Quando 1+1>2: a problemática da interdisciplinaridade nos estudos sobre questões ambientais

As questões ambientais são reconhecidamente complexas, levando à necessidade de trazer para este domínio disciplinas de diferentes campos do saber de forma a garantir uma visão holística e proporcionar novas soluções para estas problemáticas. Neste contexto, a interdisciplinaridade é um importante caminho a seguir. O reconhecimento de uma abordagem interdisciplinar nas questões ambientais tem cerca de 4 décadas. A conferência de Estocolmo (1972), marco essencial nas políticas de proteção ambiental, e mais tarde a conferência de Tbilisi (1976), a primeira conferência sobre educação ambiental, chamam a atenção para a necessidade de acionar os diferentes saberes no que toca à proteção do ambiente.

Embora se reconheça a importância de combinar diferentes disciplinas no sentido de encontrar as respostas mais adequadas às questões ambientais esta não é uma tarefa fácil. A dificuldade começa, desde logo, na definição dos conceitos. Muitas vezes o termo interdisciplinaridade é utilizado de forma indiferenciada, juntamente com conceitos como multidisciplinariedade, transdisciplinaridade ou pluridisciplinaridade. Neste sentido, qualquer tentativa de abordar este tema terá de começar por esclarecer as diferenças entre eles.

“A pesquisa baseada em uma abordagem disciplinar está associada a um único nível de realidade. O fenômeno em estudo é observado sob a ótica de apenas uma disciplina do conhecimento. É a abordagem da ciência clássica. (…) o conceito de disciplina deve ser entendido como um conjunto de conhecimentos especializados e focados em um domínio científico específico e homogêneo.

A multidisciplinaridade é caracterizada pela intervenção de várias disciplinas para estudar um mesmo fenômeno. Cada disciplina irá intervir dentro da sua ótica de forma sequencial ou paralela sem que haja cooperação entre elas. Não haverá nem integração nem complementaridade dos conhecimentos gerados por cada uma das disciplinas intervenientes na análise do objeto observado.

Na pluridisciplinaridade o fenômeno também é estudado por meio da ótica de várias disciplinas de forma independente. Entretanto, há troca de conhecimentos entre as disciplinas a partir da cooperação entre elas, de forma a enriquecer o conhecimento sobre o fenômeno. Existe uma justaposição de diversos campos de saber situados geralmente no mesmo nível hierárquico, mas não há nenhuma coordenação (Silva, 2000). Assim, a análise econômica do sistema produtivo será utilizada para melhorar os resultados da otimização matemática dos fluxos de materiais e a análise sociológica irá levar em conta as formas de gestão para organizar o sistema de modo a melhorar sua eficiência na agregação de valor.

Na interdisciplinaridade existe um intercâmbio de conceitos, conhecimentos e métodos entre as disciplinas. Nesta abordagem há uma interação participativa de um grupo de disciplinas conexas, cujas relações são definidas a partir de um nível hierárquico superior, ocupado por uma delas (Jantsch; Bianchetti, 1999). O objetivo é a “transferência de métodos de uma disciplina para outra” (Nicolescu, 2005).

Finalmente, a transdisciplinaridade ocorre a partir da interseção dos conhecimentos de várias disciplinas. Para Nicolescu (2005), o prefixo “trans” indica aquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina. (…) Na abordagem transdisciplinar ocorre uma fusão do conhecimento das diversas disciplinas que tende à criação de um campo de saber com autonomia teórica e totalmente novo. As ciências cognitivas e a ecologia são resultados de uma necessidade de intervenção transdisciplinar para estudar determinados problemas da realidade (Pombo, 2006).” (Neto & Leite, 2010, pg 2)

Imagem1.pngFonte: (Neto & Leite, 2010)

Para que a transdisciplinaridade ocorra são necessárias condições únicas que permitam não a dominação de várias disciplinas, mas a abertura de todas as disciplinas ao que as atravessa e as ultrapassa” (Freitas, Morin & Nicolescu 1994), podendo dar origem a uma nova disciplina. No caso da interdisciplinaridade, a identidade de cada disciplina é preservada ainda que a sua contribuição seja depois combinada com a de outras disciplinas no sentido de conhecer e conseguir dar resposta a sistema complexos. A interdisciplinaridade não pressupõe as disciplinas percam a sua identidade, mas sim que tragam o melhor e mais adequado de cada uma para a compreensão do objeto de estudo.

Para que o trabalho interdisciplinar ocorra é preciso ter em conta vários aspetos. Entre eles, as características individuais dos membros que integram essas equipas. O trabalho interdisciplinar exige humildade, confiança, abertura a novos conhecimentos e a novas formas de trabalhar. É necessário ainda que as próprias instituições fomentem a interdisciplinaridade. Instituições menos fechadas sobre si próprias, que contrariam o ‘clubismo disciplinar’, são mais favoráveis ao desenvolvimento de projetos interdisciplinares. E, por último, é importante fomentar a formação em contexto interdisciplinar. Programas de formação que integrem várias disciplinas dotarão os estudantes e futuros investigadores das competências necessárias para trabalhar em equipas heterogéneas e para integrar novas formas de saber para além da sua formação de base (ver Philippi Jr. et al, 2000). O Programa Doutoral em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável, ministrado em regime de associação entre a Faculdade de Ciências (FC), a Faculdade de Letras (FL), o Instituto de Ciências Sociais (ICS), o Instituto Superior de Agronomia (ISA) e o Instituto Superior Técnico (IST) desta Universidade, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) e a Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa (UNL), é um bom exemplo. Assim, considerar a interdisciplinaridade exige ter em conta aspetos que estão presentes a diferentes níveis: intra e interpessoal e inter e intrainstitucional.

No caso das ciências sociais, os desafios associados à interdisciplinaridade são particularmente acentuados (Bina & Varanda, 2015). É comum verificar-se em equipas interdisciplinares que as ciências sociais ocupam uma posição hierarquicamente inferior comparativamente às ciências naturais. É comum  nas equipas multi ou interdisciplinares, as disciplinas ligadas às ciências sociais receberem uma ínfima parte do orçamento comparado com os que são atribuídos às ciências naturais, e muito raramente são elas que ocupam uma posição de liderança e de gestão dos projetos. No sentido de combater essa posição é fundamental que os cientistas sociais tomem a iniciativa de desenhar e submeter a financiamento projetos onde as suas disciplinas possam ter uma posição mais relevante e, desta forma, contribuir para a tomada de decisão. Mesmo em projetos onde não tenham um papel de liderança, há que invocar os recursos necessários para a realização de uma investigação de qualidade. Não existe nas ciências sociais uma cultura de gestão, mas sim uma ´cultura do milagre`, onde com pouco se faz muito, da qual, infelizmente, muitos se orgulham. Esta é uma cultura contraproducente que desvaloriza o trabalho realizado e contribui para a obtenção de resultados que estão, muitas vezes, aquém daquilo que as disciplinas de ciências sociais podem oferecer. Contribuindo ainda mais para enfraquecer a posição das ciências sociais no interior das equipas interdisciplinares e na própria sociedade. A cultura de que os investigadores sociais conseguem fazer milagres é suicidária.

Mesmo no seio das ciências sociais, a criação de equipas interdisciplinares representa grandes desafios. Além das diferenças no que diz respeito às metodologias utilizadas, não são raras as vezes em que, embora essas disciplinas partilhem conceitos, os significados atribuídos as esses conceitos são substancialmente diferentes. Neste contexto a comunicação e a procura de uma linguagem comum é muito importante.

Em suma, o trabalho interdisciplinar não é fácil, mas as suas vantagens são inegáveis. E no que toca à investigação na área do ambiente esse trabalho é fundamental.

 

Augusta Correia é investigadora e tem colaborado em vários projetos do Grupo de Investigação Ambiente, Território e Sociedade do ICS-Ulisboa

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