Adaptação climática em Portugal: Contributos para um Roteiro Nacional

Por: André Pereira e João Mourato

Nos passados três meses, sucederam-se exemplos a nível mundial dos impactos que quer as ondas de calor, quer as cheias e inundações repentinas (flash floods) podem ter, e de como em contexto urbano e rural não estamos equipados para lidar com estes fenómenos. Perante estes eventos há quem, na opinião pública, argumente que se trata apenas de um conjunto de epifenómenos. Contudo, negacionismo suave à parte, o que a climatologia nos informa é que podemos estar perante o início de uma mudança global nos padrões climatéricos, redesenhando assim um “novo normal”. E acumula-se evidência de que não estamos preparados para gerir os impactos negativos de tal mudança. É aqui que o debate da adaptação às alterações climáticas reside.

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O modelo de regeneração de Aalborg Øst: Um projeto LEGO de esperança

Por: Sónia Alves

As area-based initiatives (iniciativas de base territorial) estão bem documentadas e debatidas na literatura, contando já com mais de quatro décadas de financiamento por parte de governos locais e nacionais, bem como da União Europeia.

A lógica subjacente a estas iniciativas é que, embora os problemas da pobreza e da desvantagem socioespacial não estejam confinados às áreas em desvantagem, o modo como estes se concentram e se interligam nessas áreas podem gerar espirais negativas de declínio que ameaçam não só a coesão social e urbana, como uma mobilidade social descendente da população residente, sobretudo a mais vulnerável.

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Notes on co-production exercises between academia and social movements

By: Antonio Gori

«Aucun “je” dans ce qu’elle voit comme une sorte d’autobiographie impersonnelle – mais “on” et “nous” – comme si, à son tour, elle faisait le récit des jours d’avant »

(Annie Ernaux, Les Annés, 2008: 252)

My research aims to trace the history of the housing struggle movements in the city of Lisbon over the last decade. In doing so, I focus on the activities of two groups of which I have had the pleasure and honour of being a member for several years now: the Habita association and the Stop Despejos collective.

The choice to study these two organisations stems not only from the fact that they are the two main protagonists of this type of instance in the Lisbon Metropolitan Area, but also because they are the organisations I am participating in. This would have allowed me to paint a picture from a privileged position that, ethical issues aside, could give originality to my thesis and also possibly help the two organisations to improve their functioning, their actions and their self-perception.

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PhD ShiftHub: Presente e Futuro

Por: PhD SHIFTHub

Balanço dos anos de vida do Hub

Durante a pandemia de COVID-19, alguns estudantes de doutoramento do grupo de investigação Ambiente, Território e Sociedade (GI SHIFT) organizaram reuniões mensais informais que acabariam por resultar na criação do PhDSHIFTHub – um coletivo horizontal de estudantes, baseado na amizade, no respeito mútuo e na empatia. O PhDSHIFTHub começou por ser um espaço auto-organizado de entreajuda e partilha de ideias e experiências (pessoais e de investigação) entre doutorandos/as, com o intuito de quebrar o isolamento, rejeitar a competitividade entre pares e fortalecer os laços de solidariedade.

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Saúde e sustentabilidade numa calha comum: o caso do Programa Bairros Saudáveis

Por: João Guerra e Paulo Miguel Madeira

A saúde humana pode ser encarada de muitas formas e a partir de muitas frentes. Se o objetivo for resolver um problema pessoal e específico, uma abordagem mais incisiva recai num conjunto reduzido de fatores associado diretamente a uma enfermidade. Desse ponto de vista redutor, a avaliação da saúde baseia-se numa análise de cariz tendencialmente descontextualizada e reducionista, focada em processos individuais, físicos, observáveis e mensuráveis. No entanto, no campo mais alargado da saúde comunitária, esta abordagem mostra-se claramente insuficiente, já que, nesses contextos, social e ambiental, individual e coletivo, mesclam-se de forma intricada, funcionando como um ecossistema que determina as condições de existência.

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O valor da vida urbana: reflexões sobre habitabilidade, normatividade e exclusão

Por: Elizabeth Dessie; Tradução de André Pereira

**A versão original deste post pode ser consultada aqui.

O que faz com que a vida urbana valha a pena ser vivida? Com cidades em todo o mundo que consubstanciam os motores económicos de desenvolvimento e transformação, o valor do urbano tem sido geralmente conceptualizado em termos monetários. Mas como é que a habitabilidade interage com as necessidades e experiências subjetivas dos habitantes da cidade, e até que ponto a exclusão é uma parte integrante da patologia urbana sob efeito do capitalismo global? O que seriam as cidades se abandonássemos o capital como qualificador monetário de valor? E que descobertas faremos se integrarmos história e relacionalidade no entendimento do que são as cidades e do que é urbano? Este post pondera estas perguntas em relação às apresentações, discussões e interações que ocorreram no workshop “What makes urban life worth living? (Re)evaluating the value of urban life”, que decorreu em Lisboa, em maio de 2023, acolhido pelo Dinamia’CET (ISCTE-IUL) e pelo Urban Transitions Hub (ICS-ULisboa).

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Uma viagem à Amazónia

Por: Luiz Carlos de Brito Lourenço

O Brasil é um continuum de espaço e tempo ainda a ser revelado quando o tema é a Amazónia. Através do olhar vocacionado do cinéma du réel, o reconhecido produtor cinematográfico e documentarista brasileiro, João Moreira Salles – realizador de, entre outros, o corajoso Notícias de uma guerra particular (1999) e os biográficos Santiago (2007) e  No intenso agora (2017) –, escreveu Arrabalde: em busca da Amazônia (anteriormente referido neste blogue). São fotogramas de viagem a lugares do mais extenso cenário de biodiversidade do planeta. Salles compõe um abrangente registo de evidências e emoções sob a perspectiva ambiental, científica e socioeconómica, que multiplicam o conhecimento dos estudos sobre o bioma da Amazónia brasileira. Como numa novela, parte do texto foi periodicamente antecipada, a partir de novembro de 2021, em seis artigos densos para a revista de cultura Piauí, da qual Salles é editor. A versão impressa generosamente incorporou, pelo menos, um terço a mais de relatos.

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Come to Lisbon and see The Urban – the Lisbon Urban Studies Early Career Workshop

By: Marco Allegra

On November 8-10, 2023, ICS-ULisboa will host the 3rd edition of the Lisbon Early-Career Workshop in Urban Studies, which follows the editions of 2021 and 2022 – Luisa Rossini wrote a post on the 2022 edition. The Workshop is organised by the Urban Transitions Hub (UTH, an ICS-based horizontal and informal group of some fifteen-twenty scholars affiliated to various academic institutions).

As the UTH chair(although I shouldn’t be saying this myself) I can say that the first two editions of the workshop (one online and one in presence) have been very successful success, and the third edition promises to be even better.

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A Educação Ambiental na Comunidade de Países de Língua Portuguesa: Colaboração Multilateral, entre Política e Sociedade Civil

Por: Leonor Prata, Luísa Schmidt e João Guerra

Desde a Conferência de Estocolmo das Nações Unidas (ONU), em 1972, reconhece-se a urgência de medidas políticas e diplomáticas ambientais eficazes e transparentes, que capacitem os cidadãos a agir em prol do bem comum. Neste desiderato, surgiram marcos como a Agenda 21, na Cimeira do Rio (1992), e a Agenda 2030, na COP 21 em Paris (2015), que articulam níveis de governança (nacionais, regionais e locais) e participação pública.

No entanto, análises retrospetivas deste meio século revelam um fraco desempenho internacional na concretização destas medidas e concretamente no que diz respeito à Educação Ambiental e para o Desenvolvimento Sustentável (EA). Tal desenlace deve-se, por um lado, à sua falta de integração sistémica, resultando em medidas desarticuladas que reforçam entraves institucionais, técnicos e financeiros, e, por outro lado, à prevalência de curricula que visam inculcar conhecimentos e atitudes, mas carecem de abordagens propiciadoras de sentido crítico, significativas e interventivas no ambiente natural e sociocultural, ao longo da vida.

Esta reflexão centra-se na cooperação lusófona no campo da EA, a partir de um estudo desenvolvido no âmbito do Observatório de Ambiente, Território e Sociedade (OBSERVA/ICS-ULisboa).

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Participação na cadeia de valor do café: Uma investigação antropológica para apontar as assimetrias de poder

Por: Marie Sigrist

Já parou para pensar de onde vem esse café que você tomou hoje de manhã? Pois, então, pode ter sido cultivado no Brasil. De fato, mais de um terço do café exportado no mundo é produzido no Brasil. E, se o seu café é brasileiro, é bem provável que venha do Estado de Minas Gerais, que forneceu 22 milhões de sacas em 2022, ou seja, mais de 40% da produção do café brasileiro. Mais especificamente, o sul de Minas Gerais é apropriado para cafeicultura devido às suas cadeias de montanhas, temperaturas médias de 20 graus por ano e à sua latitude. Aliás, a região assumiu a liderança na produção nacional há cerca de 50 anos.

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