Para uma geografia de todos os lugares

Por João Ferrão

Nos anos 1990, Castells (1996) e outros autores defenderam que estava então a ocorrer a emergência de uma geografia de fluxos em detrimento da velha geografia dos lugares, no quadro de uma sociedade organizada em rede, potenciada pelas novas tecnologias de informação e comunicação, mas, também, pela crescente mobilidade de ideias, bens, capitais e pessoas no contexto da globalização das economias e das sociedades. Alguns autores foram mesmo mais longe (Friedman, 2005), anunciando um mundo ´plano` e o consequente fim da geografia, no sentido do esbatimento quer das barreiras à mobilidade quer da diversidade geográfica. Estaríamos, pois, a caminho de um mundo desterritorializado, sem obstáculos à circulação e tendencialmente homogéneo. O anúncio, ilustrado com múltiplos exemplos factuais, não constituiu uma verdadeira surpresa. Afinal, a chamada livre circulação dos fatores de produção sempre foi um princípio fundamental das teorias económicas liberais e alcançou uma centralidade particularmente decisiva com o neoliberalismo e a financeirização da economia. Continuar a ler

A Estrada que Fura: Progresso e Contradição nas Novas Infraestruturas em Angola

Por João Afonso Baptista

Atrás dele está uma moradia da era colonial, elegante e discreta. A fachada ostenta imunidade à dor e ao isolamento que as guerras do passado trouxeram àquela cidade no sudeste de Angola. Depois de uma breve conversa de apresentações, ele encaminha-me para dentro da moradia. É a sede provincial da ONG que dirige. Sentamo-nos e conversamos no seu escritório despido dos adereços característicos da “indústria do desenvolvimento”. No final da reunião, ele esboça um mapa onde indica a saída de Menongue. “Depois de passares por esta rotunda em construção”, diz apontando com o lápis para as últimas linhas que tracejou, “furas por aí fora”.

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QUEM FOI? Uma questão de responsabilidade na governança socioambiental – 1ª parte

Por Luiz Carlos de Brito Lourenço

Não fui eu” apareceu incógnito e grafitado com repetida caligrafia em muros e dispositivos urbanos distribuídos da cidade do Rio de Janeiro. Tal negação insinuava a acusação de um delito, como observou em abril de 2018, na revista piauí, seu editor, o premiado cineasta João Moreira Salles, motivado pela sufocante e persistente sensação de impunidade para a sucessão de sinistros e crimes vivenciados pela sociedade brasileira neste milénio. Continuar a ler

Revisiting public transport policies: the public bikes in Vilamoura, Portugal

By Alexandra Bussler

In an era of increasing individualism and acceleration, where patience is rare and the better-faster-cheaper rules, urban citizens’ expectations towards public transport are changing. What counts seems to be velocity, convenience, flexibility, reliability. Instead of delayed or non-arriving buses, inconvenient operating times and adherence schemes, public transport should fulfil the needs of its users with increased network flexibility (possibility of switching across different means), accessibility (it has to be financially attractive) and availability (24/7). Continuar a ler

A procura de habitação a partir de uma perspetiva demográfica

Por Alda Botelho Azevedo

Desde o seu início, em 2016, e em resultado do destaque que assume na atualidade, o tema da habitação tem sido frequentemente tratado neste blogue. Este post contribui para este debate com uma reflexão sobre as dinâmicas demográficas na  procura de habitação em Portugal, com o propósito de melhor esclarecer e circunscrever os seus impactos.

Existe um consenso generalizado de que as tendências demográficas são determinantes na procura de habitação, consenso esse aceite no contexto da atual crise na habitação em Portugal e comummente epígrafe no enquadramento de políticas da habitação, como se verifica nos documentos da Nova Geração de Políticas da Habitação. Isso é preocupante se não forem claros o alcance e os limites da demografia na procura de habitação. Continuar a ler

A dimensão das desigualdades sociais na adaptação às alterações climáticas

Por Ana Rita Matias

O conceito de justiça climática tem vindo a tornar-se cada vez mais relevante quando é abordado o tema das alterações climáticas e os seus impactos em diferentes regiões do globo. As alterações climáticas estão a colocar diferentes comunidades numa situação de desvantagem cumulativa face a esses impactos e aos recursos que lhes são disponibilizados para se adaptar. Não é possível compreendermos a (in)justiça climática – e como pensar o problema da adaptação – sem compreender o problema das desigualdades sociais. Continuar a ler

Dívida pública e dependência

Por Daniel Roedel

Frequentemente os media especializados em economia destacam a necessidade imperiosa de se promover radicais ajustes nos orçamentos públicos como caminho natural e necessário para um desenvolvimento equilibrado dos países. Citam até o honroso (embora preconceituoso) exemplo das “donas de casa”, que cuidam do orçamento cotidiano e que sabem que não se pode gastar mais do que se arrecada. Tal exemplo sensibiliza e encontra respaldo nas camadas médias da população, pois esta costuma ser determinada no cumprimento de seus compromissos financeiros. Continuar a ler

What Urban Futures? (I) Films on Nature and Technology

Por Mariana Liz

In 2019, ICS’s Annual Conference will be devoted to the topic of urban futures, with a focus on the relationship between nature and technology, and on the tension between politics and rights. Confirmed guest speakers include Evgeny Morozov (The New Republic), Vanesa Broto (University of Sheffield), Melissa Garcia Lamarca (Universitat Autònoma Barcelona) and Jorge Malheiros (Universidade de Lisboa). With debates and keynote speeches taking place on 5 and 6 June at ICS’s premises, the conference begins with two days of film screenings in Caleidoscópio. On 3 and 4 June, two film sessions, starting at 6pm, will introduce the conference’s themes: nature and technology, and politics and rights. Continuar a ler

Resiliência social e percepção dos impactos das alterações climáticas em Tacloban, Filipinas

Por Rita Marteleira

A República das Filipinas é um dos territórios mais vulneráveis aos impactos das alterações climáticas, devendo-se isso a factores como a localização geográfica, a intensa fragmentação em milhares de pequenas ilhas e uma distribuição populacional extremamente heterogénea que dificulta a implementação de medidas de adaptação. Este país tem sentido os impactos das alterações climáticas de forma significativa, através do aumento da temperatura média anual de 0,65°C (relativo ao período de referência de 1971-2000), da variabilidade do regime de precipitação – heterogénea no arquipélago, sendo algumas ilhas afectadas por cheias, outras por acentuados períodos de seca – e também do aumento da frequência e intensidade dos ciclones tropicais (PAGASA, 2011). Continuar a ler

Uma nova geração… de financeirização da habitação?

Por Simone Tulumello

Este post é uma breve história de políticas com impacto sobre a habitação desenvolvidas à margem das políticas de habitação. Este post é uma breve história da financeirização da habitação em Portugal. O termo financeirização tem sido utilizado para descrever o crescimento da influência dos setores financeiros no Ocidente e em todo o mundo, bem como as transformações socioeconómicas que este crescimento produziu. A financeirização da habitação refere-se, em particular, à progressiva transformação da habitação num ativo a ser utilizado para obter lucro via especulação financeira (vejam-se os trabalhos de Manuel Aalbers). A motivação deste post é a aprovação, no início de 2019, de duas reformas que constituem mais dois passos na direção da financeirização da habitação: o regime jurídico das Sociedades de Investimento e Gestão Imobiliária (SIGI) e o Direito Real de Habitação Duradoura (DHD). Continuar a ler