Um desafio científico: o papel das redes sociais no ativismo ambiental

Autor: Sónia Cardoso

No Verão de 2006, frases como A global warning, By far the most terrifying film you will ever see e The scariest film this Summer criaram o burburinho necessário para encher milhares de salas de cinemas em todo o mundo. O sucesso do documentário de Al Gore “Uma Verdade Inconveniente” não pode ser desassociado do marketing feroz que as frases acima ilustram. Contudo, o próprio filme fez uso de conceitos e teorias bem difundidos na área das ciências sociais para tornar eficaz a sua mensagem. Inegavelmente, o documentário determinou um ponto de viragem na opinião pública acerca das questões ambientais: apenas 2 meses após o lançamento do documentário as contribuições dos americanos para as compensações de carbono aumentaram 50% e em 2007 Al Gore recebeu o Prémio Nobel da Paz. Para além disso, nesse mesmo ano um inquérito conjunto da Nielsen Company e da Universidade de Oxford revelou que 3 em cada 4 pessoas que tinham assistido ao filme mudaram os seus hábitos e 95% admitiram ter ficado mais conscientes acerca da problemática das alterações climáticas.

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Quando 1+1>2: a problemática da interdisciplinaridade nos estudos sobre questões ambientais

As questões ambientais são reconhecidamente complexas, levando à necessidade de trazer para este domínio disciplinas de diferentes campos do saber de forma a garantir uma visão holística e proporcionar novas soluções para estas problemáticas. Neste contexto, a interdisciplinaridade é um importante caminho a seguir. O reconhecimento de uma abordagem interdisciplinar nas questões ambientais tem cerca de 4 décadas. A conferência de Estocolmo (1972), marco essencial nas políticas de proteção ambiental, e mais tarde a conferência de Tbilisi (1976), a primeira conferência sobre educação ambiental, chamam a atenção para a necessidade de acionar os diferentes saberes no que toca à proteção do ambiente.

Embora se reconheça a importância de combinar diferentes disciplinas no sentido de encontrar as respostas mais adequadas às questões ambientais esta não é uma tarefa fácil. A dificuldade começa, desde logo, na definição dos conceitos. Muitas vezes o termo interdisciplinaridade é utilizado de forma indiferenciada, juntamente com conceitos como multidisciplinariedade, transdisciplinaridade ou pluridisciplinaridade. Neste sentido, qualquer tentativa de abordar este tema terá de começar por esclarecer as diferenças entre eles.

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Moçambique: insustentável é a guerra (5)

(5) Poderes e futuros

Autor: Paulo Granjo

Em finais de 2015, vi o presidente Nyusi declarar na televisão que iriam terminar imediatamente os assaltos policiais a sedes da RENAMO, em busca de armas. No dia seguinte, vi um mero comandante provincial da polícia afirmar, ao mesmo canal moçambicano, que na “sua” província as ações continuariam até ao total desarmamento.

Esta contradição quase inacreditável, tendo em conta quer as competências constitucionais do Presidente da República, quer a praxis do seu exercício, constitui um eloquente signo de uma situação que é consensual entre os mais diversos observadores: ao contrário das anteriores transições presidenciais, ao atual Presidente tem sido sonegado o pleno exercício do seu poder, em particular no que diz respeito à obediência das forças militarizadas e à resolução da crise político-militar.

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Moçambique: insustentável é a guerra (4)

(4) Rotação de poder e crise

Autor: Paulo Granjo

A anterior mudança de Presidente da República tornou clara a importância crítica que a detenção do topo do poder político assume para os interesses económicos dos grupos componentes da elite[1]. As grandes estrelas empresariais do tempo do presidente Joaquim Chissano foram marginalizadas e substituídas, havendo queixas públicas por parte de membros influentes da elite de que o presidente Guebuza monopolizava em si e na sua entourage mais próxima o acesso aos melhores negócios.

Seria bastante compreensível se, sendo por sua vez substituído, este último procurasse evitar que o mesmo viesse a acontecer a si e aos seus.

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Moçambique: insustentável é a guerra (3)

(3) Poder e riqueza

Autor: Paulo Granjo

Marx afirmou, de forma algo panfletária e metafórica, que o Estado é o Conselho de Administração Delegado da burguesia. Na verdade, a realidade moçambicana – tal como aliás ocorre noutros países – ultrapassa a sua imaginação e as visões clássicas acerca do capitalismo.

Podemos dizer que o poder político é diretamente ocupado pelas elites económicas, que por sua vez o são porque, precisamente, foram e continuam a ser elites políticas.

Por outras palavras, neste país pobre o acesso à riqueza económica em larga escala – seja através da captação de recursos públicos, seja através do acesso aos negócios mais rentáveis – depende de se deter o Estado, de se controlar as suas decisões e as negociações estratégicas com entidades internacionais ou, pelo menos, implica integrar as redes político-económicas que têm como fulcro quem detém o Estado.
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Moçambique: insustentável é a guerra (2)

Autor: Paulo Granjo

(2) Uma economia dependente e “auto-insustentável”

A economia moçambicana, durante anos apresentada pelo FMI e pelo Banco Mundial como um exemplo de sucesso, assenta ao longo dos últimos 24 anos em bases que tornam estatísticas como o PIB ainda mais enganadoras do que é hábito.

Com reduzida atividade produtiva, à exceção de um setor primário largamente familiar e de algumas grandes empresas intensivas em capital estrangeiro, a vida económica monetarizada e os florescentes comércio e serviços citadinos tornam-se viáveis devido à recirculação do permanente caudal de meios financeiros vindos do exterior.

Para se ter uma ideia, a comparticipação direta de governos estrangeiros no orçamento de estado, que com a crise na Europa e um aumento das receitas fiscais se situa agora na casa dos 30%, atingiu regularmente 50 a 60%. Mas mesmo então, essa comparticipação nunca representou mais de 20 a 25% do dinheiro que entrou anualmente no país, através de atividades de “apoio ao desenvolvimento” promovidas por instituições internacionais, governos estrangeiros e ONG.

PIB de Moçambique

Fonte: http://infodiario.co.mz/ 

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Moçambique: insustentável é a guerra (1)

Autor: Paulo Granjo

(1)  Nem guerra nem paz

Em Moçambique, arrasta-se há mais de 3 anos uma crise político-militar de consequências imprevisíveis.

Remonta a finais de 2012, com um “retiro” do líder do maior partido da oposição – Afonso Dhlakama, presidente da RENAMO – para a sua antiga base de guerrilha em Satungira, reivindicando mudanças na lei eleitoral e o cumprimento de cláusulas do Acordo de Paz firmado 20 anos antes, que previam a integração no aparelho de Estado dos antigos oficiais das suas forças.

Afonso Dhlakama

Fonte: http://www.voaportugues.com/

Aquilo que, na altura, foi publicamente interpretado como mais uma exigência musculada de negociações com o governo (ocupado pela FRELIMO desde 1975), tendo em mente o acesso aos esperados benefícios da futura exploração das reservas de gás natural há pouco descobertas, acabou por se transformar num rol de recontros armados, ao longo de 2013. Primeiro, num troço limitado da principal estrada do país; depois, através do cerco e ataque a Satungira por parte das forças de elite governamentais, ordenado pelo então Presidente da República, Armando Guebuza.
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As cidades (in)conscientes

Autor: Roberto Falanga

Em Tamara, uma das cidades visitadas pelo Marco Polo do Italo Calvino na obra “Cidades Invisíveis” (1972), o protagonista observa que a cidade diz tudo o que é necessário pensar, faz repetir o seu discurso e enquanto o viajante pensa estar a visitar a cidade ele está, na verdade, a registar os nomes com que ela se define a si própria e a todas as suas partes.

O caráter relacional, contextual e conflitual da língua reflete-se nas formas como conhecemos as cidades. A origem das línguas e as negociações sobre os significados das palavras trilham caminhos que vale a pena percorrer para entender o presente. As histórias das línguas e das cidades são histórias de fusões e distanciamentos incessantes, são estórias de uma História que faz e desfaz, que junta e afasta, e que nos faz andar, saltar, correr e, por vezes, separar e parar. A língua é a evocação da memória, é a citação íntima e emocional do passado que nos permite aproximar do futuro. Recordar é voltar a pôr (-re-) no coração (-cor-), como fazem também os ingleses (by heart) ou os franceses (par coeur). Nas encostas das palavras existe a memória dos acontecimentos mais singulares, dos hábitos, das zangas, dos amores, das malandragens.

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“Não é maravilhoso ver as pessoas a viver como querem?!”

Autora: Susana Boletas

A Cova da Moura é um bairro periférico de Lisboa, um dos maiores de concentração de população imigrante. É um espaço autoconstruído e multiétnico, com um forte e interventivo tecido associativo.

10387617_499828923453363_6641458407111906138_n.jpgFonte: Página do Sabura no Facebook (autor desconhecido)

O Sabura é um projeto de uma associação local, o Moinho da Juventude, ativo desde 2004, que visa proporcionar aos interessados passeios turísticos e visitas guiadas à Cova da Moura. Os visitantes, geralmente grupos de estudantes portugueses e estrangeiros e pessoas interessadas neste tipo de turismo temático, são guiados pelas várias instalações do Moinho da Juventude, onde lhes são descrito os vários serviços que a associação tem disponíveis: creche, jardim-de-infância, atividades de tempos livres e apoio escolar, alfabetização de adultos, cantina social, gabinete de inserção social, biblioteca e um estúdio de gravação onde os jovens do bairro têm a oportunidade de mostrar aos visitantes as suas músicas e vídeos. Pelas ruas sinuosas da Cova da Moura, o guia vai contando aos visitantes como os moradores construíram eles próprios as suas casas, enquanto vão passando pelos vários restaurantes, cabeleireiros e mercearias existentes no bairro associados ao Sabura e pelos street art murals da autoria de jovens do bairro. As festas são, também, ocasiões que atraem visitantes à Cova da Moura, em especial o Kola San Jon, uma festa junina cabo-verdiana recriada no bairro e patrimonializada em 2013. Os visitantes trazem dinheiro ao bairro e levam consigo narrativas que contrariam o estigma a ele associado.

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Sustentabilidade demográfica: um tabú cultural?

Autor: Luís Balula

Entre 1346 e 1353, a Peste Negra dizimou cerca de metade da população da Europa. Desde aí, e apesar das diversas guerras, epidemias e fomes que ocorreram ao longo dos seis séculos seguintes, a população humana continuou sempre a crescer. Durante as três últimas gerações, no entanto, esse crescimento tornou-se exponencial. Sobretudo devido aos avanços da medicina e ao aumento da produtividade agrícola, entre outros factores, a partir de 1950 verificou-se uma aceleração massiva do crescimento populacional. Cerca de metade de todas as nações do mundo quadruplicaram a sua população desde 1950. E este enorme ritmo de crescimento traduziu-se também, inevitavelmente, numa aceleração da actividade humana e na transformação, em larga escala, do sistema Terra.

Recentemente, o Programa Internacional Biosfera-Geosfera calculou como esta “Grande Aceleração” se reflectiu em 24 tendências globais de crescimento, entre 1750 e 2000. Como se pode ver nos vários gráficos que exprimem essas tendências, 1950 marca o início do crescimento exponencial de variáveis tão diversas como o número de automóveis, o número de McDonalds, o número de barragens hidroelétricas, o turismo internacional, o consumo de água, de fertilizantes e de papel, entre outras. Subjacente a todas estas acelerações exponenciais, o crescimento populacional surge como a óbvia — e a única — variável independente.

O ESTRANHO FENÓMENO DO CRESCIMENTO EXPONENCIAL

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Fonte: International Geosphere-Biosphere Program (slide de Alan Atkisson)

Somos hoje cerca de 7,5 mil milhões, e segundo as últimas projecções das Nações Unidas, admitindo uma taxa de fertilidade média, a população mundial chegará aos 10 mil milhões em 2056, seis anos mais cedo do que o anteriormente projectado nas estimativas de 2013. E mantendo-se o actual ritmo de crescimento populacional, em 2100 seremos 16 mil milhões—valor que as estimativas científicas mais generosas indicam ser o limite máximo antes de esgotarmos a capacidade de carga do planeta (as estimativas menos generosas indicam 4 mil milhões).

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