que reconhecer algumas das fragilidades expostas. A crítica progressista de Bent Flyvbjerg é, neste contexto, seminal ao ilustrar como as ciências sociais se auto-constringem ao procurarem emular de forma acrítica os fundamentos epistemológicos das ciências naturais.

Excelência? …em quê? Uma segunda dimensão do preconceito endógeno emerge do debate (ou sua ausência!) do propósito da atividade científica. Em 1963, Bernard Forscher, com um curto texto na Science, augurava que a academia se tornaria “numa indústria de fazedores de tijolos”. Na sua metáfora Forscher entendia que a academia fixava crescentemente a sua atividade na construção de peças de conhecimento, os tijolos, sem fomentar contudo a sua agregação num edifício explicativo holístico dos fenómenos complexos que abordava. Forscher temia que o fazer de tijolos se tornasse um fim em si mesmo.

Cinquenta anos volvidos, Hoffman confirma esta tendência inexorável em que a especialização e compartimentação do saber, ao invés da sua “generalização”, é o sinal do rigor académico. Sublinhe-se que não se defende aqui um argumento “anti-tijolo”. Questiona-se sim se a atividade científica deve ficar limitada à sua fase de produção. Como o coloca Hoffman, “somos encorajados a construir tijolos que são utilizados, ou melhor, citados por outros fazedores de tijolos”, e largamente ignoramos, voluntária ou involuntariamente, uma pergunta fundamental e tão raras vezes debatida entre nós: “que impacto têm, de facto, estes tijolos na mudança do mundo real?”

Em 1963, Forscher sublinhava “o imperativo de fazer chegar o conhecimento científico ao grande público, decisores e responsáveis pela elaboração de políticas públicas, no fundo, as pessoas que lhe podem dar uso”. Meia década depois, o problema mantém-se…. Retomando as palavras de Andy Inch “preocupa-me que as nossas práticas se assemelham mais a um isolamento das complexidades do mundo ao invés de uma tentativa séria de procurar determinar como poderemos ter um papel em mudá-lo para melhor”.

Porém, a verdade é que muitos académicos abraçam fervorosamente o posicionamento isolacionista da academia, rejeitando tudo o que, na sua perspectiva, constitui uma “distração do nosso verdadeiro trabalho, uma perda de tempo anti-intelectual”, como Hoffmann identificou. “Fazer avançar a ciência!” é o seu leitmotiv de eleição. Russell Jacoby, no seu livro “Os últimos intelectuais” de 1987, denunciava já a forma como a crescente insularidade da academia se metamorfoseava numa espécie de imperialismo endogâmico de valores crescentemente questionáveis. Estas diferentes visões sobre o que deve ser o papel da ciência e a que tipos de impactos devem almejar são o fundamento da segunda dimensão do preconceito endógeno que condiciona, a meu ver, as ciências sociais.

Três desafios para as ciências sociais no século XXI

  1. O desafio epistemológico

Vivemos a nível mundial um período não de crise, mas de confluência de crises que se reforçam mutuamente. Estes problemas perversos, colocam toda uma nova pressão sobre as ciências sociais num mundo que se tornou “demasiado grande para se conhecer”. Como sintetizaria Gudmund Hernes, urge desenvolver uma “investigação integrada em que as humanidades e as ciências naturais e sociais abordam conjuntamente os fenómenos naturais, processos sociais, arquiteturas institucionais, interpretações culturais, fundamentos éticos, etc.”. Em suma, emerge o apelo a uma ciência social que é problem-oriented e não exclusivamente de base disciplinar.

Este apelo é tudo menos inovador. Desde o cunhar do termo transdisciplinaridade por Jean Piaget nos anos 70 do século XX, que a sistematização do debate sobre o inquérito científico para além das fronteiras disciplinares se tem consolidado. Cinco décadas volvidas, a pós-disciplinaridade tornou-se incontornável face à natureza dos problemas complexos acima referidos, cuja análise crítica esgota a capacidade de abordagens de natureza exclusivamente disciplinar. Sublinho, contudo, para evitar equívocos, que um investimento numa lógica pós-disciplinar não pode ser feito à custa do anular das abordagens disciplinares. A existência da primeira não implica o desaparecimento das segundas.

2. O desafio identitário

John Brewer, no que designa por “ciência social pública“, identifica um segundo desafio fundamental: a “colaboração com o governo central e local, as ONGs e a sociedade civil no que é investigado, na forma como é investigado e no que é proposto resultar dessa investigação”. É de co-criação e co-produção de conhecimento que fala, como forma interativa de diminuir a distância entre academia e os problemas do mundo real.

E, sobre o papel do cientista social no contexto desta ciência social pública, Brewer é peremptório: “Se esperamos que a sociedade faça opções inteligentes, então aqueles que criam conhecimento devem encontrar formas de o projetar para além da torre de marfim académica”, de passar da interpretação ao engajamento, da teoria à prática, da academia aos seus públicos.

3. O desafio operativo

O Relatório do Conselho Científico das Ciências Sociais e das Humanidades (CCCSH) de 2011, albergava o título “Mais excelência, maior impacte”. Ao iniciar a sua leitura, duvidei de antemão da correlação que o mesmo implicava. Em particular por, após uma busca ao documento, ter visto que a referência mais frequente a impactes se prendia com a criação de valor bibliométrico. Contudo, uma leitura mais atenta revelava um conjunto de recomendações que plasmavam os fundamentos da referida ciência social pública, advogando a promoção de “formas de estímulo à apropriação social dos resultados de investigação”. Estas formas não são definidas, nem se indica como medir essa apropriação social, mas este é um ponto fundamental. Contudo a principal mensagem que retive foi a defesa explícita do pluralismo na atividade científica:

Toda a ciência tem a sua visão “mainstream” e as ciências sociais e humanidades não são exceção. No entanto, por vezes, o poder da visão “mainstream” torna-se de tal forma dominante que pode levar a uma redução significativa do pluralismo, ao estiolar das ideias inovadoras e ao bloqueio da emergência de novos paradigmas, emergência essa que é essencial para o progresso científico.

Este raciocínio pode muito bem ser utilizado para refletir sobre qual o impacte que a nossa atividade enquanto cientistas sociais tem, sobre que tipo de valores a orientam atualmente e sobre que valor, de facto, produz. No fundo, o que quero sublinhar é que debatemos muito pouco o porque fazemos o que fazemos e para que o fazemos. Em suma: o impacte do que fazemos. A nossa atenção parece, hoje em dia, desequilibradamente centrada no quanto fazemos e quanto financiamento angariamos…. Na segunda parte deste artigo irei refletir precisamente sobre as formas atualmente predominantes de determinar o valor do cientista social.


João Morais Mourato é investigador de pós-doutoramento no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Este artigo faz parte da Série “A utilidade das ciências sociais”

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