Um lugar à sombra nas práticas de adaptação às alterações climáticas

Por: Ana Horta

Quando, no verão passado, descobri que um dos toldos do meu terraço tinha começado a rasgar-se num canto depois de uma ventania, percebi que já não podia adiar mais a sua substituição. Foi então que, ao telefonar a uma empresa a pedir um orçamento, tive uma agradável surpresa ao ouvir dizerem-me, do outro lado da linha, que este ano estavam a receber muito mais pedidos de orçamento por dia do que alguma vez tinha acontecido. Pareceu-me que este poderia ser um indício de mudança nas práticas de arrefecimento das casas em Portugal.

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Adaptação climática em Portugal: Contributos para um Roteiro Nacional

Por: André Pereira e João Mourato

Nos passados três meses, sucederam-se exemplos a nível mundial dos impactos que quer as ondas de calor, quer as cheias e inundações repentinas (flash floods) podem ter, e de como em contexto urbano e rural não estamos equipados para lidar com estes fenómenos. Perante estes eventos há quem, na opinião pública, argumente que se trata apenas de um conjunto de epifenómenos. Contudo, negacionismo suave à parte, o que a climatologia nos informa é que podemos estar perante o início de uma mudança global nos padrões climatéricos, redesenhando assim um “novo normal”. E acumula-se evidência de que não estamos preparados para gerir os impactos negativos de tal mudança. É aqui que o debate da adaptação às alterações climáticas reside.

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Saúde e sustentabilidade numa calha comum: o caso do Programa Bairros Saudáveis

Por: João Guerra e Paulo Miguel Madeira

A saúde humana pode ser encarada de muitas formas e a partir de muitas frentes. Se o objetivo for resolver um problema pessoal e específico, uma abordagem mais incisiva recai num conjunto reduzido de fatores associado diretamente a uma enfermidade. Desse ponto de vista redutor, a avaliação da saúde baseia-se numa análise de cariz tendencialmente descontextualizada e reducionista, focada em processos individuais, físicos, observáveis e mensuráveis. No entanto, no campo mais alargado da saúde comunitária, esta abordagem mostra-se claramente insuficiente, já que, nesses contextos, social e ambiental, individual e coletivo, mesclam-se de forma intricada, funcionando como um ecossistema que determina as condições de existência.

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O valor da vida urbana: reflexões sobre habitabilidade, normatividade e exclusão

Por: Elizabeth Dessie; Tradução de André Pereira

**A versão original deste post pode ser consultada aqui.

O que faz com que a vida urbana valha a pena ser vivida? Com cidades em todo o mundo que consubstanciam os motores económicos de desenvolvimento e transformação, o valor do urbano tem sido geralmente conceptualizado em termos monetários. Mas como é que a habitabilidade interage com as necessidades e experiências subjetivas dos habitantes da cidade, e até que ponto a exclusão é uma parte integrante da patologia urbana sob efeito do capitalismo global? O que seriam as cidades se abandonássemos o capital como qualificador monetário de valor? E que descobertas faremos se integrarmos história e relacionalidade no entendimento do que são as cidades e do que é urbano? Este post pondera estas perguntas em relação às apresentações, discussões e interações que ocorreram no workshop “What makes urban life worth living? (Re)evaluating the value of urban life”, que decorreu em Lisboa, em maio de 2023, acolhido pelo Dinamia’CET (ISCTE-IUL) e pelo Urban Transitions Hub (ICS-ULisboa).

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Participação na cadeia de valor do café: Uma investigação antropológica para apontar as assimetrias de poder

Por: Marie Sigrist

Já parou para pensar de onde vem esse café que você tomou hoje de manhã? Pois, então, pode ter sido cultivado no Brasil. De fato, mais de um terço do café exportado no mundo é produzido no Brasil. E, se o seu café é brasileiro, é bem provável que venha do Estado de Minas Gerais, que forneceu 22 milhões de sacas em 2022, ou seja, mais de 40% da produção do café brasileiro. Mais especificamente, o sul de Minas Gerais é apropriado para cafeicultura devido às suas cadeias de montanhas, temperaturas médias de 20 graus por ano e à sua latitude. Aliás, a região assumiu a liderança na produção nacional há cerca de 50 anos.

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Governmental bodies and the governance of digital transformation: A matter of practices

By: Michele Veneziano

Digital transformation has become increasingly important in the public sector due to its potential to improve efficiency, reduce costs, and enhance (digital) public services. So far, different strands of literature investigated how the use of digital technologies in public administration has enabled governments to streamline processes, automate routine tasks, and improve data management. This is supposed to lead to faster and more accurate decision-making, greater transparency, and even more citizen engagement. The COVID-19 pandemic has further highlighted the importance of digital transformation in the public sector, as remote work and digital service delivery became essential.

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A europeização e as territorialidades desencontradas

Por: Inês Gusman

Ainda que quotidianamente lhe possamos dar outros usos, numa perspetiva geográfica, o território é comummente considerado uma porção do espaço à qual se atribui algum tipo de singularidade. Adquire, por isso, diferentes formas e escalas, podendo ter distintas origens, entre elas, política, física, cultural ou histórica. Nos anos 80 do século XX, o geógrafo Robert Sack chamou a atenção para o facto de os territórios surgirem a partir de um conjunto de processos físicos e/ou simbólicos que denominou territorialidade, cujo objetivo é “afetar, influenciar e controlar pessoas, fenómenos e relações” no espaço. Ainda que, tradicionalmente, a forma como as sociedades entendem e interagem com o espaço e com as suas divisões esteja fortemente influenciada pelas práticas dos Estados, a territorialidade não é um fenómeno exclusivamente estatal. As mudanças políticas e tecnológicas das últimas décadas, a intensificação da mundialização das relações sociais e económicas, juntamente com os avanços dos debates académicos sobre o território, vieram evidenciar isso mesmo. Importa, no entanto, compreender que territorialidades são estas e quais os seus principais alcances.

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Pegadas Digitais

Por: Ana Delicado e Jussara Rowland

Quando se discute a “pegada digital”, geralmente refere-se ao “rasto” que as nossas atividades online deixam. O que decidimos partilhar (ou que partilham de nós) – as nossas fotos e vídeos, os nossos comentários, os textos que escrevemos para websites, etc. – e a informação que plataformas digitais recolhem com, ou sem, o nosso consentimento – as pesquisas que fazemos, os nossos dados de geolocalização, o nosso historial de navegação, etc. As vantagens associadas a esta pegada são conhecidas. Não só funciona como “cartão-de-visita” ou arquivo digital pessoal, como permite uma maior personalização da nossa experiência na internet, através da seleção algorítmica de conteúdos considerados mais relevantes para o nosso perfil. Mais conhecidos ainda são os riscos que lhes estão associados: problemas de privacidade, publicidade intrusiva, roubo de identidade, fraude, hacking, discriminação, etc.

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Algunas Claves para Reflexionar: ¿Qué Está Pasando con la Participación Ciudadana?

Por: Virginia Gutiérrez Babarrusa

En este post proponemos algunas claves para reflexionar sobre las implicaciones de las políticas de participación ciudadana, como la continuidad de los procesos, la capacidad de fortalecer el tejido social, la de superar las brechas sociales o el uso de las Nuevas Tecnologías de la Información y la Comunicación (NTIC). Los Presupuestos Participativos han tenido un papel destacado y tanto Portugal como España han sido pioneros en la puesta en marcha de estas experiencias en el contexto europeo.

Estas reflexiones surgen de experiencias previas en el contexto español, que hemos contrastado a través del proyecto desarrollado entre los meses de abril a septiembre del año 2022 sobre los procesos de participación ciudadana impulsados por la Cámara Municipal de Lisboa (CML) entre 2008 y 2021. Básicamente en la investigación nos centramos en el Presupuesto Participativo de Lisboa (“Orçamento Participativo de Lisboa”, OP-L).

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Adaptação climática no setor da água: uma análise da aceitação social para reutilização

Por: Marcella Conceição

A seca de 2022 em Portugal foi um evento de grande relevância no cenário das mudanças climáticas no país, tendo este sido considerado o ano mais seco dos últimos 92 anos. A seca meteorológica durou cerca de nove meses, só atenuando em outubro do mesmo ano, quando as chuvas começaram. Segundo o boletim do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), seis ondas de calor e 80% do território em seca severa extrema e temperaturas mais altas foram as características do cenário climático deste ano para os portugueses. Nos últimos meses do ano, o aumento da pluviosidade trouxe 70% das chuvas, o que aliviou as condições de seca em todo o país.

Evidentemente, este tipo de cenário tem interferências diretas no ciclo da água, tanto para o abastecimento das cidades, como para a agricultura (casos de escassez).  No sentido de promover a adaptação a estes eventos, a reutilização de água tratada (ApR – Água para Reutilização) vem sendo adotada na rega dos espaços verdes em Lisboa, onde a construção de uma rede para reutilização está em andamento e um dos três pilotos previstos para a cidade já se encontra em funcionamento. A reutilização de águas residuais é uma prática que tem vindo a se estabelecer nos países europeus como solução para promover a reintegração do recurso no ciclo de utilização. Países do sul europeu já vêm estabelecendo a reutilização como forma de assegurar não só maior disponibilidade de água para um território seco, mas também garantir uma economia circular e sustentável no setor. 

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