Narrativas gráficas nas Ciências Sociais: uma oficina prática com Júlia Barata

Por: Jussara Rowland, Júlia Barata e Inês Ponte

No passado dia 12 de janeiro, o ICS acolheu a oficina Narrativas Gráficas nas Ciências Sociais, organizado por Jussara Rowland (INESC-ID e ICS-ULisboa) e Inês Ponte (ICS-ULisboa), e dinamizada pela artista gráfica Júlia Barata. Ao longo de um dia inteiro de trabalho, participantes com percursos diversos exploraram o potencial do desenho e da banda desenhada enquanto ferramentas de investigação e de comunicação nas ciências sociais. O ponto de partida era simples: não era necessária experiência prévia em desenho. O que estava em causa era o processo.

Esta oficina inscreveu-se no seguimento do seminário teórico sobre o potencial da narrativa gráfica nas ciências sociais, realizado a 10 de novembro de 2025. Nesse encontro, a exposição centrou-se nas ferramentas e possibilidades da articulação entre texto e imagem, através de um exercício de metalinguagem: uma narrativa gráfica desenhada para explicar o que é uma narrativa gráfica. Foram apresentados vários exemplos de trabalhos de autores de diferentes contextos nacionais, estilos e técnicas, nos quais se exploram temas como a memória histórica e subjetiva, a autorreferencialidade ou o gesto documental de registo de entrevistas através do desenho. O debate abriu-se também às potencialidades e aos obstáculos da representação artística, bem como às possibilidades de criação ou de acompanhamento de processos criativos no contexto da produção prática.

Imagem 1. Slide do seminário teórico da autoria de Júlia Barata

Desenhar para pensar

Nas últimas décadas, a banda desenhada tem-se afirmado como um campo emergente nas ciências sociais, situado entre investigação, criação artística e comunicação científica. A sua capacidade para integrar texto e imagem, representar experiências sensoriais e emocionais, e alcançar públicos para além da academia tem sido sublinhada por vários autores (Barberis & Grüning, 2021; Kuttner, Sousanis & Weaver-Hightower; Martikainen & Hakoköngäs, 2023). Esta oficina partiu desse enquadramento, mas privilegiou sobretudo a experimentação prática.

Imagem 2. O início do processo criativo (fotos: equipa organizadora)

A manhã começou com a análise de narrativas gráficas de perspetivas e autorias diversas, com particular atenção a obras latino-americanas e europeias. Este momento funcionou como ponto de partida para pensar a narrativa gráfica enquanto linguagem, com regras próprias, mas também aberta à ambiguidade e à experimentação.

O período da tarde foi dedicado ao desenvolvimento de um relato gráfico individual. A partir de propostas abertas, os participantes trabalharam temas ligados à memória, à documentação social, à autorreflexão e à ficção especulativa. O desenho surgiu como um dispositivo de mediação: entre experiência subjetiva e significados sociais, entre o implícito e o verbalizado, entre o sensível e o analítico.

Processo, escuta e abertura

Com um percurso que cruza arquitetura, banda desenhada, ilustração e investigação artística, Júlia Barata trouxe para a oficina uma abordagem situada entre práticas artísticas e reflexão crítica. Autora de várias novelas gráficas e com trabalho desenvolvido entre Portugal e Argentina, tem-se dedicado também ao ensino e à orientação de projetos gráficos.

Image 3. Júlia Barata acompanhando uma das participantes (foto: equipa organizadora)

O acompanhamento foi marcado por uma atenção às intenções de cada participante. O desenho foi tratado como um processo emergente de construção de sentido à volta de temas e questões de investigação específicas. Apesar do frio que se sentia na sala, as partilhas coletivas ao longo do dia criaram um espaço de confiança e aprendizagem mútua.

Ao longo do processo, tornaram-se visíveis diferentes ritmos e estratégias narrativas. Os trabalhos desenvolvidos abordaram temáticas diversificadas, nomeadamente: práticas de cuidado no contexto dos bancos alimentares, avaliação de projetos culturais, materialidade dos oceanos, origem de migrações portuguesas, exploração da noção de casa em contexto migratório, cumplicidade de ordens religiosas com a violação de mulheres, entre várias outras. Algumas propostas exploraram a sequencialidade clássica da banda desenhada, outras trabalharam a ilustração, houve ainda quem usasse colagens. Em comum esteve a atenção ao traço e à relação dinâmica entre ideia, palavra e imagem.

Experimentar outras linguagens

Num contexto académico frequentemente marcado pelo predomínio do texto linear, oficinas como esta sublinham a importância de criar espaços onde seja possível testar outras formas de pensar e comunicar o social. A narrativa gráfica mostrou-se como uma prática exigente, capaz de articular experiência, análise e imaginação, e não como uma forma simplificada de comunicação.

Os resultados foram reveladores de abordagens e preocupações muito variadas. Partilhamos aqui um conjunto de registos das zines e narrativas gráficas em desenvolvimento, que mostram a pluralidade de processos iniciados ao longo desta oficina.

Imagem 4. Zines e narrativas gráficas desenvolvidas durante a oficina (fotos: equipa organizadora)

Um agradecimento especial a todas e todos os participantes pelo envolvimento e generosidade nas partilhas, bem como ao Arquivo de História Social pelo apoio. Esperamos que esta oficina seja apenas o início de novas experiências em torno das narrativas gráficas nas ciências sociais no ICS.

Jussara Rowland é socióloga e investigadora auxiliar no INESC-ID, onde é coordenadora executiva da linha de investigação Societal Digital Transformation. É também professora auxiliar convidada no Instituto Superior Técnico e investigadora associada no ICS-ULisboa.

Júlia Barata é arquiteta e autora portuguesa de banda desenhada, residindo atualmente em Buenos Aires. Desenvolve trabalho nas áreas da banda desenhada, ilustração e animação experimental, e leciona banda desenhada e clínica de projeto gráfico em diferentes contextos e instituições.

Inês Ponte é antropóloga e investigadora auxiliar no ICS-ULisboa. Desde fevereiro de 2023, é coordenadora científica do Arquivo de História Social, infraestrutura de investigação do ICS-ULisboa, articulando investigação, arquivos e memória social.

Venham ao Fórum da Habitação! (Post promocional-epistemológico)

Por: Marco Allegra

A equipa do projeto LOGO está a organizar o primeiro Fórum da Habitação do projeto no dia 26 de março.

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Para Além dos Riscos e Benefícios: Inteligência Artificial, Ferramentas Digitais e Reflexividade na Investigação em Ciências Sociais

Por: Jussara Rowland

Ao longo do último ano, assistimos a um aumento significativo nas discussões sobre o uso da Inteligência Artificial (IA) na academia e os seus potenciais impactos. Este debate, impulsionado pelo lançamento público do ChatGPT em novembro de 2022, centrou-se inicialmente na criação de texto sintético por parte dos novos grandes modelos de linguagem, nos riscos de plágio e nas implicações destas tecnologias para as práticas de avaliação nas universidades. A discussão, entretanto, tem-se vindo a expandir, abrangendo outras questões relacionadas com as diversas implicações éticas, práticas e ambientais da adoção da IA no ensino superior.

Simultaneamente, testemunhámos a expansão da IA na academia em diferentes frentes que vão além do ChatGPT. As funcionalidades da IA, como transcrições automáticas, texto preditivo, ferramentas de anotação interativas, sínteses de artigos e reuniões, chatbots para pesquisas, e análises qualitativas e quantitativas com recurso à IA tornaram-se realidades na nossa vida académica e na dos estudantes que ensinamos. Funcionalidades que eram ainda relativamente incipientes durante os meses em que estivemos online durante a pandemia são agora parte integral das ferramentas que utilizamos nas nossas práticas de investigação quotidiana, quer queiramos quer não.

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Notes on co-production exercises between academia and social movements

By: Antonio Gori

«Aucun “je” dans ce qu’elle voit comme une sorte d’autobiographie impersonnelle – mais “on” et “nous” – comme si, à son tour, elle faisait le récit des jours d’avant »

(Annie Ernaux, Les Annés, 2008: 252)

My research aims to trace the history of the housing struggle movements in the city of Lisbon over the last decade. In doing so, I focus on the activities of two groups of which I have had the pleasure and honour of being a member for several years now: the Habita association and the Stop Despejos collective.

The choice to study these two organisations stems not only from the fact that they are the two main protagonists of this type of instance in the Lisbon Metropolitan Area, but also because they are the organisations I am participating in. This would have allowed me to paint a picture from a privileged position that, ethical issues aside, could give originality to my thesis and also possibly help the two organisations to improve their functioning, their actions and their self-perception.

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Come to Lisbon and see The Urban – the Lisbon Urban Studies Early Career Workshop

By: Marco Allegra

On November 8-10, 2023, ICS-ULisboa will host the 3rd edition of the Lisbon Early-Career Workshop in Urban Studies, which follows the editions of 2021 and 2022 – Luisa Rossini wrote a post on the 2022 edition. The Workshop is organised by the Urban Transitions Hub (UTH, an ICS-based horizontal and informal group of some fifteen-twenty scholars affiliated to various academic institutions).

As the UTH chair(although I shouldn’t be saying this myself) I can say that the first two editions of the workshop (one online and one in presence) have been very successful success, and the third edition promises to be even better.

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Quando os espaços perdem o nome: Considerações sobre o anonimato organizacional

Por: Fábio Rafael Augusto

Em 2018, escrevi um post para este mesmo blogue acerca dos desafios com que me deparei no acesso ao terreno de pesquisa. Entre os vários constrangimentos identificados, no decurso da minha investigação de doutoramento, encontravam-se as várias exigências dos responsáveis pelas iniciativas de apoio alimentar que analisei (Organização de Redistribuição de Alimentos – ORA, Cantina Social e Mercearia Social). Tratando-se de um projeto que envolvia a realização de observação participante, por intermédio da prática de voluntariado, era crucial garantir que o acesso às organizações envolvidas ocorria de forma fluida e flexível. Uma das imposições que acabaria por marcar decisivamente o desenrolar da pesquisa, bem como o ritmo e o tom em que a tese seria escrita, prendeu-se com a garantia do anonimato organizacional.

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Co-Produção: A Inteligência Humana ao Serviço das Nossas Cidades

Por: Diogo Martins

Estamos sempre a falar em cidades mais inteligentes, com sensores, inteligência artificial, com software que irá gerir tudo ao pormenor, com tecnologia que nós, hoje, não conhecemos. Mas em que medida toda esta tecnologia traz benefícios às pessoas que habitam e frequentam as cidades? E estaremos a tirar partido da inteligência dessas pessoas para melhorar as nossas cidades?

A minha proposta é explorarmos formas de voltar às pessoas, sem deixarmos de evoluir e usar tecnologia. A co-produção é ainda pouco utilizada no nosso dia-a-dia e por isso não vemos efeitos práticos disso nas nossas cidades com a frequência que é desejável.

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PilotSTRATEGY Captura e Armazenamento de Carbono em Portugal

Por: Jussara Rowland, Ana Delicado, Luísa Schmidt

As alterações climáticas são um problema “malvado” (wicked, na terminologia inglesa). Complexo, de difícil resolução, não há uma “bala mágica” que o consiga travar. Da mudança de comportamentos individuais à transformação dos sistemas de produção e consumo globais, muitas são as propostas para prevenir um aumento catastrófico da temperatura no planeta, como múltiplas são as respostas tecnológicas que podem contribuir para isso. Segundo o IPCC e a Comissão Europeia, a captura e armazenamento geológico de carbono é uma das respostas possíveis,  particularmente relevante para mitigar as emissões carbónicas de algumas indústrias cujos processos industriais implicam a produção de CO2. O CO2 é capturado nas grandes fontes emissoras industriais ou de produção de energia, comprimido em estado líquido e transportado por gasoduto, navio ou comboio para ser injetado no subsolo, geralmente a profundidades superiores a 1 km. O armazenamento é feito em formações geológicas como aquíferos salinos profundos, reservatórios esgotados de petróleo ou gás, ou em camadas de carvão não-exploráveis.

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A Cidade das Mulheres: Lisboa no Cinema

Por: Mariana Liz

Num filme produzido para a celebração de Lisboa, Capital Europeia da Cultura, em 1994, Manuel Mozos reuniu imagens da capital portuguesa que até então tinham aparecido no cinema. A excertos de filmes como Os Verdes Anos, Um Adeus Português ou O Bobo, juntou depoimentos dos realizadores Paulo Rocha, João Botelho e José Fonseca e Costa, entre outros. O “outros” é intencional: é apenas uma a realizadora entrevistada, Teresa Villaverde. As estatísticas são conhecidas e têm sido cada vez mais discutidas na esfera pública: em Portugal, são realizados muitos menos filmes por mulheres do que homens, o que, aliás, está em linha com a situação na Europa. De acordo com um estudo de dezembro de 2021 do Observatório Europeu do Audiovisual, apenas 25% dos filmes europeus dos últimos anos foram realizados por mulheres.

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A report from the Urban Transitions Hub

By: Urban Transitions Hub

The Urban Transitions Hub was born in 2018 on the initiative of a relatively small group of ICS researchers (from the research group Environment, Territory, and Society, now the research group SHIFT-ATS) who shared an interest in the urban, both as a theoretical object, and as a site for the investigation of social phenomena – our topics range from housing policy to participatory governance, from urban planning to demography and security.

Since then, UTH’s membership has expanded, becoming more heterogeneous, and its activity has intensified – check out some interesting events and publications. That’s why last year we thought that it would be a good idea to reflect together on the trajectory of the UTH.

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