Fazer pesquisa num contexto de partido dominante: o caso de Moçambique

Por Edson Cortez

Neste pequeno artigo pretendo dar a conhecer as vicissitudes inerentes a conduzir investigação sobre a economia política de Moçambique e assuntos similares num ambiente em que os responsáveis por fontes escritas e orais têm receio de prestar declarações ou fornecer documentos que sejam fulcrais para que o investigador obtenha resposta às suas questões de pesquisa.

Mozambique_Maputo_Macamo
Maputo, capital e maior cidade de Moçambique. Fonte: Wikipédia

Moçambique é uma democracia de partido dominante, onde a Frente de Libertação de Moçambique—FRELIMO detém o controlo sobre o Estado, a economia, os recursos e parte da sociedade civil. Segundo o estudo “Os custos da corrupção para a economia moçambicana“,

Neste tipo de economia política, as elites dominantes que ocupam posições-chave no partido, na administração pública, militar e económica possuem uma tendência de manter o poder através da ‘reciclagem’, entre posições no partido, governo, instituições do Estado e parlamento, bem como na criação de ‘arranjos políticos’ no seio dos vários segmentos das elites governantes. Estas elites podem ser consideradas como sendo agentes que estão para se servirem a si próprios e que consolidam o poder organizando grupos de clientes, oferecendo-lhes determinados benefícios (financeiros, organizacionais, económicos, etc.) e acesso aos recursos em troca do seu apoio.

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As ciências sociais como virtuosismo político e social: a epistemologia de Bent Flyvbjerg

Este é o quarto post da série “A utilidade das Ciência Sociais

Por Marco Allegra

Qual é a utilidade das ciências sociais? Qual o seu impacto na sociedade? E quais as opções (epistemológicas, metodológicas, políticas) disponíveis para o investigador maximizar este impacto – mantendo, ao mesmo tempo,  autonomia e a independência que muitos de nós associamos ao estatuto da ciência? Estas são algumas das perguntas essenciais  subjacentes ao recente post de Andy Inch neste blogue – seguido de um contributo de Simone Tulumello sobre “a ciência do possibilismo”.

Tive a oportunidade adicional de refletir sobre este tema durante o último seminário do nosso grupo de investigação. O debate que seguiu a apresentação sobre as metodologias quantitativas transformou-se, de facto, numa discussão sobre o processo de construção dos dados, a relação entre dados qualitativos e quantitativos, e as possibilidades de integração destes no desenho da pesquisa.

Neste post gostaria de continuar esta conversa encaixando-a numa perspetiva mais alargada – num discurso sobre os fundamentos epistemológicos das ciências sociais, a epistemologia sendo “o estudo do conhecimento e das crenças justificadas” e, mais em geral, “a criação e a disseminação do conhecimento em áreas de investigação específicas” (EpistemologyStanford Encyclopedia of Philosophy) – para depois voltar às questões levantadas por Andy descrevendo a proposta epistemológica de Bent Flyvbjerg sobre as ciências sociais como virtuosismo político e social. Continuar a ler