Químicos em produtos do quotidiano – perceções e práticas das gestantes

Por Susana Fonseca

Desde há quase duas décadas que pessoalmente me interesso por temas ambientais, sendo a presença de substâncias químicas em produtos que usamos quotidianamente um dos principais focos de atenção. O facto de ter acompanhado, enquanto ativista ambiental, o processo de negociação do Regulamento REACH – Registo, Avaliação, Autorização e Restrição de Substâncias Químicas, que entrou em vigor em junho de 2007, mas se desenrolou ao longo de vários anos, permitiu-me aprender sobre o processo legislativo europeu, mas sobretudo demonstrou como a perceção social sobre o tema é muito diferenciada entre países.

Postura ambientalista à parte, em termos académicos sempre acarinhei a ideia de analisar este tema do ponto de vista sociológico. Tal veio a concretizar-se em 2015, com a aprovação da minha bolsa de pós-doc, financiada pela FCT, que se iniciou em junho de 2016.

A ideia base da proposta de investigação passa por analisar se o tema dos efeitos que as substâncias químicas presentes em produtos do quotidiano (ao nível do cuidado pessoal, da alimentação, da casa, do vestuário) podem ter na saúde das crianças, é reconhecido como relevante e está integrado nas práticas médicas e de enfermagem de aconselhamento às mães. Os reflexos deste debate e controvérsia nas perceções e práticas das mães durante a gestação e o primeiro ano de vida da criança é o segundo objetivo desta investigação.

É reconhecido que as crianças são particularmente vulneráveis a fatores de risco de origem ambiental dadas as suas características fisiológicas e comportamentais (OMS-Europa, 2004). Na última década, várias tomadas de posição apelaram a uma intervenção pedagógica e de aconselhamento junto das famílias (em particular das grávidas), por parte dos profissionais de saúde, sobre os potenciais riscos ambientais para a saúde das crianças (AAP, 2011; ACOG, 2013; RCOG, 2013).

Estudos sobre as práticas de aconselhamento dos profissionais de saúde em relação ao tema apontam para a sua pouca familiaridade, o reconhecimento da falta de preparação para responder a questões sobre o tema, o reduzido tempo disponível por paciente, a gestão dos temas prioritários a abordar e a incerteza sobre o grau de perigo subjacente às exposições ambientais a substâncias químicas, como principais argumentos para a abordagem do tema não ser comum (Stotland et al, 2014).

Em Portugal, a confiança das mães no aconselhamento médico e de enfermagem ao longo da gestação e após o nascimento parece ser significativa (Nave e Fonseca, 2012). Por outro lado, há dados que indicam que em Portugal é menos comum que se reconheça a presença de substâncias químicas em produtos e é mais comum que se confie na segurança das substâncias químicas colocadas no mercado do que na média da UE28 (CE, 2013; CE, 2017). A tendência mantém-se quanto à preocupação com o impacto que os produtos químicos podem ter na saúde (CE, 2014).

opiniaosegurança
Opinião sobre a segurança para a saúde humana e o ambiente das substâncias químicas presentes em produtos de uso comum. Fonte: Eurobarómetro, 2017.

Em termos de trabalho de campo, foram entrevistadas trinta gestantes, das quais cerca de 50% estavam na sua primeira gravidez, sendo os 30-40 anos o intervalo etário mais comum. A larga maioria das mães tem formação ao nível do ensino superior e estão profissionalmente ativas. Uma tão elevada presença de mães/gestantes com o ensino superior é, obviamente, um fator de preocupação em relação à representatividade dos dados. Contudo, perante os resultados obtidos em relação às principais dimensões de análise, e tendo em consideração que se trata de um tema com alguma tecnicidade e onde a capacidade de lidar com informação complexa pode ser relevante, a presente amostra qualificada acaba por ser pertinente para a análise em curso.

A muito baixa perceção sobre potenciais riscos para as próprias mães e para o bebé resultantes da presença de substâncias químicas perigosas em produtos de uso quotidiano, incluindo a alimentação, é uma das tendências mais marcantes das entrevistas. Mesmo sobre temas mais comuns, como a recomendação de evitar consumir algumas espécies de peixe devido à presença de metais pesados, é muito pouco frequente que as mães tenham informação e, se a têm, raramente foram os profissionais de saúde que lha comunicaram. Existe a perceção da relação entre produtos de uso quotidiano e alergias, daí que as escolhas dos produtos a utilizar na pele e nas roupas do bebé tendam a ser mais criteriosas e baseadas, muitas vezes, na partilha de experiências com outras mães, ou numa conversa com os profissionais de saúde ou com os farmacêuticos. Mas a preocupação com as substâncias químicas tende a parar aí. O facto de haver um quase total desconhecimento dos (poucos) rótulos ecológicos que estão à disposição, vem reforçar a perspetiva de que este é um assunto que ainda está longe das rotinas da maioria das mães.

Entre as mães/gestantes que reconhecem o tema das substâncias químicas como relevante, o interesse e a preocupação podem ter surgido por diferentes razões (por exemplo, ter contacto com alguém que vive noutro país ou ter visto um documentário) ou serem despoletados por algo como um problema de saúde.  Em muitos casos, o alerta surge através das questões alimentares.

Por último, uma nota sobre o papel dos profissionais de saúde na abordagem deste tema junto das gestantes. Ainda que por via indireta, a tendência de resposta das mães é bastante clara: os profissionais de saúde não abordam este tema a não ser que sejam questionados pelas mães, momento em que, de forma genérica, tendem a desdramatizar (mais comum) ou a reconhecer a sua ignorância profissional sobre o tema (menos frequente).

Em suma, mais de dez anos passados sobre a entrada em vigor de um marco mundial na área da regulamentação das substâncias químicas (o Regulamento REACH), em Portugal parece persistir um certo alheamento em relação ao tema da presença de substâncias químicas perigosas em produtos que fazem parte do nosso quotidiano.


Susana Fonseca é investigadora pós-doc no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa), sendo ainda membro fundador e uma das diretoras da ONG ambiental ZERO, bem como da Coopérnico – Cooperativa para o Desenvolvimento Sustentável. susana.fonseca@ics.ulisboa.pt

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