Clima e energia: política pública de ambiente em Cabo Verde

Por Luzia Oliveira

O resultado da COP 21 em Paris evidenciou a importância que a questão das alterações climáticas ocupa na agenda dos decisores políticos, tanto à escala macro como micro. Os compromissos assumidos pelos grandes e pequenos países emissores, como é o caso de Cabo Verde, mostram que não há outro caminho que não seja a opção por uma política voltada para a descarbonização da economia, a fim de evitar que a temperatura média global ultrapasse os 2ºC acima dos níveis pré-industriais.

Apesar de a primeira reunião pós-Paris COP 22, realizada em Marraquexe, ter terminado num clima de incerteza devido às eleições presidenciais norte-americanas, ficou patente que o paradigma do desenvolvimento atual, baseado essencialmente em combustíveis fósseis, é incompatível com a capacidade de absorção do planeta. Refiro-me à capacidade de sequestro por parte dos grandes sumidouros naturais, como sejam os oceanos e florestas, e mesmo das tecnologias desenvolvidas para potenciar tal capacidade, pelo que todos os esforços devem ser desencadeados para tentar inverter a trajetória de crescimento das emissões de gases com efeito de estufa. Não restam dúvidas de que é indispensável a opção por uma política energética assente na produção por fontes renováveis, conjuntamente com medidas de eficiência energética, que vão desde alternativas para otimizar a produção até às pequenas práticas individuais para racionalizar o consumo. Continuar a ler

Uma agenda social para as alterações climáticas: CLIMA EXPO 360 e Conferência no MNHNC

Carla Gomes

A necessidade de criar em Portugal uma verdadeira agenda social para as alterações climáticas ficou como uma das grandes questões em aberto da conferência ‘Alterações Climáticas: por onde passa o futuro próximo?’, que teve lugar no Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MNHNC). A conferência, que contou com a participação de investigadores franceses e portugueses, realizou-se em paralelo com a inauguração da Exposição CLIMA EXPO 360, que pode ser visitada no museu até 28 de Fevereiro. A inauguração contou com a presença do Ministro do Ambiente e do Embaixador de França.

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Poucos dias após a Conferência Global sobre as Alterações Climáticas (COP22), que terminou a 18 de Novembro em Marraquexe, o painel de cientistas convidados trouxe à discussão os principais desafios que se colocam atualmente nas frentes da mitigação e da adaptação. Filipe Duarte Santos, da Faculdade de Ciências da ULisboa, apresentou os cenários possíveis para as alterações climáticas, bem como as suas consequências sociais e económicas, nas próximas décadas. Júlia Seixas, investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, abordou as estratégias e medidas necessárias a uma economia de baixo carbono, em áreas como a energia ou os transportes.

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A palestra cultural do clima

Autora: Adriana Ferreira Alves

O convidado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS ULisboa), para a palestra de abertura do ano lectivo 2016/2017  foi o inglês Mike Hulme.

Geógrafo de formação, trabalhou durante 25 anos na Universidade de EastAnglia, sendo actualmente professor de Climate and Culture, no King’s College London (Faculty of Social Science & Public Policy), onde dirige o Departamento de Geografia e coordena o Grupo de Investigação sobre Clima. Está na direcção editorial de várias revistas científicas, entre as quais a conceituada WIREs Climate Change.

The cultural fonctions of Climate foi o tema da sua palestra, no passado mês de Outubro, onde, no conjunto dos programas doutorais da Universidade de Lisboa, se destaca, como o maior e um dos mais internacionais Doutoramentos da Universidade de Lisboa, precisamente o Programa Doutoral em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável. Continuar a ler

Sustentabilidade e Justiça no Antropoceno

Autor: André Silveira

A sessão de lançamento do barómetro da sustentabilidade, organizada pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS-UL) no passado dia 6 de Setembro, tocou em aspetos da sustentabilidade e da governança que aqui merecem reflexão, e se podem associar ao conceito de justiça, no seu sentido mais lato.

O Ministro do Ambiente terminou a sua intervenção na sessão com dois pontos de particular interesse: (a) a constatação de que a administração pública está  demasiado distante das pessoas no que respeita à gestão do território, dos recursos naturais e dos ecossistemas que providenciam esses recursos; (b) um repto lançado ao grupo SONAE para que se faça uma análise cuidada da pegada ecológica dos seus produtos e cadeias logísticas, e se disponibilize esta informação ao consumidor.

Estes pontos vincam, por um lado, o interesse do estudo da sustentabilidade de modelos de produção e de consumo intensivos de alcance planetário e, por outro, a importância das instituições de proximidade que permitam criar parcerias com a população local, monitorizar a saúde dos ecosistemas e fazer face a desafios socio-ambientais do Antropoceno, como a poluição e as alterações climáticas.

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Estágio Ciência Viva no Laboratório 2016 –“Alterações climáticas e sociedade”- resumo da semana.

Texto escrito pelos participantes do estágio “Alterações climáticas e sociedade”, dinamizado no ICS-ULisboa no âmbito do programa Ciência Viva no Laboratório. 

Autores: David Silva, Rita Bernardo, Manuel Madeira, Sara Martins, Sofia Barata.

Na semana de 18 a 22 de Julho de 2016 decorreu, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, um estágio no âmbito do programa Ciência Viva no Laboratório designado de “Alterações climáticas e a sociedade”. Este estágio teve como objetivo a análise da temática das alterações climáticas e a sua vertente sociológica.

No primeiro dia do estágio foi apresentado o programa das atividades que iriam decorrer, assim como outras informações relevantes. Esta manhã contou com a presença da organizadora do estágio, Ana Delicado, e uma das monitoras que iria estar connosco, Mónica Truninger. Na parte da tarde, fomos orientados pela Mónica na realização de um Focus Group. Selecionámos algumas perguntas às quais achámos importante encontrar respostas ao longo da semana: “Como podemos diminuir as emissões de CO2?”; “ Como será o planeta em 2100?”; “Serão os veículos eléctricos uma alternativa sustentável?”; “Com as mudanças no quotidiano podemos inverter o ciclo?”; “ O que é que os governos estão a fazer em relação às alterações climáticas?”.

No segundo dia, pela parte da manhã, contámos com a presença do investigador João Mourato, que nos propôs a realização de um powerpoint em que incluíssemos algumas fotos da costa portuguesa que demonstrassem o efeito negativo das alterações climáticas nas praias e também o papel das imagens na transmissão de mensagens e informação. Durante a tarde, com a companhia da investigadora Ana Horta, procuramos perceber se as notícias sobre as alterações climáticas eram sensacionalistas ou objectivas. Chegámos à conclusão que, em relação a este tema, os dois jornais analisados (Correio da Manhã e Jornal de Notícias) não são sensacionalistas. Continuar a ler

Imagine shaping your future

Author: Olivia Bina

An inquiry into how art and science can at times disagree about our future, and why it matters

Science and research agendas are an exercise in future thinking. They help to shape futures by planning to create the knowledge that will bring about desired change and transformation. For this reason, research policy, matters. And when it happens to reach a budget of almost 80 billion euros – as is the case of the EU Framework Programme for Research and Innovation (Horizon 2020) from 2014 to 2020 –it matters a great deal. Horizon 20202 is meant to help member states and the EU to respond to seven “societal challenges” that essentially define the strategic focus of Europe’s programme and of all the annual calls that arise from it.

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As Alterações Climáticas e o Ordenamento do Território: ameaça e oportunidade

Autor: Alfredo Leal Franco

As alterações climáticas aparecem geralmente como o ambiente em risco e uma ameaça para a humanidade, mas também podem ser vistas como uma oportunidade para estimular uma mudança estrutural que favoreça a resolução de outros problemas. Analisaremos esta questão na perspetiva da intervenção do ordenamento do território nos processos de adaptação às alterações climáticas.

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Autor: John Ditchburn; Fonte: http://inkcinct.com.au/ 

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Antropoceno: o derradeiro axioma escatológico?

Autor: João Mourato

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Fonte: Image: ‘Habitus’ (2013) Edge Hill University, Ormskirk, Lancashire, by Robyn Woolston.

No século I A.D., num lugar remoto que recentemente visitei, um meu homónimo relatou detalhadamente a visão profética e apocalíptica sobre o fim de tudo que o filho do seu Deus lhe tinha transmitido. O resultado é o que conhecemos hoje como o Livro da Revelação do Novo Testamento, pilar incontornável da escatologia cristã. A escatologia consiste na linha de pensamento filosófico / teológico que aborda os últimos eventos da história do mundo e o destino final da humanidade. Sublinhe-se, porém, que existe também um campo de reflexão escatológica de natureza secular. Em comum, ambas exploram a discussão do fim das eras, do tempo e da vida tal como os concebemos, e dos processos que os sucedem, se de facto estes existirem. Daqui emerge um profícuo universo filosófico, literário e cinematográfico que plasma um binómio narrativo entre retratos utópicos e distópicos do fim do mundo, perfeito enquadramento para o conceito que aqui iremos explorar. Continuar a ler

Green Growth Knowledge Platform. O que é, para que serve?

Autor: António Sobrinho

Com o propósito de divulgar e contribuir para a transição rumo a uma economia verde (equitativa, de baixo carbono, eficiente em recursos e socialmente inclusiva), quatro organismos – o Global Green Growth Institute (GGGI), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) e o Banco Mundial – decidiram criar em Janeiro de 2012 a Green Growth Knowledge Platform (GGKP).

Das quatro organizações internacionais atrás referidas, a mais recente e, eventualmente, a menos conhecida – GGGI – foi fundada em 2012 durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio+20. Tem como missão apoiar e promover o crescimento económico robusto, sustentável sob o ponto de vista ambiental e socialmente inclusivo nos países em desenvolvimento e nas economias emergentes. Está sedeada em Seoul, na Coreia do Sul.

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Nem no meu quintal, nem no de ninguém: a luta contra a exploração de petróleo e gás no Algarve

Autora: Ana Delicado

É comum afirmar-se que a participação cívica em Portugal é baixa. E, de facto, olhando para a subida contínua da abstenção eleitoral ou para os resultados dos inquéritos internacionais que demonstram que Portugal tem das taxas mais baixas na Europa de participação em manifestações (7%), assinatura de petições (8%) ou contacto direto com um representante político (6%) (European Social Survey, 2012), esta afirmação parece confirmar-se.

No entanto, o que uma leitura mais atenta da realidade demonstra é que, quando os problemas ambientais (ou de outra natureza) as afetam diretamente, as pessoas mobilizam-se, procuram informação e aliados, exercem pressão para ver os seus interesses e necessidades satisfeitos. Foi disso exemplo o prolongado caso da coincineração de resíduos perigosos e, agora, a mobilização contra a exploração de petróleo e gás natural no Algarve.

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