Para uma geografia de todos os lugares

Por João Ferrão

Nos anos 1990, Castells (1996) e outros autores defenderam que estava então a ocorrer a emergência de uma geografia de fluxos em detrimento da velha geografia dos lugares, no quadro de uma sociedade organizada em rede, potenciada pelas novas tecnologias de informação e comunicação, mas, também, pela crescente mobilidade de ideias, bens, capitais e pessoas no contexto da globalização das economias e das sociedades. Alguns autores foram mesmo mais longe (Friedman, 2005), anunciando um mundo ´plano` e o consequente fim da geografia, no sentido do esbatimento quer das barreiras à mobilidade quer da diversidade geográfica. Estaríamos, pois, a caminho de um mundo desterritorializado, sem obstáculos à circulação e tendencialmente homogéneo. O anúncio, ilustrado com múltiplos exemplos factuais, não constituiu uma verdadeira surpresa. Afinal, a chamada livre circulação dos fatores de produção sempre foi um princípio fundamental das teorias económicas liberais e alcançou uma centralidade particularmente decisiva com o neoliberalismo e a financeirização da economia.

A leitura linear da emergência da geografia dos fluxos em detrimento da geografia dos lugares foi de imediato criticada por diversos autores (p. ex., Smith, 1996; Graham, 1998). Mas a resposta mais clara chegou 20 anos mais tarde e proveio, como sempre, da própria sociedade, ainda que de uma forma para muitos inesperada: a emergência dos movimentos de direita populistas, nacionalistas e xenófobos na Europa e nos EUA, primeiro num número reduzido de países, como a Itália, a França e a Áustria, mas de forma mais generalizada a partir de 2016. Neste mesmo ano, os resultados do referendo à permanência do Reino Unido na União Europeia suscitaram análises e interpretações bastante convergentes com as que incidiam sobre as geografias das votações obtidas por partidos populistas de direita em eleições presidenciais e parlamentares ocorridas noutros países. Geografia(s) do descontentamento (McCann, 2016; Nel.lo & Gomà, 2018), França periférica e frágil (Guilluy, 2016), ´lugares que não interessam` ou ´lugares sem futuro` (Rodríguez-Pose, 2018), ´lugares que ficaram para trás` (Gordon, 2018; Tomaney & Pike, 2018), são expressões que começaram então a surgir de forma recorrente em textos académicos, na comunicação social e mesmo em publicações de organizações internacionais, como a OCDE.

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Figura 1. Votos alcançados pelos partidos nacionalistas nas eleições nacionais mais recentes, em % (setembro 2018). Fonte: BBC.

Estaremos perante o que Kaplan (2012) designou por vingança da geografia, embora agora a uma escala sub-regional e local, e não na perspetiva geoestratégica mais ampla adotada por este autor para diversos países e áreas do globo? Estaremos, em suma, a assistir ao regresso da geografia dos lugares, à vingança dos lugares esquecidos e que por isso não contam, à vitória da geografia (do voto) sobre a sociologia (dos eleitores) com base em populismos que parecem ter uma base mais nítida em termos territoriais do que sociais?

Não existe uma resposta única, porque não se observam tendências e padrões comuns a todos os países ou até no interior de cada um deles. Mas os estudos comparativos sobre o voto da direita populista e a ´geografia do ressentimento político` (Rodríguez-Pose, 2018), incluindo diversos países europeus e os EUA, apontam para um certo consenso em torno de algumas ideias-chave.

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Figura 2. Distribuição geográfica dos votos em Emmanuel Macron e Marine Le Pen na segunda volta das eleições presidenciais de 2017. Fonte: BBC

Quem são, então, os ´descontentes` que apoiam soluções populistas de natureza conservadora, protecionista e xenófoba? São sobretudo os residentes em áreas em declínio estrutural e persistente, vítimas dos efeitos da globalização económica, do cosmopolitismo universalista, do triunfalismo metropolitano e, mais recentemente, da recessão económica e das políticas de austeridade.

Geograficamente, correspondem aos habitantes de cidades de média e pequena dimensão, ou de maior dimensão mas com um passado industrial, e de áreas rurais afastadas das grandes metrópoles. Sociologicamente, incluem diversos grupos das classes médias e populares tradicionais (operários, assalariados do setor público e privado, camponeses, profissionais independentes, desempregados), crescentemente precarizados e envelhecidos, com níveis de qualificação e educação abaixo das respetivas médias nacionais. Economicamente, integram categorias em empobrecimento absoluto ou relativo, famílias sobre endividadas cujas expectativas de mobilidade e de segurança socioeconómicas parecem cada vez mais irrealizáveis. Culturalmente, mobilizam pessoas que consideram que os seus valores e sentimentos de identidade estão a ser ameaçados quer pela agenda cultural cosmopolita pós-material das elites metropolitanas, quer pela partilha dos mesmos espaços quotidianos por comunidades imigrantes, sobretudo quando o crescimento destas últimas é recente e rápido.

Em síntese, estes descontentes são pessoas ´vulgares` que se sentem marginalizadas, esquecidas, ameaçadas, longe tanto do poder político, que associam a elites consideradas distantes e corruptas, como da ação pública, que, na sua perspetiva, beneficia as comunidades imigrantes dos subúrbios das grandes metrópoles através de políticas de habitação social e de equipamentos coletivos a que não têm acesso. São localistas que vêm no território, nos seus territórios, nos lugares onde habitam, a última âncora do capital social e da sociabilidade que lhes resta e da segurança a que aspiram. São os perdedores da globalização, já que os ganhadores, os beneficiários ou os protegidos – das elites às comunidades imigrantes enraizadas – vivem nas grandes metrópoles e nas cidades prósperas. São, por isso, os defensores da desglobalização, do nacionalismo, do protecionismo, de nações, regiões e lugares que sejam de novo poderosos e gloriosos, mesmo quando não o foram, por que essa é uma condição para que também eles o sejam ou voltem a sê-lo.

O regresso da geografia dos lugares tem uma grande virtude: recorda-nos que os lugares contam, pelas suas características, pelo “efeito lugar”, pela sua (in)visibilidade, pelo poder que têm de influenciar futuros individuais e coletivos. Não se trata de recuperar qualquer tipo de determinismo geográfico ou de condescender em relação a visões essencialistas de território. Trata-se apenas de salientar que os lugares, nas suas múltiplas dimensões materiais e imateriais, são – ou podem ser – contextos explicativos relevantes e quadros de ação pertinentes.

Sabemos há muito que os territórios não são meros palcos, onde “algo” sucede, ou meros espelhos, onde “algo” se reflete. A geografia dos ´lugares que não contam` contribuiu para a politização das desigualdades territoriais, para usar uma expressão de Rodriguez-Pose. Mas a análise dessa politização permite-nos compreender que não estamos perante uma guerra entre territórios. Enfrentamos, sim, graves problemas de injustiça espacial e de falta de coesão territorial decorrentes dos processos de globalização, do poder das redes cosmopolitas desterritorializadas e do ideário do triunfalismo urbano. O regresso da geografia dos lugares ao debate científico e político não deve, por isso, ter como objetivo único ou mesmo primordial o combate ao fator que nos relembrou a importância dos lugares, de todos os lugares – o voto da direita populista, nacionalista e xenófoba – mas antes o modelo socioeconómico, cultural e político que o explica e promove.


João Ferrão é investigador coordenador do ICS-ULisboa e coordenador do Grupo de Investigação Ambiente, Território e Sociedade. joao.ferrao@ics.ulisboa.pt

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