A interdisciplinaridade na pesquisa sobre mudança climática: reflexões a partir da experiência do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia no Brasil

Por: Julia S. Guivant

O apelo ao estudo interdisciplinar sobre mudança climática passou a ser bastante consensual, com maior número de periódicos publicando artigos com este caráter, e presente em editais de agências de financiamento. Este destaque está intimamente relacionado com a evidência incontestável sobre o papel da influência humana no clima. A interdisciplinaridade é considerada chave tanto para entender como as sociedades interpretam e respondem às mudanças climáticas quanto para formular e orientar na implementação de políticas públicas para mitigação e adaptação. É importante diferenciar a interdisciplinaridade, o estudo de um problema complexo integrando num esforço coletivo diversas perspectivas disciplinares, sem privilegiar um método ou uma teoria disciplinar, da multidisciplinaridade. Esta estuda um tópico a partir da perspectiva de várias disciplinas ao mesmo tempo, sem procurar integrar estas. E se diferencia da transdisciplinaridade, que tende a ser definida como um tipo de interdisciplinaridade, que procura integrar não apenas disciplinas, mas conhecimentos diversos, fora da academia.

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Adaptação climática: governança da água tem de ser mais justa e resiliente

Por: Carla Gomes

As medidas de racionamento de água no Algarve, anunciadas em janeiro pelo governo português para os setores da agricultura, turismo e até o doméstico, são um claro sinal de alerta sobre futuros cenários de escassez. Os eventos climáticos extremos, a maior parte dos quais estão relacionados com a água ou com a falta dela, causaram perdas de meio trilião de euros na Europa nos últimos 40 anos, bem como milhares de mortes. As secas são responsáveis, por si só, por 9 mil milhões de euros anuais de perdas.

O envolvimento dos cientistas sociais é mais crucial do que nunca para enfrentar a crise climática e para garantir uma governança da água mais resiliente e mais justa. Um tema que estará em discussão no dia 19 de Março no ICS-ULisboa, no âmbito do seminário SHIFT “Water justice for climate adaptation” (11h-13h). O documentário “Esta é uma história sobre água”, sobre os problemas e conflitos suscitados pela escassez hídrica no sul de Portugal, será o ponto de partida para o debate, que conta com a presença do realizador.

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Dois anos de Shared Green Deal: balanço das principais atividades

Por: Mónica Truninger

O projeto Europeu Shared Green Deal foi apresentado num post deste blogue há quase dois anos, a 16 de fevereiro de 2022. Naquela altura, o projeto estava ainda no início de um longo percurso de cinco anos. Por isso, vale a pena fazer agora um balanço das principais atividades realizadas passados dois anos, sobretudo aquelas que envolveram mais ativamente os membros do grupo de investigação SHIFT que fazem parte da equipa deste projeto.

Para recordar, o objetivo do Shared Green Deal é estimular ações conjuntas entre parceiros académicos e não académicos em torno de iniciativas promotoras do Pacto Ecológico Europeu (PEE), em toda a Europa. Para tal, estão a ser utilizadas ferramentas das Ciências Sociais e Humanas (CSH) para apoiar a implementação de oito áreas do Pacto Ecológico Europeu, a nível local e regional. Estas áreas são: Energia Limpa, Economia Circular, Renovações Eficazes, Mobilidade Sustentável, Alimentação Sustentável e Preservação da Biodiversidade. O trabalho realizado em cada uma destas frentes vai igualmente contribuir para dois importantes eixos transversais: a ação climática e as ambições de poluição zero do Pacto Ecológico Europeu.

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Agriculture in Europe: Power and Marginalization Dynamics

By: Kaya Schwemmlein

() there is no relationship of power without its corresponding constitution of a field of knowledge, no relationship of knowledge that doesn’t imply and constitute at the same time relationships of power” (Foucault, 1978)

Agriculture in Europe, as a practice and a field of knowledge, has been inextricably linked to the concept of development used in Western society since the Industrial Revolution (late 18th and 19th centuries). Historically speaking, the process of development has its roots in a patriarchal project that claims to satisfy society’s needs and achieve constant progress by commodification of commons, by accumulation of capital and by increase of private ownership, profits and Gross Domestic Product (GDP) (e.g., Watson, 2004; Shiva, 1988). Development in the agricultural sector, then, translates into a constant demand for space, resources and capital for a steady production and accumulation of food that systematically demands the privatization of a vast number of common resources (i.e., seeds and water) and demands a constant flow of cheap labor and “available” land (e.g., Nolte et al., 2016, Holt-Giménez, 2017).

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Um Living Lab para a monitorização e avaliação participativa da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza

Por: Roberto Falanga e Daniel Silva

No âmbito do protocolo assinado entre o Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa e o PlanAPP – Centro de Competências de Planeamento, de Políticas e de Prospetiva, a equipa coordenada por Roberto Falanga, um dos autores deste post, teve a responsabilidade de produzir conhecimento sobre o estado da avaliação das políticas públicas em Portugal numa primeira fase, entre 2022 e 2023, e avançar com um modelo de monitorização e avaliação participativa numa segunda fase, em 2023. Neste post, debruçamo-nos sobre algumas das principais aprendizagens retiradas da segunda fase, que foi desenvolvida em parceria com a equipa coordenadora da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza (ENCP). A partir dessa tripla parceria, o ICS, o PlanAPP e a equipa coordenadora da ENCP estruturaram o primeiro Living Lab do género de que há conhecimento em Portugal, cujo foco foi a preparação de um roteiro para as entidades que irão envolver a população destinatária na monitorização e avaliação de medidas enquadradas e enquadráveis na ENCP. Convém salientar que o carácter inovador desta experiência adquire ainda mais relevância perante o quadro pouco animador da avaliação de políticas públicas no país, que foi apresentado num capítulo de autoria de Roberto Falanga e Camila Costa nos Cadernos do Observatório da Qualidade da Democracia 2023.

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Para Além dos Riscos e Benefícios: Inteligência Artificial, Ferramentas Digitais e Reflexividade na Investigação em Ciências Sociais

Por: Jussara Rowland

Ao longo do último ano, assistimos a um aumento significativo nas discussões sobre o uso da Inteligência Artificial (IA) na academia e os seus potenciais impactos. Este debate, impulsionado pelo lançamento público do ChatGPT em novembro de 2022, centrou-se inicialmente na criação de texto sintético por parte dos novos grandes modelos de linguagem, nos riscos de plágio e nas implicações destas tecnologias para as práticas de avaliação nas universidades. A discussão, entretanto, tem-se vindo a expandir, abrangendo outras questões relacionadas com as diversas implicações éticas, práticas e ambientais da adoção da IA no ensino superior.

Simultaneamente, testemunhámos a expansão da IA na academia em diferentes frentes que vão além do ChatGPT. As funcionalidades da IA, como transcrições automáticas, texto preditivo, ferramentas de anotação interativas, sínteses de artigos e reuniões, chatbots para pesquisas, e análises qualitativas e quantitativas com recurso à IA tornaram-se realidades na nossa vida académica e na dos estudantes que ensinamos. Funcionalidades que eram ainda relativamente incipientes durante os meses em que estivemos online durante a pandemia são agora parte integral das ferramentas que utilizamos nas nossas práticas de investigação quotidiana, quer queiramos quer não.

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Incursão livre sobre os dados do Barómetro Habitação da Fundação Francisco Manuel dos Santos

Por: Alda Botelho Azevedo

Dois dias depois da demissão do Primeiro-Ministro António Costa, no âmbito do que viria a ser conhecida como a Operação Influencer, foi publicado o Barómetro Habitação da Fundação Francisco Manuel dos Santos, em que tive o prazer de participar com o João Pereira dos Santos, do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa. Apesar da atenção mediática e da opinião pública estarem centradas sobretudo no que se passava na arena política, o Barómetro Habitação recebeu ampla cobertura dos meios de comunicação social.

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Da esquizofrenia das políticas ambientais em Portugal. Conhecimento de base científica no apoio à tomada de decisão – Precisa-se

Por: Rosário Oliveira

Em contexto de instabilidade generalizada à escala global, as políticas ambientais ganharam um estatuto quase esquizofrénico, tornando-se difícil, senão impossível, prever a trajetória que irão prosseguir para evitar a hecatombe climática e de perda de biodiversidade, com consequências trágicas para a sobrevivência dos ecossistemas e da sociedade do século XXI.

Não se trata de um discurso catastrofista, senão do reconhecimento factual acerca do descomprometimento e desresponsabilização dos países relativamente aos Acordos internacionais para inverter a tendência de aquecimento global e de perda massiva da biodiversidade.

No momento em que a Organização das Nações Unidas (ONU) promove a 28ª edição da Conferência das Partes – COP 28, sobre mudanças climáticas, fica claro o jogo de forças das grandes potências mundiais entre apostar na economia do carbono ou na sua descarbonização.

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A energia comunitária em Portugal na transição para as renováveis: uma caracterização preliminar

Por: Vera Ferreira

Em Portugal, no quadro da transição energética, as iniciativas coletivas em torno da energia, ou energia comunitária, permanecem residuais. Não obstante, os enquadramentos legislativos europeu e português encorajam o incremento da produção descentralizada de energia renovável, entendendo-a como uma condição para a participação ativa dos cidadãos no sistema energético e, consequentemente, para alcançar uma transição mais justa e democrática.

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Atrito de inteligências urbanas no urbanismo periférico orientado por dados

Por: Tomás Donadio, Lalita Kraus, Aldenilson Santos e Ramon Carnaval

Desde os anos 1990, consolidaram-se modelos de gestão pública que promovem estratégias de mensuração e monitoramento da vida urbana. Atualmente, estes modelos aliam-se ao acelerado desenvolvimento tecnológico e à sua aclamada função de tornar as cidades mais sustentáveis, humanas e inteligentes. O discurso de cidades inteligentes tornou-se um leitmotif capaz de definir agendas, políticas e projetos urbano-tecnológicos, expandindo infraestruturas computacionais embutidas, distribuídas e integradas no ambiente urbano, como câmaras de vigilância e sensores, somando-se aos dispositivos utilizados individualmente, como redes sociais e aplicações móveis. Entretanto, o urbanismo orientado por dados materializa-se tanto em agendas de cidades inteligentes quanto em iniciativas subalternas, acarretando atritos entre inteligências urbanas divergentes. No Rio de Janeiro, a investigação de ações governamentais e cívicas orientadas por dados contribui para a compreensão de como as lutas pelo direito à cidade avançam de forma agonizante na periferia global. Através de um estudo urbano comparativo, esta investigação explora duas abordagens contrastantes em arranjos sociotécnicos: uma promovida pelo poder público através de uma agenda hegemónica de suposta modernização urbana; outra que emerge nas periferias pela agência da sociedade civil, subversiva e contra-hegemónica.

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